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Sines tem mais de 20 mil milhões em investimento anunciado — e casas a 5.000 euros o metro quadrado que os locais não conseguem pagar

Investimento em Sines provoca tensão entre Lisboa e a região. Apreensão local face às decisões centralizadas.

Sines é hoje apresentada em Lisboa como um dos maiores projetos estratégicos de Portugal. Mas quem vive e trabalha no concelho, e no vizinho Santiago do Cacém, descreve uma realidade bem mais áspera: a de um território que suporta os custos do crescimento sem colher os seus frutos.

O diagnóstico é partilhado por autarcas, empresários e representantes de associações. O presidente da Câmara Municipal de Sines, Álvaro Beijinha, resume a situação com números concretos: os investimentos já anunciados ou em estudo para a região ultrapassam os 20 mil milhões de euros e deverão trazer cerca de 7.000 novos trabalhadores — que, por sua vez, precisarão de casa, escola, médico e segurança. Infraestruturas que simplesmente não existem em quantidade suficiente.

Habitação: o problema acima de todos os outros

O mercado imobiliário de Sines tornou-se irreconhecível em poucos anos. Um apartamento T1 novo de 61 metros quadrados foi recentemente transacionado por 310 mil euros. No arrendamento, um T1 pode atingir os 1.600 euros mensais, os T2 rondam os 2.000 euros e os T3 chegam aos 2.500 euros. O consultor imobiliário José Malveiro, com décadas de experiência no terreno, admite que os preços já escapam a qualquer lógica local: “Chamamos a Sines a nova Lisboa. Os valores aqui, nem nós conseguimos explicar.”

A especulação não é apenas resultado da procura. O mesmo consultor descreve casos de promotores que suspenderam vendas quando atingiram 70% de transações, preferindo aguardar valorização futura para maximizar margens. Quem quer comprar a pronto pagamento não encontra oferta. Quem quer arrendar, ainda menos — os senhorios preferem empresas a particulares, por garantia de pagamento. “Nos arrendamentos só trabalhamos com empresas. Estamos escaldados”, confirma Malveiro.

Hugo Ferreira, presidente da Associação Empresarial de Sines (AES), quantifica a velocidade da mudança: um apartamento que arrendou em tempo de pandemia por 350 euros vale hoje 1.500 euros no mercado. Uma trabalhadora da sua empresa pagava 450 euros por um T3 em Santo André; o mesmo imóvel está agora anunciado próximo dos 2.000 euros mensais.

A situação mais grave ocorre na Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS). As autarquias de Sines e Santiago do Cacém estimam que cerca de 2.000 pessoas residem ilegalmente em armazéns da zona, em imóveis adaptados sem qualquer condição de habitabilidade. Um armazém de 100 metros quadrados pode gerar 6.000 euros mensais em regime habitacional irregular — doze vezes mais do que o valor de arrendamento comercial do mesmo espaço. “Não existe habitação”, insiste Hugo Ferreira. “Construir vai demorar anos e anos. Já devíamos ter começado quando foram anunciados os primeiros projetos.”

PME excluídas, Estado distraído

A exclusão das empresas locais dos grandes investimentos é outro ponto de rotura. Segundo Hugo Ferreira, quando os projetos chegam à região, as adjudicações já estão praticamente fechadas, com fornecedores externos contratados e cadeias de abastecimento definidas noutros países. “Muitas vezes, estes grandes projetos só compram em Sines o que não conseguem trazer de fora”, explica, com ironia. As PME da AES ficam limitadas a serviços periféricos — trabalho temporário, restauração, retalho alimentar e imobiliário.

A pressão salarial agrava o problema. Com salários de 6.000, 7.000 ou 8.000 euros mensais para engenheiros nas grandes empresas, as pequenas e médias empresas locais não conseguem competir. “Vão tendo os quadros que sobram das grandes empresas”, lamenta o presidente da AES. Do lado das autarquias, o cenário não é melhor: um ajudante de serralheiro na zona industrial aufere 2.500 euros, enquanto técnicos das câmaras municipais recebem 900 a 1.000 euros. “Qualquer emprego básico na área industrial de Sines paga melhor”, constata o presidente da Câmara de Santiago do Cacém, Bruno Pereira.

Saúde, educação e segurança: serviços no limite

O presidente da Junta de Freguesia de Santo André, David Gorgulho, considera que o Governo central chegou tarde à consciência dos problemas. “As preocupações que estão a acontecer, tanto ao nível do Governo como das autarquias, se calhar já deviam ter acontecido há mais tempo”, afirma, admitindo que a construção de habitação e infraestruturas vai demorar mais do que os investimentos exigem. Em Santiago do Cacém, está em curso um estudo de impacto para avaliar o que significa a chegada de 15.000 novas pessoas sobre uma unidade hospitalar que serve cinco concelhos.

A segurança pública é outro ponto crítico. Beijinha descreve uma GNR com pouco mais de 20 guardas e apenas duas viaturas — uma das quais cedida pela Câmara — para servir uma cidade de 13.000 habitantes oficiais, a que se somam estimativas de mais cinco a seis mil pessoas não registadas. “Há uma sensação de insegurança que cresce todos os dias na população local. Sabemos ao que isso leva muito facilmente”, alerta o autarca.

Acessibilidades congeladas no tempo

Para muitos dos entrevistados, a prova mais visível do abandono estatal é a ausência de melhorias nas acessibilidades. A estrada nacional entre Grândola e Sines data da década de 1970 e não foi objeto de qualquer expansão nas últimas cinco décadas. O comboio de passageiros foi retirado à região no início dos anos 1990 e nunca voltou. “Construíram-se autoestradas por todo o lado e aqui, estratégico para o país, não se criou a acessibilidade necessária. Temos aqui os investidores estrangeiros e eles não conseguem compreender isto”, observa Álvaro Beijinha.

A ausência de ferrovia de passageiros é vista como causa direta da pressão habitacional: se existisse, muitos trabalhadores não precisariam de se instalar na região, reduzindo a procura e os preços. Uma solução que o Estado retirou e que ninguém, até hoje, comprometeu devolver.


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