Terceira Travessia do Tejo, mais do que aproximar margens, valorizar territórios!
A Terceira Travessia...que futuro?

A Terceira Travessia do Tejo, prevista para o corredor Chelas–Barreiro, deverá ser entendida como muito mais do que uma nova ponte. Pela sua dimensão e localização, poderá constituir uma das decisões mais relevantes para o futuro da Área Metropolitana de Lisboa e, em particular, para a valorização da Península de Setúbal.
O projeto encontra-se ainda numa fase de desenvolvimento e avaliação. A Infraestruturas de Portugal (IP), está a realizar estudos relacionados com a procura, a viabilidade, o traçado e os impactos ambientais da futura infraestrutura. A travessia está integrada no planeamento da ligação ferroviária de alta velocidade entre Lisboa e Madrid e deverá também articular-se com as acessibilidades ao futuro Aeroporto Luís de Camões. Enquanto estudante da Licenciatura em Administração Pública e Políticas do Território, considero particularmente importante analisar esta infraestrutura não apenas a partir da engenharia ou da mobilidade, mas sobretudo a partir dos seus efeitos sobre a organização do território e sobre a vida das populações.
A melhoria das ligações entre as duas margens poderá reduzir distâncias, facilitar deslocações e tornar mais acessíveis oportunidades de emprego, serviços e investimentos. Segundo a Infraestruturas de Portugal, a componente ferroviária poderá colocar Lisboa e Setúbal a cerca de 30 minutos de distância, reforçando também as ligações ferroviárias entre Lisboa e o sul do país.
Contudo, aproximar territórios não significa apenas diminuir o tempo de viagem. Significa criar condições para que pessoas, empresas e instituições possam relacionar-se de forma mais equilibrada dentro da região metropolitana. Durante décadas, os territórios da margem sul foram frequentemente encarados a partir de uma lógica periférica, muito dependente de Lisboa para o emprego, para os serviços e principais funções económicas e administrativas. A Terceira Travessia poderá contribuir para alterar progressivamente esta relação, reforçando novas centralidades e criando condições para uma Área Metropolitana de Lisboa mais integrada e policêntrica.
A Península de Setúbal dispõe de uma localização estratégica, a própria CCDR Lisboa e Vale do Tejo tem defendido que o território deve ser pensado como uma centralidade estratégica e em articulação com o conjunto da região, sobretudo perante a convergência de investimentos como o novo aeroporto, a alta velocidade, a Terceira Travessia e os projetos associados ao Arco Ribeirinho Sul.
Esta nova acessibilidade poderá favorecer a instalação de empresas, a regeneração de antigas áreas industriais, a criação de emprego e a valorização dos territórios próximos da travessia. Municípios como o Barreiro, a Moita, o Seixal, o Montijo, Palmela ou Setúbal poderão sentir impactos significativos nas suas dinâmicas económicas, urbanas e sociais.
Mas esses benefícios não são automáticos. Uma grande infraestrutura pode gerar desenvolvimento, mas também pode aumentar a pressão sobre a habitação, incentivar a especulação imobiliária, intensificar a ocupação do solo e sobrecarregar as redes locais de transportes e serviços públicos. Existe igualmente o risco de alguns territórios se tornarem apenas zonas de passagem ou áreas residenciais, sem conseguirem captar uma parte significativa do investimento e do emprego gerados.
É precisamente por isso que o planeamento territorial assume uma importância central. A Terceira Travessia não deve ser planeada isoladamente, deve estar articulada com as políticas de habitação, mobilidade, ambiente, desenvolvimento económico e ordenamento do solo. Deve ser acompanhada pelo reforço da rede ferroviária convencional, dos transportes públicos locais, e das ligações entre os diferentes municípios da Península de Setúbal. Não será suficiente atravessar o Tejo mais rapidamente se as populações continuarem a ter dificuldade em chegar às estações, aos seus locais de trabalho ou aos principais equipamentos públicos. Também não será suficiente atrair investimento se esse investimento não contribuir para criar emprego qualificado, melhorar o espaço urbano e aumentar a qualidade de vida das populações locais.
O planeamento territorial deve permitir antecipar estes efeitos. Os Municípios, a Área Metropolitana de Lisboa, a Comunidade Intermunicipal da Península de Setúbal, a CCDR LVT, a Administração Central e as entidades responsáveis pelos transportes e pelo ambiente terão de trabalhar de forma coordenada. O Programa Regional de Ordenamento do Território de Lisboa, Oeste e Vale do Tejo representa, neste contexto, uma oportunidade para integrar estas infraestruturas numa visão regional mais ampla. Essa visão deverá ser sustentada por informação e dados atualizados. Será necessário acompanhar a evolução dos movimentos pendulares, dos preços da habitação, da procura de transportes, da localização das empresas e da ocupação do solo. Só assim será possível perceber se a nova travessia está verdadeiramente a contribuir para a coesão territorial ou apenas a deslocar problemas de uma margem para a outra.
Na minha perspetiva, a Terceira Travessia do Tejo representa uma oportunidade histórica para aproximar as duas margens e valorizar a Península de Setúbal. Contudo, o seu verdadeiro impacto dependerá menos da ponte em si e mais das políticas públicas e das decisões de planeamento que a acompanharem.
Mais do que construir uma nova ligação, o desafio será construir uma região mais equilibrada, coesa e capaz de reconhecer o potencial de todos os seus territórios. Uma ponte aproxima fisicamente duas margens, um bom planeamento aproxima pessoas, oportunidades e cria melhores condições de vida.
Bruno Miguel Santos
Estudante no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em Administração Pública e Políticas do Território
Secretário da Presidência da Câmara Municipal da Moita
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