CUF
Opinião

Paula Santos teve a “visão do inferno”

Pedro Guerreiro Cavaco Advogado Presidente do Conselho de Jurisdição Distrital em Setúbal do Partido Chega

Tarde soalheira no Seixal.

Realizava-se a Corrida e Caminhada pelo Hospital do Seixal.

Milhares e milhares de pessoas juntavam-se por uma causa que não tem cor partidária: a construção de um hospital há demasiado tempo prometido, adiado e sucessivamente empurrado para o futuro. Uma infraestrutura essencial para servir as populações do concelho e da região.

Perto do palco onde Paulo Silva discursava, encontrava-se o líder do PCP, Paulo Raimundo, e, a ladeá-lo, Paula Santos, deputada e eleita na Assembleia Municipal.

Tudo estava bem. Muito bem.

Até que Paula teve a desdita de olhar em redor.

E, ao avistar os eleitos do CHEGA, transfigurou-se.

Mudou-se-lhe o semblante. Os olhos vidraram-se. A serenidade deu lugar à crispação interior. O rosto ficou tenso e perplexo.  Pobrezinha. A páginas tantas tememos um ataque cardíaco. Ora, sem hospital, não era conveniente. 

Afinal, parece que até numa caminhada por um hospital há quem descubra adversários onde deveria apenas ver cidadãos. 

Eu explico.

Pese embora a causa seja — e deva continuar a ser — transversal, o PCP assumiu há muito esta luta como bandeira própria. E aqui reside o paradoxo: se a construção do Hospital do Seixal é uma necessidade tão urgente, talvez não seja totalmente inconveniente para os comunistas que ela continue a ser adiada.

Porque, enquanto o hospital não existe, existe a promessa.

E enquanto existe a promessa, existe a bandeira.

E enquanto existe a bandeira, existe a narrativa.

Ano após ano, governo após governo, PS ou PSD, a mesma narrativa pode ser repetida. A mesma indignação pode ser renovada. A mesma fotografia pode ser tirada. A mesma manifestação pode ser convocada.

É a velha cenoura diante do burrito: suficientemente próxima para alimentar a esperança, suficientemente distante para nunca ser alcançada.

Não afirmo que o PCP deseje a inexistência do hospital. Afirmo algo bem mais simples: politicamente, a sua não concretização permite-lhe continuar a capitalizar uma causa que deveria, há muito, ter deixado de ser uma promessa eleitoral para passar a ser uma realidade.

Mas desenganem-se.

O Hospital do Seixal não é do PCP; não é do PS; não é do PSD; não é da IL; não é do CHEGA.

É dos seixalenses, sejam eles de esquerda, sejam de direita. É de todos nós.

É das famílias. É dos idosos. É dos trabalhadores. É das crianças. É de quem precisa de cuidados de saúde e não pode continuar a depender de deslocações, esperas e respostas insuficientes.

E é precisamente por isso que o CHEGA esteve presente.

Não para disputar uma fotografia. Não para roubar uma bandeira. Não para pedir licença para defender aquilo que é justo.

Esteve presente porque uma causa suprapartidária não pode transformar-se em propriedade privada de nenhum partido, ainda que os comunistas o queiram. 

Podem tentar fechar a causa dentro de uma sigla. Podem incomodar-se com a presença de quem não lhes agrada. Podem até transfigurar-se quando nos veem.

Mas o Hospital do Seixal será sempre maior do que qualquer partido.

E nós estaremos lá — enquanto for preciso — para lembrar a quem prometeu, a quem adiou e a quem continua a deixar as populações à espera.

Porque, no fim, há uma coisa que deveria ser consensual: o Seixal e a população precisa do Hospital.

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