CulturaDistrito de Lisboa

“A indústria musical portuguesa ainda é um meio muito masculino”

Nesta segunda parte da entrevista, Libra discute como é que ela explora as suas raízes na sua música, as influências culturais que se destacam nas letras e nos sons, e como ela lida com a representação das mulheres e diversidade na indústria musical portuguesa.

Ela também explica as frustrações de ser uma mulher na indústria musical portuguesa, esta dominada por homens, referindo ainda como a discriminação, tanto consciente quanto inconsciente, torna difícil para as mulheres ingressarem nesta indústria.

A artista discute o papel da música na sociedade atual e sua visão para o futuro da música em Portugal e como é que as redes sociais impactam o panorama musical nos dias de hoje, colocando também uma porção de esperança no futuro da musica portuguesa.

Como é que exploras as tuas raízes na tua musica e que influencias culturais se destacam nas tuas letras e sons?

O HipHop e o RnB são géneros de música negra. Eu não sou puramente africana, como é fácil perceber.No entanto eu cresci convencida de que não pertencia à comunidade negra por ser demasiado clara. A minha família fez-me acreditar nisso. A questão é que tudo em mim gritou pela minha negritude renegada por quem me educou. Eu cresci numa família meia portuguesa meia africana mas fui educada essencialmente por duas mulheres africanas. Para uma criança crescer num meio africano que quer à força atira-la para o lugar branco gera uma crise de identidade muito profunda.

Conto isto para que percebas a razão de eu não me inspirar diretamente na minha raiz portuguesa para escrever. O que exploro na minha música vem essencialmente desta procura por quem sou e desta urgência de falar do entre-lugar, da minha ânsia de abraçar a minha negritude e da procura pelo equilíbrio que tanta falta me tem feito no meu crescimento. Talvez o expectável fosse fazer música em português com algumas referências à música portuguesa e trazer os ritmos de Angola e de Cabo Verde..talvez. No entanto não é aí que me revejo.

Talvez me sinta uma cidadã do mundo já que nunca me senti propriamente portuguesa, nem angolana, nem cabo-verdiana e talvez tenha esta necessidade de ser rapper e cantora, porque sempre me quiseram definida num só lugar. Só que eu não pertenço a um só lugar, nem no que toca a música nem no que toca à minha raiz. Acho que é essencialmente isto que trago das minhas raízes para a minha música. A dualidade na qual sempre me encontrei que felizmente passou de uma luta a uma coexistência bonita de dois polos, que nada mais devem fazer se não completarem-se.

Como é que lidas com a questão da representação da mulher e da diversidade na industria musical portuguesa?

A indústria portuguesa é extremamente frustrante. Não só por ser mulher, porque é uma indústria que não está preparada nem aberta a sonoridades novas em solo português , e isto é um problema que afeta todos, mas ainda é mais frustrante para mim que sou mulher.

A indústria musical portuguesa ainda é um meio muito masculino, o meio do hip-hop então nem se fala .. tens provar muito mais de ti para conseguires crédito como profissional.

Se olhares para as profissões mais técnicas da indústria como produtor/a musical, artist manager, music agent, videographer, photographer, music engineer, and soo on .. contas pelos dedos as mulheres que singram nestas profissões. E acredita, há cada vez mais a tentarem profissionalizar-se no entanto não há espaço para elas, creio eu que devida a uma

discriminação inconsciente e muitas vezes consciente, que faz com que estas profissionais tenham de se esforçar o triplo para provarem a quem de direito que são competentes.

Se falarmos na minha esfera, mulheres artistas, passamos por tentativas de manipulação constantes, assédios e mansplaining por parte dos nossos pares masculinos (que não nos consideram pares) com quem tentamos simplesmente trabalhar. O mais comum é ou reconhecerem determinado talento em nós, que está normalmente ligado à nossa imagem ou ao nosso timbre ou atitude mas rejeitam o nosso contudo intelectual e tentam manipular-nos no processo para tirar proveito do que acham que temos

de melhor ou nem sequer chegamos a essa parte porque antes de iniciarmos qualquer processo de trabalho já nos estão a convidar para um copo ou a fazer elogios desadequados. Claro que não se aplica a todos os homens da indústria mas infelizmente aplica-se a todas a mulheres da indústria.

Como é que vês o papel da musica na sociedade atual e qual é a tua visão para o futuro da musica em Portugal?

Para minha infelicidade a música na sociedade atual serve sobretudo para entretenimento.

O TikTok está a matar a música. Sim, soa fatalista. Mas a realidade, pelo menos aos meus olhos, é que os artistas se sentem pressionados pela necessidade de competir contra quem faz música de consumo rápido. O público foi completamente consumido pelas redes sociais. Claro que ainda tens público para música de digestão lenta mas é cada vez mais difícil que os verdadeiros artistas cheguem ao seu público.

Há muito barulho no caminho que a arte tem de percorrer até chegar ao seu público. Isto faz com que cada vez menos arte seja criada para dar lugar a músicas, que para mim, não podem ser consideradas arte, para que os criadores possam comer.

Esta situação é uma bola de neve. Quem tem fome faz o que tiver de fazer para comer, e muitos artistas acabam por ter a sua fase de “prostituto/a musical” para conseguir comer. O problema é que estes ciclos se perpetuam enquanto não houver um movimento consciente e robusto o suficiente para abrandar e redirecionar a evolução do consumo de música.

Eu não sou muito crente de que o futuro próximo da música em Portugal é risonho. Pelo menos não para os artistas de corpo e alma. Tenho esperança sim, porque vejo que nos unimos cada vez mais no sentido de quebrar esta tendência de fazer o que já foi feito, para vender ou para nos darem a oportunidade de ter visibilidade suficiente para vender.

A questão é que os gatekeepers desta indústria são tão conservadores quanto o nosso país

no seu cerne ainda é. Eu amo Portugal mas Portugal não ama os seus artistas. Talvez um dia os artistas que amam Portugal consigam que este amor seja recíproco mas a meu ver, não será num futuro próximo a não ser que uma revolução aconteça.

Quais são as tuas influencias musicais na tua carreira musical?

Eu considero que toda a música que ouvi desde criança me influencia naquilo que crio neste momento mas posso dizer que diretamente as minhas influências neste momento são essencialmente J Cole, Little Simz, Kendrick Lamar , Jorja Smith e JID.

Quais são os teus planos futuros em termos de musica e carreira?

Neste momento não te posso dizer que tenha em mente um novo EP ou um Álbum. Estou a recompor me de uma queda grande enquanto pessoa e artista e quero apenas ser capaz de refletir isso, e contar a minha experiência através do que surgir.

Se surgirem singles isolados como o que vou lançar no dia 5 de Maio, serão singles isolados que irei lançar, se surgir um corpo de trabalho mais complexo então será um projeto mais complexo que apresentarei.

Quero muito honestamente ver-me livre de pressões de negócio e concentrar-me no cerne da minha arte para que não volte a pensar sequer em abandona-la. Na dimensão das apresentações ao vivo aí sim podem contar com vários momentos , bastante próximos, em que vamos poder estar juntos.

Nesta fase o que estou a priorizar é precisamente estar com o público porque é o que me faz bem. Antes de poder pensar em escrever projetos mais densos para entregar ao público tenho de conseguir reconectar-me completamente comigo própria e isso eu faço através da minha conexão com o público a partir de um palco.

Acompanhe todo o trabalho de @theflibra através do seguinte link: https://solo.to/theflibra


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