Sofia Nunes Viegas em entrevista: “A minha mente está repleta de histórias que querem ser contadas”
Aos 21 anos, a jovem autora setubalense publicou o primeiro romance, "Até que a morte não nos separe". Em entrevista ao Diário do Distrito, fala sobre a escrita, as personagens, os medos que ultrapassou e os sonhos que ainda quer concretizar, entre outros temas.
Sofia Nunes Viegas: da infância à publicação do primeiro romance
A escrita entrou cedo na vida de Sofia Nunes Viegas. Ainda criança, inventava histórias para os bonecos que encontrava à sua volta e acreditava que tudo tinha uma história para ser contada. Anos depois, essa imaginação transformou-se num romance com quase 600 páginas.
Aos 21 anos, a jovem autora setubalense concretizou o sonho de publicar Até que a morte não nos separe, uma história que nasceu de um sonho e que acabou por transportar para o papel algumas das suas ideias, emoções e convicções. Nesta entrevista ao Diário do Distrito, entre muitos aspetos, Sofia começa por falar sobre o caminho que a levou até à publicação e a relação que mantém com a escrita desde a infância.
Diário do Distrito (DD): Qual é a tua primeira memória relacionada com a escrita?
Sofia Nunes Viegas (SNV): A primeira memória que tenho relacionada com a escrita vem de quando eu ainda era muito pequena e costumava criar uma história para cada boneco que estivesse no meu horizonte. Sempre gostei de acreditar que tudo tem uma história para ser contada, principalmente os objetos que são passados de geração em geração.
DD: Quando percebeste que querias escrever um livro?
SNV: Desde pequena que sempre amei os livros. Eles sempre foram a minha forma de viver mil vidas sem ter de sair do lugar. Por isso, acho que escrever um livro sempre foi um resultado inevitável. Não me lembro do momento exato, mas sei que sempre quis ter as minhas ideias e palavras num livro porque queria que as pessoas se apaixonassem pela escrita tal como eu me apaixonei. Sempre quis ser a pessoa que fazia os outros sentirem algo ao lerem o que eu tinha para contar.

Uma história que nasceu…de um sonho
O primeiro romance de Sofia começou com uma ideia que lhe surgiu durante um sonho. A partir daí, a autora construiu uma história que aborda igualmente a injustiça da vida e a necessidade de continuar a tentar, mesmo perante as dificuldades.
DD: Como nasceu a história de Até que a morte não nos separe?
SNV: Por muito cliché que possa parecer, a história de Até que a morte não nos separe nasceu de uma ideia que tive num sonho. Uma ideia que me dizia que, por vezes, temos de tentar até à terceira ser de vez. Isso ficou na minha cabeça por tanto tempo que pensei: e se eu escrever um livro com essa ideia-base? Foi assim que nasceu esta obra, através de um sonho e da ideia de que, por vezes, a vida não é justa para todos nós.
DD: O que te levou a escolher este título para o romance?
SNV: Tenho de admitir que o título original era diferente, mas, enquanto escrevia o livro, uma cena em específico fez-me aperceber do potencial que este novo título tinha. Apercebi-me da ironia que seria virar os clássicos votos de casamento e torná-los em algo que coincidisse com a minha ideia.

Por dentro do livro
No centro da história estão Sara e Nathan. A autora descreve Sara como “a face da esperança” e uma lutadora, enquanto Nathan assume o papel do cético e que se torna “o apoio de Sara” quando o mundo da protagonista começa a tornar-se demasiado difícil.
DD: Quem é a Sara?
SNV: A Sara é a face da esperança neste livro, mas, mais do que isso, ela é uma lutadora.
DD: Quem é o Nathan?
SNV: O Nathan é o cético neste duo. Ele também é o apoio de Sara quando o mundo dela começa a mostrar-se demasiado difícil.
DD: Qual foi a personagem que mais dificuldade te deu a escrever?
SNV: Acho que todas elas me foram algo difíceis de escrever. Alternar entre as diferentes personalidades das personagens é sempre algo difícil de se fazer. Mas, se tivesse de escolher apenas uma personagem, escolheria a Sara. Pura e simplesmente porque a fiz passar por tanto e acabei por sentir que as suas batalhas eram as minhas batalhas também.
DD: Qual foi a situação mais difícil de colocar no papel?
SNV: No final da segunda parte existe uma despedida e, não falando muito do assunto para não dar spoiler, essa foi a cena mais difícil de escrever. Porque, no final de contas, o que aconteceu foi o fechar de um capítulo na história da personagem principal, a Sara.

Entre a ficção e a própria autora
Apesar de contar uma história através de personagens fictícias, Sofia reconhece que deixou muito de si nas páginas do romance. Aliás, a escrita acabou por ser uma forma de enfrentar os próprios receios e descobrir uma coragem que não sabia ter.
DD: O que gostarias que o leitor descobrisse sobre si próprio através desta história?
SNV: Gostava imenso que cada leitor, depois de ler o meu livro, ficasse a saber o verdadeiro significado da empatia. Gostava que descobrissem que os seus corações são capazes de mais compaixão, mesmo que por personagens fictícias, do que pensavam serem capazes de albergar.
DD: Quanto de Sofia Nunes Viegas ficou nas páginas deste romance?
SNV: Acho que grande parte de mim ficou neste romance. A verdade é que cada escritor, quer se aperceba ou não, acaba por deixar parte de si nas suas personagens. Quer sejam os nossos medos, segredos ou até mesmo as nossas próprias experiências. Por isso, a minha resposta a esta pergunta é que coloquei um pedacinho de mim em cada personagem neste livro.
DD: O que descobriste sobre ti própria enquanto escrevias este livro?
SNV: Descobri que era capaz de superar medos. Descobri que o meu medo de não ser capaz de escrever um livro decente só podia ser superado se eu me arriscasse a escrevê-lo. Além disso, aquilo que também descobri sobre mim mesma ao escrever este livro foi que tinha mais coragem e imaginação do que achava ter.
DD: Houve algum momento em que tenhas pensado em desistir de publicar a obra?
SNV: Não. A partir do momento em que meti na minha cabeça que tinha de publicar o meu livro, nada me demoveu dessa ideia. Houve momentos, enquanto escrevia a minha obra, em que pensei que talvez este livro não fosse bom o suficiente para ser publicado, mas, mesmo nesses momentos, não desisti de concretizar o meu sonho.

