Trump prometeu a paz, mas multiplicou as frentes de guerra
Donald Trump regressou à Casa Branca como autoproclamado presidente da paz, mas em menos de um ano ordenou operações militares em vários pontos do mundo, da Venezuela ao Médio Oriente.
Donald Trump voltou ao poder com uma promessa solene: ser o presidente que devolveria a paz ao mundo. Quase um ano depois da tomada de posse, o balanço da sua política externa revela um cenário bem diferente, marcado por operações militares em várias regiões e por uma retórica cada vez mais belicista.
No último sábado, o Presidente norte-americano ordenou ataques militares de grande escala na Venezuela, anunciando de seguida que Nicolás Maduro tinha sido capturado e retirado do país. A operação, apresentada como decisiva logo no arranque do novo ano, ocorreu poucos dias após forças dos Estados Unidos terem atacado alvos na Nigéria, no dia de Natal, numa ação que Trump justificou como resposta a ataques jihadistas contra comunidades cristãs.
Horas antes da ofensiva na Venezuela, o próprio Presidente norte-americano admitiu publicamente a possibilidade de uma nova intervenção militar, desta vez no Irão. Trump afirmou que as forças dos Estados Unidos estavam “prontas para o combate” caso o regime iraniano reprimisse violentamente os protestos que levaram milhares de pessoas às ruas.
Esta sucessão de ações contrasta com o discurso que Trump tem repetido desde a campanha eleitoral. O presidente chegou a afirmar que merecia o Prémio Nobel da Paz, alegando ter posto fim a oito guerras, uma declaração amplamente contestada por analistas e observadores internacionais. No discurso de tomada de posse, a 20 de janeiro do ano passado, Trump declarou que o seu maior legado seria o de pacificador e unificador.
Pouco tempo depois, o simbolismo mudou. Trump decidiu renomear o Departamento de Defesa para Departamento de Guerra, reforçando uma visão estratégica baseada na supremacia militar. Tanto o presidente como os seus assessores defendem que o uso da força é o caminho para alcançar uma paz duradoura. Num comício recente na Pensilvânia, Trump afirmou que os Estados Unidos estão a “construir a paz através da força”, recuperando um ‘slogan’ popularizado por Ronald Reagan durante a Guerra Fria.
Durante anos, Trump apresentou-se como um crítico feroz do intervencionismo norte-americano. Sob o lema “América Primeiro”, procurou distanciar-se do legado de George W. Bush, que sempre classificou como belicista devido à invasão do Iraque em 2003. Num discurso em Riade, em maio, Trump afirmou que “os chamados construtores de nações destruíram mais países do que aqueles que reconstruíram”, acusando-os de desconhecerem as realidades locais.
A diferença, sublinham analistas, está na ausência de compromissos de longo prazo. Ainda assim, no último ano, Trump ordenou bombardeamentos a instalações nucleares iranianas, em apoio a uma ofensiva israelita, e ataques na Síria, após a morte de soldados norte americanos. À semelhança de administrações anteriores, demonstrou pouca preocupação com convenções das Nações Unidas ou normas internacionais sobre conflitos armados.
No caso venezuelano, Washington sustenta que Nicolás Maduro tinha um mandado de captura ativo nos Estados Unidos por acusações relacionadas com tráfico de droga. Apesar disso, o regime de Caracas mantém-se como membro das Nações Unidas, mesmo sendo considerado ilegítimo por grande parte dos países ocidentais após eleições marcadas por irregularidades.
A decisão gerou críticas internas. O senador democrata Ruben Gallego, veterano da guerra do Iraque, classificou a Venezuela como “a segunda guerra injustificada da minha vida”, reconhecendo, ainda assim, o carácter autoritário do regime de Maduro. Para Gallego, os Estados Unidos passaram de polícia do mundo a valentão global em menos de um ano.
Num contraste simbólico, o mais recente Prémio Nobel da Paz foi atribuído à líder da oposição venezuelana, Maria Corina Machado, figura que Trump admitiu inicialmente não conhecer. Ainda assim, o Presidente norte-americano recebeu recentemente um prémio simbólico da FIFA, entregue por Gianni Infantino, que destacou as suas alegadas ações em prol da paz e da união, numa cerimónia associada à futura organização do Campeonato do Mundo nos Estados Unidos.
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