Península de Setúbal: Afirmar um Território que já é estratégico!
Com mais de 800 mil habitantes, uma localização estratégica e uma forte base industrial, logística e ambiental, a Península de Setúbal reúne condições únicas para reforçar o seu papel no desenvolvimento nacional. A consolidação da Comunidade Intermunicipal surge como uma oportunidade para transformar potencial em projetos concretos, promovendo maior coesão territorial, competitividade económica e qualidade de vida.

Enquanto estudante de Administração Pública e Políticas do Território, tenho aprendido que os territórios não se afirmam apenas pelos recursos que possuem, mas pela forma como conseguem transformar esses recursos numa estratégia comum de desenvolvimento. É com esse olhar que considero importante refletir sobre a Península de Setúbal, uma região muitas vezes vista apenas como “margem sul” da Área Metropolitana de Lisboa, mas que tem condições próprias para se afirmar como território estruturante no País.
A Península de Setúbal não é uma periferia sem identidade. É um território, de acordo com os dados oficiais do INE, com mais de 800 mil habitantes, composto por nove municípios com realidades distintas, mas profundamente interligadas. Tem indústria, portos, logística, património natural, frentes ribeirinhas, turismo, agricultura, áreas urbanas densas e uma forte relação com o Tejo, o Sado, a Arrábida e o Atlântico.
Esta diversidade é uma das suas maiores forças. A Península de Setúbal reúne um conjunto raro de potencialidades que poucos territórios concentram em simultâneo. Tem uma localização estratégica, próxima de Lisboa, ligada ao sul do país e aberta ao Atlântico. Tem uma base industrial, logística e portuária com peso económico relevante, capaz de sustentar emprego, inovação e capacidade exportadora. Tem ainda recursos naturais e paisagísticos de valor incalculável, como a Arrábida, o Tejo, o Sado, as frentes ribeirinhas, as praias e os espaços agrícolas, que podem reforçar uma estratégia de turismo sustentável, economia azul, valorização ambiental e qualidade de vida.
A tudo isto junta-se ainda uma forte identidade territorial, construída pela história do trabalho, da indústria, da vida ribeirinha, da cultura popular, do associativismo e da relação das populações com o território. A Península de Setúbal tem também uma população expressiva, capacidade produtiva, empresas, instituições, conhecimento e juventude. A sua posição geográfica permite-lhe funcionar como ponte entre a Grande Lisboa, o Alentejo, o Atlântico e os grandes corredores económicos nacionais. Ou seja, não estamos perante um território secundário, mas perante uma região com massa crítica suficiente para assumir um papel ainda mais forte no desenvolvimento do seu território e do panorama nacional.
Mas o potencial, por si só, não basta. A Península de Setúbal enfrenta desafios muito claros. A pressão sobre a habitação é cada vez mais sentida pelas famílias. A mobilidade continua a condicionar a vida de milhares de pessoas que todos os dias se deslocam para trabalhar, estudar ou aceder a serviços. Persistem desigualdades entre municípios, dificuldades de acesso a emprego qualificado e a necessidade de melhor articulação entre desenvolvimento económico, coesão social e sustentabilidade.
Muitos destes problemas não se resolvem à escala de um único município. A mobilidade não termina na fronteira administrativa de um concelho. A habitação também não. O ambiente, a economia, a qualificação, a captação de investimento e os fundos europeus exigem uma visão mais ampla. É precisamente aqui que a Comunidade Intermunicipal da Península de Setúbal (CIM) pode assumir um papel decisivo.
A CIM não deve ser vista como uma entidade que substitui os municípios, mas antes como uma plataforma de cooperação, coordenação e afirmação territorial, capaz de acrescentar valor onde a ação isolada de cada município é insuficiente. A sua missão deve passar por articular prioridades, preparar projetos comuns, reforçar a capacidade técnica e captar financiamento. Deve também ser uma voz forte junto da Administração Central, da Área Metropolitana de Lisboa, da CCDR, do Governo e da União Europeia.
Nos eixos mais importantes deste território, como a mobilidade, é necessário melhorar ligações internas e externas, reforçar transportes públicos, reduzir dependências e aproximar pessoas de oportunidades. Na habitação, é essencial pensar soluções articuladas, porque a pressão sentida num município rapidamente se reflete nos concelhos vizinhos. Na economia, a Península deve valorizar a sua base industrial, logística e portuária, mas também apostar na inovação, na qualificação e na criação de emprego com maior valor acrescentado. No ambiente, importa proteger recursos como a Arrábida, o Tejo, o Sado e as frentes ribeirinhas, não como obstáculos ao desenvolvimento, mas como ativos estratégicos de qualidade de vida e futuro.
A grande questão é esta, a Península de Setúbal não precisa apenas de mais reconhecimento, precisa de mais capacidade de organização territorial. Tem recursos, população, localização e identidade, o que falta na prática é transformar tudo isso numa visão comum, com projetos concretos, financiamento, prazos e resultados.
Por isso, a recente criação e consolidação da CIM da Península de Setúbal representa uma oportunidade única. Se for dotada de capacidade técnica, ambição estratégica e espírito de cooperação, poderá ajudar a região a passar de uma soma de municípios para um território mais coeso, mais competitivo, mais desenvolvido e mais afirmado.
A Península de Setúbal não pode continuar a ser vista como margem, periferia ou território dependente. Tem escala, identidade, recursos, capacidade produtiva e uma localização estratégica que a tornam indispensável ao futuro do País. O desafio que agora se coloca é transformar esse potencial em ação, com mais cooperação entre municípios, mais projetos estruturantes, mais investimento, mais coesão e maior ambição territorial. Neste paradigma, a CIM da Península de Setúbal é o ponto de partida para afirmar, de forma clara e definitiva, que este território não está à espera de ser reconhecido, está pronto para assumir o lugar estratégico que já lhe pertence.
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