Pedro Martins de Almeida parte de Cajados numa travessia equestre até Sines
Ao longo de cinco a seis dias, o fundador do Centro de Doma Natural de Cavalos quer promover uma mensagem de ligação à natureza, mobilidade sustentável e respeito pelo cavalo, que seguirá apenas com cabresto de corda, sem freio.
Pedro Martins de Almeida, fundador do Centro de Doma Natural de Cavalos em Portugal, vai iniciar no próximo 6 de abril, a partir de Cajados (concelho de Palmela), uma travessia equestre solitária com destino a Sines, num percurso que descreve como “mais do que uma travessia física”, assumindo-a como “uma caminhada interior”.
A iniciativa — pensada para decorrer ao longo de cinco a seis dias — pretende valorizar o território rural, promover a ligação entre pessoas, natureza e animais e reforçar uma mensagem de mobilidade sustentável e respeito pelos ecossistemas. “Num tempo em que tudo se move com pressa, senti a necessidade de abrandar, de voltar ao essencial”, afirma.
Segundo o cavaleiro, a ideia não nasceu “de um plano estratégico”, mas sim de um “chamamento interior” que o acompanha desde 2017, ano em que fundou o Centro de Doma Natural de Cavalos. Com formação jurídica e percurso anterior “numa estrutura jurídica em Setúbal”, explica que a travessia surge do desejo de reencontro “comigo próprio, com o território e com uma forma de viver mais simples e consciente”.
O ponto de partida, em Palmela, é apresentado como um marco identitário e familiar. “O concelho de Palmela para mim representa raízes. Representa tradição e cultura viva”, sublinha, justificando a escolha de Cajados pelo peso da ancestralidade: “eu e os meus irmãos somos a 5.ª geração a habitar, cuidar e a guardar estas mesmas terras (…) e a 6.ª geração já está entre nós”. Para Pedro Martins de Almeida, sair dali é “uma homenagem” e “um ponto de partida que honra o passado e projeta uma mensagem para o futuro”.
O trajeto previsto cruza várias herdades e localidades do Litoral Alentejano, sempre por caminhos naturais e rurais. O cavaleiro antecipa atravessar a Herdade de Gâmbia, seguir para a Herdade de Travassos, passar pela Herdade das Paulinas e entrar na Herdade do Zambujal, rumando depois à Herdade do Pinheiro, onde pretende pernoitar na primeira noite. Daí, seguirá “em direção ao antigo Condado de Palma”, apontando a passagem por Alcácer do Sal com travessia do rio Sado rumo à Herdade da Ervideira para nova pernoita, antes de prosseguir para Melides/Santiago do Cacém. No dia seguinte, planeia “encostar-se mesmo ao litoral” e fazer o percurso junto à praia. R
“Será um percurso feito ao ritmo do cavalo, respeitando o tempo da natureza e não o relógio”, reforça, acrescentando que prefere “contar momentos” em vez de dias. Para o fundador do Centro de Doma Natural, a mensagem principal é “simples e profunda”: “é possível viver com mais consciência, mais calma, mais respeito e mais ligação à natureza”, defendendo que “a verdadeira força não está na velocidade, mas na harmonia”.
Uma das marcas distintivas da jornada será a forma como o cavalo será conduzido, em linha com a filosofia de doma natural que Pedro Martins de Almeida segue e ensina. “A doma natural não é apenas uma técnica, é uma filosofia de vida”, afirma, sustentada na confiança, na “comunicação silenciosa” e no respeito pelos limites do animal: “não há imposição, há entendimento (…) caminhamos juntos porque escolhemos caminhar juntos”.
Entre os aspetos que considera diferenciadores, revela que o animal seguirá com “o tradicional arreio à portuguesa (sela)” e sem embocadura: “na boca não levará qualquer tipo de embucadura (o tradicional freio), levará apenas um singelo cabresto de corda e umas rédeas também elas de corda”. O responsável considera esta opção “inédita no meio equestre português”, sublinhando que “em momento algum da vida do cavalo ele tem contacto com qualquer ferro ou algo que o violente dentro da boca”.
A viagem prevê igualmente contacto direto com as populações ao longo do percurso. “Desejo que esta travessia seja também um momento de partilha”, diz, salientando a vontade de conversar, sobretudo, com pessoas mais velhas, ouvir histórias e “sentir o pulsar das aldeias e vilas”, guardando “memórias (…) que não se podem comprar”.
Embora não anuncie, para já, uma causa solidária formal, Pedro Martins de Almeida enquadra a própria travessia como “uma declaração ambiental”, associada à mobilidade sustentável e valorização do território. Diz estar disponível para ligar a iniciativa a projetos que promovam “o bem-estar animal” ou a “preservação do património natural”, manifestando expectativa de adesão institucional: “gostaria que entidades públicas e privadas se revissem nesta iniciativa e se juntassem”.
Quanto aos desafios, antecipa o cansaço, as condições meteorológicas e a incerteza do caminho, mas admite que os maiores obstáculos “serão interiores”: “manter a serenidade, respeitar o ritmo, aceitar o imprevisto”. A preparação, explica, tem sido “paciente e progressiva”, dificultada por um “início de ano” marcado por tempestades, ainda assim sustentada na relação construída ao longo de oito anos com o cavalo, “criado na minha casa, com o nosso ferro”.
O objetivo final passa também por inspirar os mais novos. Pedro Martins de Almeida quer que as novas gerações percebam “que existem caminhos diferentes daqueles que lhes são apresentados na escola” e que “a tecnologia não substitui o contacto com a terra”. Acredita que a relação com os animais pode ser “uma escola de valores” — “respeito, responsabilidade, sensibilidade” — e conclui: “se esta jornada inspirar alguém a olhar para a natureza com outros olhos, já terá cumprido o seu propósito”.
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