Opinião

Palestina. Resistir é vencer, até quando?

As opiniões expressas neste artigo são pessoais e vinculam apenas e somente o seu autor.

Num pequeno texto intitulado “Guerras Vorazes”, Eduardo Galeano lembrava a receita de Susan Abdallah, ativista e poetisa palestiniana, para fabricar um terrorista: «Despoje-o de água e de comida. Rodeie a sua casa de armas de guerra. Ataque-o por todos os meios e a toda a hora, especialmente à noite. Derrube a sua casa, arrase a sua terra cultivada, mate os seus entes queridos, especialmente os pequenos, ou deixe-os mutilados. Parabéns: você criou um exército de homens-bomba».

Qualquer esforço para compreender a história do conflito da Palestina, sobretudo à luz dos acontecimentos verificados desde 7 de outubro de 2023, não pode fechar os olhos ao longo processo de desumanização do povo palestiniano.

O regime de Israel, com o seu poderoso e tentacular lóbi, define os termos do debate que é socialmente aceite e da cobertura noticiosa. Nesse contexto, enquanto os israelitas são sempre brutalmente assassinados por terroristas barbudos com um ar selvagem e tresloucado (pensemos no modo como o cinema norte-americano representa habitualmente o mundo árabe), os palestinianos acabam por ser ou vítimas acidentais de conflitos envolvendo as forças de segurança israelitas, que fizeram tudo ao seu alcance para os evitar, ou, alternativamente, são alvos cirúrgicos cuja neutralização se retrata como vital e cuja identificação assentou nos mais infalíveis métodos técnico-científicos.

Para além disso, e mesmo admitindo que a generalização dos drones modificou as “regras” da guerrilha, a discrepância flagrante entre, por um lado, um dos mais poderosos e sofisticados complexos militares-industriais do planeta e, por outro, multidões de jovens armados com armamento rudimentar e, não raras vezes, paus, pedras e fisgas, é, na melhor das hipóteses, menorizada.

Admitindo que a Bíblia não será a mais fidedigna das fontes do Direito Internacional e da historiografia, e que, como afirmou António Guterres, “os ataques do Hamas não aconteceram do nada”, tanto a Declaração de Balfour que, em 1917, prometeu aos judeus um lar judaico na Palestina; como a fundação do Estado de Israel, em 1948, que envolveu a expulsão de oitocentos mil palestinianos; a ocupação militar dos territórios da Faixa de Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Leste e Montes Golã, perpetrada em 1967 pelo regime sionista; ou os bloqueios à existência de um Estado Palestiniano independente na sequência do Acordo de Oslo de 1993, que hoje não passa de letra-morta, têm sido apontadas como possíveis causas para um prolongado, cruel e multifacetado conflito que parece de resolução cada vez mais difícil.

Tendo em conta a natureza dos problemas assinalados pelo General Pezarat Correia no seu Manual de Geopolítica e Geoestratégia (2018), não é difícil sentirmo-nos assolados por um sentimento de enorme impotência. Desde a necessidade de constituir um Estado palestiniano soberano dentro de fronteiras acordadas e reconhecidas por todos os vizinhos, até à devolução dos territórios ocupados por Israel nas várias fases do conflito, passando pela necessidade de definir qual o estatuto da cidade de Jerusalém e o destino a dar aos colonatos, pela criação de condições para o regresso dos refugiados palestinianos às suas terras de origem, pela partilha dos recursos aquíferos e ainda pelo reconhecimento por todos os Estados árabes do direito de Israel à segurança dentro de fronteiras legitimamente reconhecidas, a resolução do conflito parece não passar de uma miragem.

