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“Perseguições” e “silenciamento”: o clima de tensão no Chega de Setúbal

“Nós, os militantes que andamos aqui todos os dias, não estamos para sustentar a carreira política destas pessoas”, afirma Manuel, um dos denunciantes. Militantes do Chega denunciam “autoritarismo” e falta de “estratégia política” na distrital de Setúbal.

A estrutura distrital do Chega em Setúbal atravessa um dos momentos mais conturbados desde a sua fundação, com demissões em cadeia de coordenadores locais, ameaças, acusações públicas entre dirigentes e a formação de grupos organizados de militantes que tentam contrariar “o silenciamento de  críticas internas”. 

Após as eleições autárquicas de outubro de 2025, sucederam-se as saídas de vários dirigentes locais. No distrito de Setúbal, pelo menos seis membros da Comissão Política Distrital e três presidentes de concelhias abandonaram funções, num movimento que abrange concelhos como Almada, Seixal e Sesimbra. Segundo as denúncias feitas ao Diário do Distrito, entre os nomes avançados estão João Pereira (Almada), Nuno Capucha (Seixal) e Tino Laja (Sesimbra).

As críticas enviadas ao Diário do Distrito por um grupo de militantes do partido Chega, através de um comunicado, denunciaram uma alegada “falta de estratégia política” e distância entre dirigentes e militantes, bem como decisões consideradas contraditórias a nível local, como a viabilização de orçamentos municipais do Partido Socialista, escolha de candidatos de forma unilateral e entendimentos com movimentos independentes.

Um militante do Chega concedeu uma entrevista ao Diário do Distrito para contar “a verdade que é ocultada” a todos os militantes. Manuel (nome fictício) admitiu ter medo de ser alvo de ameaças, num clima que diz ser de “perseguição constante” aos militantes e aos autarcas, no que considera ser “um boicote às ações políticas” do partido por parte do líder da distrital.

Manuel entrou para o Chega no início de 2024 porque queria ter “atividade política” e “fazer a diferença”. É no mesmo ano, em novembro, que tem o primeiro contacto com conflitos internos – conta-nos que, durante o encontro autárquico regional, o líder da distrital Nuno Gabriel foi questionado por um grupo de militantes de Alcochete e do Montijo sobre o afastamento de coordenadores locais. Segundo o denunciante, o presidente Nuno Gabriel reagiu ameaçando “encerrar a ordem de trabalhos”, o que Manuel considera ser “uma tentativa de evitar que o assunto seja público”.

O denunciante explicou-nos que a ausência de estatutos concelhios e distritais que sejam claros e consolidados, na prática, permite decisões centralizadas, sem qualquer escrutínio, e uma concentração de poder na figura dos presidentes distritais, especialmente quando acumulam funções como deputados. “As pessoas começam a pensar que ser presidente da distrital é um caminho aberto para ser deputado da Assembleia da República”, sublinha.

“Há um vazio político”, afirma o militante, explicando que a falta de regras bem definidas permite que os dirigentes tomem decisões sem necessidade de informar os militantes do Chega ou de prestação de contas, públicas ou internas. 

“Não há nada (nos estatutos internos) que diga que tem que haver escrutínio, responsabilização e consequências para as decisões tomadas nas distritais. Um membro do conselho nacional pode dizer a um presidente de distrital que não está a agir bem, mas o presidente pode estar a borrifar-se e fazer o que bem quiser”, explicou-nos Manuel.

O denunciante afirmou que o presidente da distrital se comporta como um “monarca dos feudos concelhios”, sem que tenha sido obrigado a prestar contas sobre o programa político pelo qual foi eleito e, alegadamente, “não executou”. Defendeu que “os militantes devem ter o poder de decidir com quem querem trabalhar e que programa querem seguir”.

O militante do Chega descreve uma estrutura que opera de forma “ilegal”, onde as decisões do presidente da distrital e da própria Comissão Política são comunicadas informalmente, por exemplo, através de mensagens via whatsapp, não havendo qualquer registo oficial ou atas que os militantes, dirigentes e autarcas possam consultar. 

