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Opinião

Talvez já não saibamos esperar

Das encomendas aos carros de transporte, das mensagens aos voos, nunca tivemos tanta informação sobre aquilo que aguardamos. No entanto, a tecnologia que prometia reduzir a ansiedade parece ter criado uma nova necessidade: a de verificar constantemente aquilo que continua a não acontecer.

Há uns anos fazíamos uma encomenda e esperávamos.

Hoje fazemos uma encomenda e acompanhamos.

Recebemos a confirmação. Depois, a informação de que foi preparada. Depois, que saiu do armazém. Depois, que está em transporte. Depois, que chegou ao centro de distribuição. Depois, que saiu para entrega.

E, mesmo assim, abrimos a aplicação outra vez.

Só para ver.

Talvez tenha mudado de rua.

Com a Uber, vemos o carro aproximar-se. Com a Glovo, seguimos a mota no mapa. Nos voos, recebemos notificações sobre a porta de embarque, atrasos ou alterações. No WhatsApp, sabemos se a mensagem foi entregue e, muitas vezes, se foi lida.

Nunca tivemos tanta informação sobre aquilo que estamos à espera.

E, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos sabido esperar tão pouco.

Se uma encomenda diz apenas “entrega prevista entre terça e sexta-feira”, parece quase ofensivo.

Como assim entre terça e sexta?

Quero saber o dia. A hora. Quantas paragens faltam. Se o estafeta já saiu. Se está perto. Se ainda vem hoje.

Transformámos a espera numa espécie de transmissão em direto.

O curioso é que esta informação deveria reduzir a ansiedade. Muitas vezes, faz exatamente o contrário.

Se consigo ver onde está a encomenda, vou ver onde está a encomenda.

Se consigo acompanhar o carro, vou acompanhar o carro.

Se aparece “visto” numa mensagem e não recebo resposta, começo a perguntar-me porquê.

Antes esperávamos sem saber. Agora sabemos quase tudo e continuamos à espera na mesma.

A diferença é que podemos verificar a espera de cinco em cinco minutos.

Não estou a defender um regresso ao tempo em que uma encomenda podia aparecer a qualquer hora, em qualquer dia.

Saber quando algo chega é útil. A tecnologia tornou muitos destes serviços melhores e mais previsíveis.

Mas talvez tenhamos passado da informação útil para a necessidade de controlo permanente.

Queremos saber onde está tudo, quando chega tudo e porque é que ainda não aconteceu aquilo que esperávamos que acontecesse.

E isso já não se limita às encomendas.

Esperamos uma resposta a uma mensagem e olhamos para o telemóvel. Esperamos um email e atualizamos a caixa de entrada. Esperamos um carro e vemos o mapa. Esperamos comida e seguimos uma pequena mota pelo ecrã.

Estamos sempre à espera de alguma coisa.

Só que agora temos um botão para confirmar, a cada momento, que continuamos à espera.

Talvez o problema não seja já ninguém saber esperar.

Talvez seja termos deixado de aceitar não saber.

Porque uma encomenda chegar amanhã já não chega.

Também queremos vê-la chegar.

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