
Um bebé, uma criança, nunca deveriam morrer.
Há qualquer coisa de profundamente contra a natureza na morte de uma criança. É uma violência que desafia o nosso instinto mais básico: proteger quem ainda nem sequer se consegue proteger sozinho.
E, no entanto, acontece.
As doenças acontecem. Os acidentes acontecem. Existem pessoas que fazem mal deliberadamente. E existem tragédias que nascem apenas de um instante em que tudo falha.
Nos últimos dias, as notícias deram conta da morte de uma bebé esquecida numa carrinha escolar.
Perante uma notícia destas, o primeiro impulso é procurar um culpado. É quase automático. Dizemos que é impossível. Que connosco nunca aconteceria. Que ninguém pode esquecer uma criança.
Mas a verdade é que nenhum de nós sabe exatamente o que aconteceu naquela manhã.
Sabemos apenas o desfecho.
E sabemos que, naquele instante, morreu uma bebé. E que a vida da sua família ficou destruída para sempre.
Provavelmente, também a vida da funcionária que, inadvertidamente, esteve na origem daquela morte.
Há histórias semelhantes de pais e mães que se esquecem dos filhos dentro do carro. E, também aí, a reação pública costuma ser imediata: indignação, condenação, incredulidade.
Mas a ciência tem mostrado que o cérebro humano não é infalível. As rotinas, o piloto automático, o cansaço extremo, o stress ou uma alteração inesperada da rotina podem levar a falhas de memória tão devastadoras quanto incompreensíveis para quem as observa de fora.
Isto não diminui a responsabilidade. Não apaga a necessidade de investigar, de perceber o que falhou nem de criar sistemas que impeçam que volte a acontecer.
Mas lembra-nos de uma verdade difícil de aceitar: nem todas as tragédias precisam de um monstro.
Por vezes, basta um ser humano.
E talvez seja precisamente isso que mais nos assusta. Porque preferimos acreditar que estas coisas só acontecem aos irresponsáveis, aos distraídos, aos outros.
É uma forma de nos protegermos da ideia de que também nós somos vulneráveis ao erro.
As minhas condolências pertencem, antes de tudo, aos pais daquela bebé, cuja dor é impossível imaginar.
Mas sobra-me também compaixão pela mulher que terá de viver o resto da vida com um peso que nenhuma sentença conseguirá igualar.
Há castigos que começam muito antes de qualquer tribunal.
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