Volta. Mas volta amanhã.
O sistema de depósito e reembolso de embalagens promete incentivar a reciclagem através da devolução de 10 cêntimos por garrafa ou lata entregue. Mas o que acontece quando as máquinas falham repetidamente? Neste artigo de opinião, Bruno Veiga reflete sobre os obstáculos encontrados pelos consumidores e questiona se o programa Volta está verdadeiramente preparado para exigir uma mudança de hábitos sem garantir um serviço eficiente.
Volta. Mas volta amanhã.
Há uns dias fui devolver algumas garrafas. Levei-as comigo, procurei um Ponto Volta e, quando finalmente cheguei à máquina, encontrei no ecrã a já pouco tranquilizadora mensagem: “Foi detetado um problema inesperado.”
Uma máquina pode avariar. O problema é quando o “inesperado” começa a repetir-se ao ponto de deixar de ser inesperado.
E foi ali que comecei a pensar nos famosos 10 cêntimos.
O princípio do Volta é simples: pagamos mais 10 cêntimos quando compramos a bebida e recuperamos esse valor quando devolvemos a embalagem. É um incentivo para mudar comportamentos e pelos vistos funciona. Basta ver a polémica em torno das pessoas que agora procuram garrafas e latas nos contentores. Se uma embalagem passou a valer dinheiro, não devia surpreender ninguém que haja quem vá à procura dele.
Mas há outro lado desta história.
Para devolver uma garrafa é preciso guardá-la, não a esmagar, transportá-la e encontrar um ponto de recolha. Para algumas pessoas basta aproveitar uma ida ao supermercado. Para outras pode significar pegar no carro, fazer alguns quilómetros e gastar combustível.
Tudo aceitável, desde que, quando chegamos, a máquina funcione.
Quando não funciona, começa a verdadeira Volta. Procuramos outra máquina, fazemos um desvio, gastamos mais tempo e talvez mais gasóleo. Ou levamos novamente as garrafas para casa e tentamos noutro dia.
A solução é sempre a mesma: o consumidor dá mais uma volta.
E é aqui que os 10 cêntimos se tornam interessantes. São suficientemente importantes para serem cobrados automaticamente, para mudar os nossos hábitos e até para levar pessoas a procurar embalagens no lixo. Mas parecem tornar-se irrelevantes quando recuperar esse dinheiro implica tempo, deslocações e chatice.
Não é uma questão de fazer contas ao cêntimo. Ninguém vai calcular quanto gasóleo gastou para devolver três garrafas. É uma questão de princípio: se o sistema exige um esforço ao consumidor, também tem de lhe oferecer condições para cumprir.
Há, aliás, uma ironia difícil de ignorar. Para cobrar os 10 cêntimos, o sistema funciona sem esforço nenhum da nossa parte. Para os recuperar, podemos acabar de saco de garrafas na mão à procura de uma máquina operacional.
Não sou contra o Volta. A ideia faz sentido e criar valor numa embalagem que antes era simplesmente deitada fora pode ser uma excelente forma de aumentar a reciclagem.
Mas uma boa ideia também pode morrer de uma coisa muito simples: a chatice.
Se me pedem para guardar a garrafa, guardo. Se me pedem para a levar a um ponto de recolha, levo. Se me pedem para mudar hábitos, tudo bem.
Mas quando lá chegar, convém que o sistema faça a parte dele.
Porque economia circular não pode significar andar às voltas de carro com garrafas na bagageira.
Volta? Volto. Mas convinha não ter de voltar amanhã.
Artigo de opinião por Bruno Veiga.
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