“Não consegui acreditar que aquelas palavras tinham saído de mim”
A publicação transformou uma ideia, que durante muito tempo existiu apenas na cabeça da autora, num objeto concreto. Quando recebeu o livro, Sofia diz ter vivido um momento “surreal”. Desde então, são as reações dos leitores que mais a têm marcado.
DD: O que sentiste quando tiveste, pela primeira vez, o livro nas mãos?
SNV: Senti que algo de surreal estava a acontecer. Não consegui acreditar que aquele livro de quase 600 páginas era meu. Não consegui acreditar que aquelas palavras tinham saído de mim. Foi, sem dúvida, algo incrível.
DD: Qual foi a reação que mais te marcou desde que o livro chegou aos leitores?
SNV: Até agora, as reações que mais me marcaram foram as lágrimas dos meus leitores. Essas têm sido as reações que mais me emocionam e me fazem sentir que fiz um bom trabalho.
DD: O que é que escrever te permitiu dizer que talvez nunca tivesses conseguido dizer de outra forma?
SNV: Permitiu-me dizer que ninguém tem uma vida perfeita e que, por vezes, perdemos as melhores oportunidades da nossa vida por medo. Permitiu-me dizer que acredito em finais felizes, mas, mais do que isso, acredito que a nossa jornada é mais importante do que o seu fim.
DD: Se pudesses voltar ao momento em que começaste a escrever Até que a morte não nos separe, o que dirias à Sofia daquela altura?
SNV: Eu diria para ela seguir em frente e não olhar para trás. Dir-lhe-ia que os seus medos eram infundados e que, no final, tudo acabaria bem.
DD: Que parte de ti gostarias que os leitores encontrassem nas páginas deste livro?
SNV: Acho que a parte de mim que eu gostava que os leitores encontrassem nas páginas deste livro é o meu lado romântico incurável.

Que importância terá Setúbal para a escritora?
Para Sofia, a apresentação do primeiro livro em Setúbal terá um significado especial. Foi na cidade onde nasceu e cresceu que descobriu a arte e onde também passou pelo canto e pelo teatro. Regressar agora à cidade através da literatura representa, para a autora, uma espécie de encerramento de ciclo.
DD: O que representa para ti apresentar o teu primeiro livro em Setúbal?
SNV: Esta é a cidade em que eu nasci e cresci. A cidade em que eu aprendi o que era a arte e a forma como ela tem uma beleza sem par. Apresentar um livro na cidade onde já cantei e representei com teatro é como se fosse um completar de um ciclo, o mostrar a mim mesma que sou capaz de fazer arte em diversas formas. A publicação do primeiro romance não significa, contudo, que a Sofia tenha chegado ao fim do caminho. Pelo contrário: já existe uma nova história a caminho.
DD: Podes desvendar alguma coisa da mesma?
SNV: Sim, posso. Gosto de acreditar que qualquer artista tem diversos mundos dentro da sua mente, mundos que pedem para serem contados ou mostrados. O mesmo acontece comigo. A minha mente está repleta de histórias que querem ser contadas, o pior é escolher entre elas. Mas, sem desvendar muito mais, posso dizer que esta nova história promete partir corações.
DD: Que lugar gostarias que a escrita ocupasse na tua vida daqui para a frente?
SNV: O meu sonho seria poder fazer da escrita a minha vida, mas acho que, por agora, me contento em que ela seja a minha paixão no formato de um hobby divertido.

Pingue-pongue com Sofia Nunes Viegas
Por fim, eis algumas respostas maioritariamente mais breves que revelam as referências literárias, hábitos de escrita, sonhos da jovem autora e muito mais.
- Um livro que gostarias de ter escrito? Existem tantos livros maravilhosos que já li ao longo da minha vida que é quase impossível escolher apenas um ou dois. Mas, se tivesse mesmo de escolher, diria que os livros que mais gostaria de poder dizer que tinha sido eu a escrevê-los são A Little Life, de Hanya Yanagihara, e Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. São ambas obras tão cruas que me deixaram completamente indefesa perante a beleza que contêm.
- Uma autora ou um autor que te inspira? Tenho vários. Amo Hanya Yanagihara, Tahereh Mafi e, claro, a grande Jane Austen.
- Uma personagem literária que gostarias de conhecer? Acho que, mais do que quaisquer outras personagens criadas neste mundo, as personagens que eu mais gostaria de conhecer seriam as minhas. Poder sentar-me num café e ouvi-las falar comigo seria um sonho tornado realidade.
- Escrever de manhã ou à noite? À noite é a minha altura preferida para escrever, quando já todos estão a dormir e apenas existo eu e uma folha em branco.
- Uma palavra que define a escrita para ti? Extasiante.
- Um lugar onde gostarias de escrever? Adorava poder viajar até à Escócia e poder inspirar-me naquelas paisagens que tanto sonho em ver na primeira pessoa.
- Um sonho que ainda falta concretizar? Acho que, depois de publicar o meu primeiro livro, o único sonho que me resta é ser feliz na minha vida.
- Se tivesses de definir a Sofia Nunes Viegas em três palavras, quais escolherias? Lutadora, esperançosa e imperfeita.
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