Disse-nos também que este vazio é propositado, sendo que “dificulta o acompanhamento dos militantes” daquele que é o trabalho da distrital, o que considera “favorecer decisões unilaterais”. Diz ainda que este “vazio” permite “escolher a dedo” quem tem poder político, dependendo da afinidade com o presidente da distrital.

Manuel lamenta que nunca tenha existido um espaço ou um momento organizado pelo partido em que os militantes sejam chamados a dar a sua opinião pessoal, a discutir internamente ou até mesmo votar nos dirigentes locais e no programa político do Chega. 

Esse debate entre militantes acontece apenas informalmente entre aqueles que já tiveram oportunidade de se conhecerem em eventos públicos e sem forma oficial de colocar as opiniões e questões aos dirigentes ou aos órgãos locais/distritais. Por outro lado, “mesmo que fizesse as perguntas, não teria resposta”.   

“Este funcionamento demonstra um claro autoritarismo, quando as nomeações para cargos nunca ficam registadas em documentos formais e são comunicadas apenas por WhatsApp”, denunciando também que “nem todos os militantes estão nesses grupos e, ainda assim, o controlo sobre quem entra ou sai é feito de forma arbitrária”, alegadamente pelo próprio Nuno Gabriel. 

Manuel acrescentou que “nunca foi cumprido o pedido de criação de um fórum distrital ou de um plenário de militantes”, o que, no seu entender, “ignora o direito dos militantes de se reunirem, questionarem decisões e participarem na orientação política”, deixando por fim um apelo: “é importante que os militantes sejam mais expressivos”.

Sobre a aplicação do programa político do Chega por parte do presidente da distrital, Manuel fala em eleitos “sem direção política” e “sem experiência”, e de um partido que “anda ao sabor do vento” no distrito de Setúbal, falhas que atribui à gestão do líder da distrital Nuno Gabriel. 

Alegadamente, o presidente da distrital deu indicações diretas via whatsapp aos autarcas para firmarem acordos com forças políticas como o Setúbal de Volta (Maria das Dores Meira) ou a MSU em Sesimbra (movimento anteriormente ligado ao BE) e que viabilizassem orçamentos municipais do PS e da CDU. 

Segundo o denunciante, estas decisões, tomadas de “forma unilateral” por Nuno Gabriel, “levaram ao descontentamento de muitos militantes”, que agora se começam a organizar um pouco por todo o distrito para denunciar aos militantes e aos eleitores aquilo que lhes é ocultado diariamente pelas estruturas do Chega. “Estas pessoas dizem que querem defender a liberdade de expressão para o país, mas depois internamente fazem o contrário”, disse-nos Manuel.

“Nós, os militantes que andamos aqui todos os dias, não estamos para sustentar a carreira política destas pessoas”, admite Manuel. Diz que “há muitos militantes” a abandonar o partido, mas considera que os dirigentes não se importam porque entram novos militantes, alheios às situações, o que facilita “o controlo das pessoas e da narrativa do presidente da distrital”.

A Comissão Política Distrital do CHEGA é constituída por 9 membros eleitos, contudo, após as saídas de vários dirigentes, restam apenas 3 membros. Assim, a Comissão Política Distrital fica apenas  “em gestão” e “sem legitimidade política para tomar decisões estruturais, nomear responsáveis ou definir o rumo estratégico do partido no distrito”.

Depois de enviar 12 questões para o e-mail da distrital de Setúbal, mais 14 questões diretamente para o presidente da distrital, a direção do Diário do Distrito não obteve qualquer resposta ao primeiro contacto. 

De seguida, o presidente da distrital, Nuno Gabriel, enviou um direito de resposta em que contesta a dimensão da crise e acusa os críticos internos de promoverem instabilidade por ambição pessoal, inclusive acusando um dos denunciantes de “falar com Trump”. O dirigente afirma que algumas das alegadas demissões são falsas ou distorcidas, garantindo que a estrutura mantém legitimidade e funcionamento, apesar de ter apenas 3 dos 9 membros. 

Perante as perguntas colocadas diretamente pelos jornalistas, por WhatsApp, a pedido do próprio Nuno Gabriel, o dirigente afirma que não vai responder às questões. Entre as 26 perguntas colocadas ao presidente da distrital estão 4 perguntas recolhidas diretamente aos militantes que nos contactaram, que dizem querer ver as suas questões respondidas.


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