
No passado domingo, o trânsito na Ponte sobre o Tejo parou. À medida que os carros avançavam a passo lento, a razão da fila revelou-se numa imagem dura, com duas ambulâncias a piscar e, no asfalto, uma mancha branca. Um motociclista coberto por um lençol. Enquanto ultrapassava aquele cenário, foi impossível travar os pensamentos. De onde vinha ele? Estaria a regressar de um dia feliz de praia? Estaria alguém, naquele preciso segundo, a pôr mais um prato na mesa, à espera de ouvir o barulho do motor da mota a chegar a casa? Terá ele deixado uma discussão a meio, um “desculpa” por dizer, ou um “amo-te” guardado para mais logo?
Nunca saberemos. E essa é a parte mais aterrorizadora.
A tragédia alheia tem a força brutal de nos arrancar, ainda que por um instante, do anestésico em que transformámos o dia a dia. Mas o ser humano desenvolveu um mecanismo estranho de olharmos para a dor dos outros como se fôssemos imortais. Lemos a notícia, sentimos um nó na garganta, murmuramos um “coitado” sincero, mas logo a seguir encolhemos os ombros e voltamos à correria. Como se a morte fosse apenas uma fatalidade que só bate à porta dos vizinhos.
Até ao dia em que é a nossa porta que se abre.
A verdadeira tragédia não é apenas a morte; é a forma como morremos em vida. Passamos anos paralisados pelo medo. Medo do que os outros vão pensar, medo de falhar, medo de incomodar. Adiam-se abraços, sufocam-se sonhos, mantemo-nos em empregos que nos apagam o brilho dos olhos e em relações que já só guardam fantasmas. Vivemos a negociar com o tempo, como se ele nos devesse amanhãs.
Mas o tempo não negoceia com ninguém. É um cronómetro impiedoso que nunca pára de contar.
No domingo, o relógio parou para aquele rapaz na ponte. Amanhã parará para outro desconhecido. Um dia, sem aviso, parará para mim e para ti. E, nesse instante final, quando os olhos se fecharem, de nada valerão o orgulho que mantivemos, as discussões que ganhámos, os euros que poupámos ou o aplauso dos outros.
No fim, a coragem que não tivemos não nos vai salvar. O que nos cobre a todos é exatamente o mesmo lençol.
Não deixemos que a vida passe por nós como um mero trânsito em que apenas assistimos à paisagem. Que o choque da mortalidade nos ensine, de uma vez por todas, o valor sagrado de cada segundo. Porque a única verdadeira loucura é ter medo de viver a própria vida antes que seja tarde demais. Que a urgência da morte nos sirva, pelo menos, para nos ensinar a ter a coragem de viver.
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