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Quando o imobiliário começa a vender ilusões

Mostrar o potencial de um imóvel não é novidade. O problema surge quando as imagens criadas por Inteligência Artificial aparecem antes da realidade e transformam uma ruína numa casa de sonho que ainda não existe


Confesso que, ultimamente, procurar casa se tornou um exercício estranho. Vejo uma fotografia de uma moradia bonita, recuperada, com uma sala moderna, uma cozinha impecável e um exterior digno de catálogo. Abro o anúncio. Passo uma fotografia, depois outra, mais uma. Tudo perfeito.

Até chegar às últimas.

De repente, desaparece a cozinha. Desaparece a sala. Desaparecem os móveis, o jardim tratado e até aquela luz maravilhosa que entrava pelas janelas. O que aparece é uma casa em ruínas, paredes degradadas, divisões por recuperar e, em alguns casos, pouco mais do que uma estrutura à espera de obras.

E eu volto atrás para perceber se carreguei no anúncio errado.

Não carreguei. As primeiras imagens foram simplesmente criadas por Inteligência Artificial para mostrar aquilo em que o imóvel “se pode transformar”.

Percebo a intenção. Mostrar o potencial de uma casa sempre fez parte da venda de imóveis. Plantas, projetos 3D e imagens de arquitetura existem há muitos anos. A diferença é que, normalmente, sabemos imediatamente que estamos perante uma projeção.

Agora, em alguns anúncios, essa fronteira tornou-se demasiado ténue.

Se estou a comprar uma ruína, quero primeiro ver a ruína. Quero perceber o estado das paredes, do telhado, das janelas, dos acessos e do terreno. Quero perceber aquilo que os meus milhares de euros estão efetivamente a comprar. Depois, sim, mostrem-me três imagens de como aquele espaço poderia ficar recuperado.

O que não me parece razoável é ter de chegar à décima fotografia para descobrir que a casa bonita que me levou a abrir o anúncio simplesmente não existe.

E há outro problema: estas imagens não mostram necessariamente aquilo em que a casa vai ficar. Mostram aquilo em que poderia ficar. Entre uma imagem gerada por IA e essa realidade existem projetos, licenças, obras, materiais, mão de obra e, sobretudo, muito dinheiro.

Uma sala virtualmente perfeita não tem orçamento. Uma cozinha criada em segundos não paga eletrodomésticos. Um telhado novo numa imagem não resolve infiltrações.

Por isso, talvez esteja na altura de estabelecer uma regra muito simples: primeiro a realidade, depois o sonho.

Não sou contra a utilização da Inteligência Artificial no imobiliário. Pode ser uma excelente ferramenta para ajudar alguém a visualizar o potencial de um espaço. Mas essas imagens deveriam estar claramente identificadas como simulações e nunca substituir, esconder ou empurrar para o final aquilo que realmente está à venda.

Porque, quando procuro uma casa, aceito que me mostrem aquilo que ela pode vir a ser.

Só gostava de saber primeiro aquilo que ela é.

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