Opinião

Um futuro verde em vez de um país em chamas

Henrique Cardoso. Vogal da Juventude Popular de Setúbal. Dirigente Nacional da Juventude Popular

Os anos passam, mas chegamos ao verão e há uma coisa que, infelizmente, nunca muda: os milhares de hectares ardidos por todo o país. A questão é que não é apenas terreno alheio que é destruído, mas também vidas, famílias, casas, comunidades, negócios, e muito mais.

É uma situação insustentável! Não é concebível que, num país europeu desenvolvido como o nosso, todos os anos assistamos ao mesmo cenário, que por sinal em vez de melhorado se tem agravado.

E o presente ano de 2025 é o exemplo disso.

Os números falam por si. Segundo dados provisórios do ICNF, este ano já arderam mais de 220 mil hectares de território nacional, totalizando mais de 6500 ocorrências. Estamos a falar de uma área ardida 28 vezes superior à registada em 2024 até 15 de agosto, fazendo de 2025 já o segundo pior ano desde Pedrógão Grande. E a tendência é de agravamento, visto que em 2017, até 31 de agosto, tinham ardido cerca de 236 mil hectares. E o ano ainda não terminou.

Este é de facto um problema nacional, que já nos chegou ao distrito inclusive, como foi o caso do incêndio, que há 3 anos, se iniciou em Palmela e se propagou, afetando uma área de 415 hectares, sendo que 69% destes foram dentro do Parque Natural da Arrábida.

Ficou provado o quão vulneráveis estão as nossas reservas naturais e o nosso património a este risco.

Já percebemos que a situação é alarmante, e com ela há sempre quem se queira aproveitar para fazer demagogia e populismo, e por isso vêm dizer que basta aumentar as penas aos incendiários e metê-los a reflorestar que o assunto se resolve.

Não desconsiderando estas propostas, que assumo serem necessárias, o tema é bastante mais complexo e urge de uma resposta conjunta que aborde não só os criminosos florestais, mas também toda uma reconfiguração do setor florestal e do modelo de incentivos atual.

Em vez de nos resumirmos a combater os incêndios em cima da hora, temos de apostar na prevenção.

Já sabemos que vamos chegar ao verão e este vai ser um problema que nos vai bater à porta, porque não adotarmos uma visão de prevenção e minimizarmos as consequências do fogo antes mesmo dele chegar?

Tanto preventivamente, como à posteriori há várias formas de combate. Mas há um facto que não podemos negar e que pode ser encarado tanto antes com depois, que é o de que uma das principais causas dos grandes incêndios em Portugal é o fogo posto.

No ano passado, 84% da área ardida no país teve como causa o incendiarismo. E porque é que eu acho que podemos combater o incendiarismo tanto antes como depois? Porque para além de podermos punir os criminosos por cometerem o crime depois, podemos desincentivá-los de o fazerem antes.

É claro que uma punição mais dura desincentiva o crime, mas o problema é bastante mais profundo. Há vários interesses económicos por trás dos incêndios, nem todos os incendiários são simplesmente piromaníacos. Há de facto quem ganhe com o país a arder.

Este é um modelo que se tem de inverter. Os incentivos a manter uma floresta limpa, bem gerida e verde têm de ser maiores do que os de a ver a arder. Esta resposta tem, por isso, que ser conciliada com um aumento das penas por este tipo de crimes e da garantia que as punições sejam efetivamente cumpridas.

É inconcebível que os criminosos sejam condenados, mas que não recebam penas de prisão efetivas, e que em vez disso, as penas sejam suspensas ou as punições se resumam a multas. A impunidade é de facto um convite a que os fogos se repitam.

Para além disso, precisamos de uma floresta resiliente. Visto que a maior parte da área florestal no país é privada, precisamos de estar do lado dos proprietários. No final de contas, são estes que garantem a sanidade das florestas. Quanto mais interessante, do ponto de vista económico, for manter a floresta limpa, bem gerida e sustentável, menor vai ser a probabilidade de propagação dos incêndios nas mesmas.

A valorização do mercado da floresta tem que, por isso, ser uma prioridade!

No entanto, estas mudanças necessárias são estruturais e demoram tempo, além disso, a prevenção não consegue impedir 100% dos incêndios e por isso o reforço do combate às ignições é importantíssimo. O investimento em meios aéreos e em mecanismos de coordenação para garantir respostas rápidas aos focos de incêndio são essenciais.

Temos sobretudo que fazer diferente, de ter coragem de mudar, de ter um plano a longo prazo e sustentável para o interior e para a floresta, de um corpo de bombeiros profissional e com condições, de reverter o sistema de incentivos atual e de valorizar o proprietário que cuida da floresta e que a gere bem.

É possível conciliar a floresta de conservação, com a de produção e mantermos a segurança do território e das populações. Se queremos reverter o sufoco e o desespero que todos os anos todo o país sente quando a temperatura começa a aumentar precisamos de visão, audácia e sobretudo de agir!


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