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Rendas sufocam Portugal e empurram famílias para casas partilhadas

A escalada das rendas obriga famílias portuguesas a dividir casas, quartos e rotinas com desconhecidos, numa realidade marcada por salários baixos e falta de alternativas no mercado da habitação.

A crise da habitação em Portugal deixou de ser um problema abstrato para se transformar num drama quotidiano vivido dentro de casas sobrelotadas, onde famílias distintas dividem o mesmo espaço para conseguir pagar rendas cada vez mais elevadas. Histórias recolhidas pela agência lusa revelam um país onde o salário mínimo já não garante um teto com dignidade.

Em Loures, distrito de Lisboa, Vitória Silva, nome fictício, de 46 anos, vive com o companheiro e a filha adolescente num apartamento T3 partilhado com outra família. A renda mensal de 1.200 euros obriga à divisão do espaço e dos custos. Cada casal paga 600 euros, apesar de quase todos os adultos receberem o salário mínimo nacional, atualmente fixado em 920 euros. A exceção é a mãe da outra família, grávida e em regime de trabalho a tempo parcial, com um rendimento mensal próximo dos 300 euros.

A solução encontrada passa pela adaptação forçada da casa. A sala tornou-se quarto, os frigoríficos duplicaram e a organização do quotidiano exige constantes ajustes. “Às vezes falta comida e produtos de higiene”, relata Vitória, que admite recorrer à banheira para lavar roupa, por falta de eletrodomésticos adequados.

No Porto, a realidade repete-se com contornos igualmente duros. Gabriela Gonçalves, também nome fictício, tem 43 anos, trabalha como cozinheira e vive num T1 com as duas filhas de 16 anos desde 2021. Com um rendimento mensal a rondar os 900 euros, explica que alugar uma casa maior é impossível face aos preços praticados no mercado, que ultrapassam os 800 ou 900 euros.

A renda só se tornou suportável após o senhorio reduzir o valor de 700 para 350 euros, numa rara exceção. Ainda assim, o espaço é limitado. As filhas partilham o quarto e o estudo faz-se por turnos. “Uma quer dormir e a outra precisa da luz acesa para estudar”, descreve. Paralelamente, Gabriela frequenta a licenciatura em Serviço Social, pagando cerca de 300 euros de propina, com o apoio de uma bolsa.

Casos como estes são acompanhados de perto pela coordenadora nacional da Rede Europeia Anti-Pobreza, Maria Vicente. A responsável sublinha o aumento de famílias monoparentais em situação de vulnerabilidade, muitas delas a viver em casas com humidade, infiltrações ou falta de espaço, agravando problemas sociais já existentes.

Também o movimento Porta a Porta — Casa para Todos confirma uma realidade ainda mais extrema. O porta-voz André Escoval refere situações de seis famílias a partilhar a mesma habitação, trabalhadores forçados a acumular empregos ou pessoas que passaram a viver com estranhos para conseguirem pagar renda.

Em Setúbal, Carlos Nunes, de 63 anos, é um desses casos. Antigo empresário do setor das viagens, viu a sua agência encerrar em 2020, na sequência da pandemia de Covid-19. Atualmente trabalha como segurança, faz horas extra para atingir um rendimento mensal próximo dos 900 euros e vive num apartamento partilhado da Cáritas Portuguesa com mais quatro pessoas. “Aquilo que ganho não chega para nada”, resume, apontando os preços elevados da habitação na região como um obstáculo intransponível.

Os números oficiais confirmam a pressão sentida pelas famílias. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, as rendas por metro quadrado subiram 4,9% em dezembro de 2025 face ao mesmo mês do ano anterior, com uma variação média anual de 5,3%. Já o Eurostat coloca Portugal como o país da zona euro com a segunda maior subida homóloga dos preços das casas, ao registar um aumento de 17,7% no terceiro trimestre de 2025, muito acima da média europeia.

Entre salários estagnados e rendas em alta, partilhar casa deixou de ser opção e passou a necessidade, expondo uma crise estrutural que continua sem resposta eficaz.


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