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Palmela: Cuidadores denunciam falhas no CROA e pedem mais sensibilidade no bem-estar animal

Um grupo de cerca de uma dezena de cuidadores de animais, sobretudo de colónias de gatos do concelho de Palmela apresentou, esta quarta-feira, em reunião pública do executivo, uma exposição detalhada sobre alegadas falhas no funcionamento do Centro de Recolha Oficial de Animais (CROA), denunciando situações que, segundo afirmou, colocaram em risco o bem-estar e a vida de vários animais.

Maria Helena Antão foi a porta-voz do grupo, que além de vários casos, apresentou a petição online que reuniu 763 assinaturas, tal como a reportagem do Diário do Distrito.

A cuidadora explicou que, ao longo de vários anos, tem existido uma colaboração com o município na sinalização, acompanhamento e esterilização de colónias, fornecimento de ração a pessoas de baixos rendimentos e assegurando cuidados básicos aos animais.

Entre os principais problemas apontados estão atrasos na sinalização de colónias, dificuldades no acesso a esterilizações, falhas na articulação com os serviços veterinários e situações em que animais capturados permaneceram vários dias em transportadoras à espera de intervenção. Segundo a denunciante, alguns animais terão sido devolvidos às colónias ainda sob efeito de anestesia, situação que, alegadamente, terá provocado mortes.

Foram ainda relatados episódios de falta de sensibilidade por parte de equipas no terreno e alegações graves sobre comportamentos inadequados de funcionários, incluindo suspeitas de negligência e maus-tratos. A cuidadora afirmou possuir registos e datas dos acontecimentos, referindo que a documentação poderá vir a ser usada em tribunal.

Durante a reunião, foi também salientada a importância da cooperação entre cuidadores e veterinários, defendendo que apenas o trabalho conjunto permitirá reduzir o sofrimento animal.

Maria Helena apelou a mais diálogo, mais sensibilidade das equipas e maior respeito pelo papel dos voluntários, sublinhando que muitos atuam com sacrifício pessoal, problemas de saúde e recursos financeiros limitados.

‘Todas as provas concretas devem ser entregues aos serviços’

Em resposta, a presidente da Câmara Municipal de Palmela, Ana Teresa Vicente, reconheceu a importância do trabalho dos cuidadores, “sendo o vosso trabalho louvável”, e afirmou que “o município leva as denúncias a sério” e garantiu ter sido “aberto um inquérito interno para averiguar as situações relatadas e que todas as provas concretas devem ser entregues aos serviços para permitir uma atuação objetiva”.

Ana Teresa Vicente rejeitou a ideia de perseguição ou revanchismo, assegurando que a prioridade da autarquia é o bem-estar animal, embora reconheça limitações estruturais, legais e de recursos humanos.

Frisou ainda que “a Câmara está a trabalhar num processo de deslocalização do CROA e que os serviços veterinários externos funcionam através de contratos de prestação de serviços, sujeitos às regras da contratação pública”.

E avançou terem as queixas apresentadas “ganho uma dimensão pública que não encontram correspondência objetiva no volume de ocorrências reportadas aos serviços”, embora sublinhando não colocar em causa a boa-fé dos cidadãos, mas defendeu que as situações “devem ser identificadas de forma concreta, com indicação de datas e locais, para permitir uma atuação eficaz da autarquia”.

Na sua intervenção, solicitada pela presidente, João Faim, diretor do Departamento de Ambiente e Serviços Urbanos da autarquia, reforçouque «acusações graves devem ser acompanhadas de dados objetivos, como datas, horas e identificação de intervenientes, para que possam ser devidamente investigadas» e confirmou «estarem em curso averiguações internas e externas, incluindo junto de entidades competentes».

Apesar das divergências, o executivo reiterou disponibilidade para melhorar os procedimentos, reconhecendo dificuldades operacionais, mas defendendo o empenho e dedicação da maioria dos profissionais do CROA.

O assunto do CROA foi também abordado por uma munícipe que colocou várias questões sobre o funcionamento do equipamento, e pela vereadora Maria Joaquim Antunes (Chega), nomeadamente no que respeita à sala de cirurgia, que considerou inadequada para a realização de atos clínicos e recordou que a Ordem dos Médicos Veterinários “estabelece que cirurgias só podem ser realizadas em locais devidamente autorizados e em condições que garantam o bem-estar animal”.

A vereadora manifestou perplexidade pelo facto de a sala de cirurgia ter sido retirada de um espaço com risco de derrocada, “mantendo-se, no entanto, um gatil junto à mesma estrutura, deixando os animais expostos aos mesmos perigos”.

Criticou também a formação dos funcionários, referindo que apenas um teria formação adequada para situações de resgate, defendendo que “a capacitação técnica é essencial para garantir a segurança dos trabalhadores e dos animais”.

Outra crítica incidiu sobre a inexistência, até à data, de um regulamento interno do CROA, apesar de o mesmo constar como «em elaboração» no site municipal desde a inauguração do espaço, há cerca de nove anos.

A utilização de Supercola3 em procedimentos clínicos foi igualmente abordada, com Maria Joaquim Antunes a afirmar que “apesar de existirem referências à sua utilização em contexto médico, a aplicação em animais não é recomendada”.

Em resposta, Ana Teresa Vicente apelou “a que não sejam feitas generalizações ou juízos sobre a atuação dos profissionais”, sublinhando que estes estão enquadrados por ordens profissionais competentes.

Acerca do uso da Supercola3, esclareceu “existir uma resposta técnica escrita onde se afirma que não foi utilizada cola comercial como substituto de suturas, mas apenas como complemento para aproximação dos bordos da pele após sutura intradérmica, procedimento considerado legítimo do ponto de vista clínico. Ainda assim, e face às dúvidas suscitadas, a autarquia decidiu, em articulação com os veterinários, deixar de utilizar esse material.”

A presidente garantiu também não existir “qualquer impedimento nas visitas ao local, apenas têm de ser avisados os serviços” e admitiu ser “o aspecto do espaço pouco aprazível, não tem um ar bonito, temos ali os armazéns, mas não há resíduos que sejam lesivos para os animais ou para as pessoas.

É até reconfortante ver a forma como os animais se relacionam com os funcionários que ali estão. Sinceramente, não temos um drama no nosso CROA, e eu gostava de saber porque este assunto tem tanto espaço de preocupação.”

Ana Teresa Vicente acrescentou também ter um cão em casa e cuidar de gatos que por ali surgem, alguns deles intervencionados pelo CROA de Palmela.

“O CROA não é o ideal, mas não identifico nenhuma prática criminosa, nem atentatória nos cuidados aos animais, pelo que vos pedia mais cautela e serenidade neste assunto, porque corremos o risco de ser alarmistas.”


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