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Quando a notícia agrada, a imprensa é “bestial”. Quando incomoda, passa a “besta”

Quando passas de bestial a besta em poucos minutos.

Há um padrão que se repete com uma previsibilidade quase mecânica no espaço público. Sempre que uma notícia confirma convicções, valida opiniões ou reforça narrativas pessoais, os jornais e os jornalistas são rapidamente elevados à categoria de credíveis, rigorosos e indispensáveis. São partilhados, elogiados e usados como prova. Mas basta que a informação publicada contrarie expectativas ou toque em interesses mais sensíveis para o discurso mudar de tom abruptamente.

Subitamente, aquilo que era jornalismo passa a ser rotulado de parcial, tendencioso ou até mal-intencionado. Os mesmos profissionais que minutos antes eram consideradas referências passam a ser alvo de desconfiança e ataque. Esta oscilação não revela falhas estruturais na imprensa, revela antes uma fragilidade no modo como parte da sociedade lida com a informação.

O jornalismo não existe para agradar. Existe para informar. E informar implica, muitas vezes, publicar aquilo que não se quer ler. Implica escrutinar, questionar e, sobretudo, expor realidades que nem sempre são confortáveis. Confundir esse papel com uma obrigação de alinhar com preferências individuais é não compreender a função essencial dos media numa sociedade democrática.

Há ainda outro fenómeno que não pode ser ignorado. Existem vozes que, por razões diversas, mantêm uma relação de conflito permanente com determinados órgãos de comunicação social. Aproveitam cada notícia menos favorável como pretexto para lançar suspeitas, alimentar desinformação e tentar fragilizar a credibilidade do jornalismo. Fazem-no com uma insistência que levanta uma questão inevitável: será crítica construtiva ou apenas uma tentativa sistemática de descredibilização?

Curiosamente, muitas dessas mesmas vozes demonstram uma tolerância notável para erros e falhas bem mais graves quando estes lhes são próximos. A exigência que colocam sobre o trabalho jornalístico não encontra paralelo na forma como analisam a sua própria atuação na esfera pública. Apontam o dedo com facilidade, mas raramente olham para si próprios.

O espaço público ganha pouco com esta dinâmica. A crítica à comunicação social é legítima e necessária. O escrutínio também se aplica aos jornalistas. Mas essa crítica deve assentar em factos, coerência e responsabilidade. Caso contrário, transforma-se apenas em ruído, alimentando desconfiança e fragilizando um dos pilares essenciais de qualquer democracia.

Num tempo marcado pela velocidade da informação e pela proliferação de opiniões, talvez fosse útil recuperar um princípio simples. Nem tudo o que desagrada é falso. Nem tudo o que agrada é verdade. E o jornalismo, quando feito com rigor, não muda de valor consoante a conveniência de quem lê.


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