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Palmela merece mais: “não trabalhei para ter, trabalhei para ser e dar”, entrevista a Raul Cristóvão

Raul Cristóvão relembra quinze anos passados em Palmela.

Raul Cristóvão foi o rosto do Partido Socialista (PS) em Palmela por quinze anos, numa entrevista onde reflete todo o seu empenho e trabalho, Raul Cristóvão lembra momentos passados por terras de Palmela.

Chegamos à Casa Mãe Rota de Vinhos, lugar ímpar e com história em cada quanto de uma antiga adega que se transformou num local de quase culto vínico, aqui já nos esperava o autarca quase a dizer adeus ao seu mandato.

Raul Cristóvão recebe-nos como sempre, com o seu ar simpático, mas de rosto fechado, cansado e a pedir quase umas férias, percebemos de imediato que esta não é apenas uma conversa que só envolvia a política. É um fecho de ciclo, talvez um balanço final. Atrevemos a dizer que é uma espécie de testamento cívico que o autarca socialista no irá contar, sem papéis, mas tudo de memória, Cristóvão, respira fundo e deixa claro que está pronto para nos fazer uma revisita aos quinze anos da sua vida autárquica em Palmela. Pede-nos apenas uma condição: “Quero falar na primeira pessoa. Agora posso fazê-lo com serenidade.”

Diz que foram quinze anos intensos, sempre vividos com “o coração e a alma”, e repete várias vezes que a política local não é para amadores. “Nunca quis mudar apenas por mudar. O que me movia era a convicção de que Palmela podia mais. Este concelho tem gente extraordinária, recursos únicos, paisagens que poucos lugares têm. O Sebastião Fortuna dizia que Palmela é um miradouro de 360 graus. E é mesmo.” Sorriso breve, olhar fundo. “O problema é que, durante muitos anos, deixámos oportunidades escapar. Perderam-se fundos europeus por teimosia ideológica. Corrigiu-se alguma coisa, mas não tudo.”

Perguntamos-lhe como foi fazer oposição durante tanto tempo num concelho governado pela mesma força política desde o 25 de Abril. Raul inclina-se para a frente e responde sem hesitar. “Passei por tudo: Assembleia Municipal, candidatura à presidência, candidatura à Câmara, vereador. Sempre fiz oposição responsável. Firme, mas não agressiva. A política é confronto de ideias, não de pessoas. Nunca entrei em radicalismos. E nunca pensei a política como um jogo de astúcia. Quem derruba executivos irresponsavelmente esquece que, normalmente, acaba por reforçar quem está no poder.”

Recusa a ideia de que o PS tenha sido “muleta” da CDU. “Isso é uma caricatura. Tínhamos projeto próprio, sempre. Nunca fizemos coligações. E votámos conforme entendíamos. Houve documentos em que votámos contra e outros em que nos abstivemos. Liderar não é fazer barulho. É saber quando levantar a voz e quando trabalhar nos bastidores.”

Pedimos exemplos concretos. Raul fala de luz. “A iluminação ‘LED’ é um caso evidente. Custou no início, mas permitiu poupar centenas de milhares de euros por ano. As pessoas viram a mudança. Isto é política: decisões que libertam recursos para o que é essencial.”

O tema da fiscalidade surge naturalmente. Raul não precisa de pensar muito. “Reduzimos o IMI, implementámos o IMI familiar, recusámos a redução do IRS municipal porque só beneficiava rendimentos mais altos. Chegar ao IMI de 0,30 não prejudicou a autarquia. Não se perdeu dinheiro — apenas se deixou de ganhar mais. A justiça social não é um slogan: é uma escolha.”

Quando lhe perguntamos pelo momento em que decidiu afastar-se, a expressão muda. É aqui que a entrevista deixa de ser política e se torna humana. “Afastei-me por respeito a mim. Tive motivos pessoais e de saúde, felizmente ultrapassados, e outros que prefiro guardar. A política só faz sentido quando não sacrifica a dignidade.” Regressa agora apenas para “agradecer e fechar o ciclo”.

Recorda também o caminho eleitoral. “Quando cheguei ao PS Palmela, tínhamos cinco mil votos. Depois alcançámos o melhor resultado em cinquenta anos. Sou socialista desde há décadas; esta é a minha família política, com virtudes e defeitos. Sempre houve espaço para debater e discordar.”

Falamos então do que ficou por fazer. Raul endireita-se na cadeira. “Palmela precisa de um plano estratégico de dez ou doze anos, feito por especialistas e com participação séria das pessoas. Não podemos continuar a gerir de semana a semana. Sem planeamento não antecipamos habitação, escolas, infraestruturas, equipamento cultural. Falta pragmatismo. Falta estratégia nas compras públicas. Comprar edifícios sem destino definido é desperdiçar tempo e dinheiro.”

O tema dos estúdios de cinema obriga-o a franzir o sobrolho. “Tive sempre dúvidas. Pareceu-me megalómano. Quem não gostaria de ter um projeto daqueles? Mas temos hotelaria suficiente? Benefícios claros? Ou podia transformar-se num elefante branco?” Entretanto, elogia o potencial do aeroporto do Montijo enquanto infraestrutura secundária. “Com boas ligações ferroviárias fazia sentido. O turismo precisa de estratégia, não de fé.”

Quando lhe pedimos opinião sobre o PDM, a resposta vem firme. “O trabalho técnico foi ótimo. O processo político correu mal. Calendário apertado, discussão insuficiente, contaminação eleitoral. Eu teria votado contra, não para destruir, mas para exigir mais tempo e alinhamento com um plano estratégico prévio.”

Abordamos candidaturas e equilíbrios partidários. Raul é cordial, mas direto. “A Ana Teresa Vicente teve o direito de se candidatar. O PCP saberá as suas razões. Quanto ao PSD, perdeu solidez. O Roberto Cortegano é empenhado, mas ainda não o vejo como candidato forte. Tem tempo para crescer.”

Quando pronunciamos a palavra Chega, a respiração de Raul Cristóvão muda ligeiramente. “É difícil falar sem indignação. Rejeito discursos de ódio, xenófobos, homofóbicos. Portugal é multicultural há séculos. A imigração é essencial. Nós próprios fomos e somos emigrantes. A democracia permite ao Chega falar, e eu defenderei sempre o direito de combater politicamente as suas ideias.”

No final, perguntamos-lhe o que a política representa hoje. Raul olha para o Largo São João antes de responder. “Para mim, a política sempre foi serviço. Em casa ensinaram-me que o ser está acima do ter. Quero deixar um país melhor do que aquele que recebi. Saio da autarquia como saí da escola: com o dever cumprido.”

O tempo esgota-se, mas ainda lhe pedimos um desejo para Palmela. O ex-autarca de Palmela resume numa frase que parece ensaiada, mas é sincera: “Palmela precisa de equilíbrio e visão. Museus dignos, habitação acessível, turismo qualificado, decisões pragmáticas, menos ideologia, mais futuro.”

Despede-se com a serenidade de quem sabe que o ciclo está fechado, mas não terminado. “Continuarei militante de causas. Mesmo que seja apenas nas redes sociais. Quando fechar os olhos, quero sentir que deixei um país melhor do que aquele que o meu pai me deixou.”


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