Entretanto, como assinala o jornalista José Goulão, no artigo “Trump e os Cúmplices”, «o processo de colonização foi liquidando as possibilidades de criação de um Estado Palestiniano viável nos territórios ocupados em 1967. A Faixa de Gaza, cercada do lado israelita e do lado egípcio, foi transformada pelo regime sionista num campo de reclusão onde quase dois milhões de seres humanos são tratados como animais a abater; a Cisjordânia é uma manta de retalhos na qual as comunidades palestinianas ficaram progressivamente isoladas umas das outras, separadas pelo muro israelita, pelos colonatos propriamente ditos e correspondentes estruturas de apartheid, como são as redes viárias exclusivas para os colonos, as teias de postos militarizados de “segurança”. Os palestinianos de Jerusalém Leste, da Cisjordânia e Gaza ficaram circunscritos a bantustões isolados pelas estruturas colonizadoras, muitas vezes sem acesso às fontes de sobrevivência como água e terrenos agrícolas, sujeitos estes às pilhagens praticadas pelos colonos, com protecção do exército de ocupação».

Foi este inominável inferno quotidiano que, ao esvaziar sucessivas gerações de palestinianos de qualquer horizonte de esperança e futuro, gerou as condições para o ataque de 7 de outubro.

De uma penada se varreu para debaixo do tapete o contexto histórico, para, de forma categórica, inequívoca e definitiva, acusar o Hamas de terrorismo – esquecendo, como nos ensinou Edward Said, que «todos os atos de resistência palestiniana são [hipocritamente vistos como] atos de terror» – e assim legitimar a “auto-defesa” do Estado de Israel. Que é como quem diz, o pretexto há muito esperado para levar a cabo uma política de terra queimada, uma cruel campanha de extermínio e assassinato, limpeza étnica e genocídio.

A lista de crimes, infrações e violações do Direito Internacional cometidos pelo Estado de Israel cresce a cada dia que passa. À impotência da ONU, do Tribunal Internacional de Justiça e de inúmeras organizações humanitárias, juntam-se a ensanguentada cumplicidade dos EUA, Reino Unido, França e outros mercadores que rejubilam com o negócio da matança industrializada, mas também as lágrimas de crocodilo da generalidade dos países árabes que, inebriados com a diplomacia de aproximação a Israel patrocinada pelos EUA, deixaram o povo palestiniano entregue ao seu trágico destino.

Aprisionados numa visão eurocêntrica e neocolonial do mundo, incapaz de se colocar no lugar do “Outro”, os países do mundo ocidental desenvolvido assistem, impávidos e serenos, à catástrofe humanitária em curso. O desinvestimento, as sanções, os boicotes, os embargos, as censuras morais, políticas, económicas e institucionais que se deviam impor ao Estado de Israel (muitos recordar-se-ão do papel-chave de Portugal quando se tratou de punir a Indonésia), parecem ter ficado, como outras boas ideias, devidamente engavetadas. Pior ainda, ao contrário de 143 dos 193 Estados-membros da ONU, Portugal não reconhece a existência de um Estado Palestiniano. Parece que ainda não é oportuno. Se não fosse tão trágico seria anedótico.

Restam-nos, como sempre, algumas vozes lúcidas e esclarecidas que, individual ou coletivamente, teimam em não deixar silenciar o crime, não se deixam enredar na nebulosa de enganos que ofusca o que é essencial, nem se amedrontam com as ridículas acusações de anti-semitismo que lhes são dirigidas sempre que denunciam ou contestam as opções tomadas pelo governo de extrema-direita de Netanyahu.

A última onda de protestos emergiu nalgumas universidades americanas e rapidamente se estendeu a todo o planeta. Um pouco por todo o mundo, inclusive em Portugal, jovens estudantes, mostrando que há vida para além das salas de aulas e das queimas das fitas, têm juntado a sua voz ao coro de protestos em defesa do povo palestiniano, da necessidade de um cessar-fogo imediato e de uma solução pacífica para o conflito.

A resposta do poder é a habitual: desconversar e silenciar, recorrer a falsas alegações para justificar intervenções policiais mais ou menos musculadas, adoptar uma postura de enorme paternalismo e/ou condescendente sobranceria para com uns tantos jovens que, em vez de estarem, respeitosamente, sentados, silenciosos e atentos, a aprender bem a lição, decidiram, por irrefletido e imaturo impulso, faltar às aulas.

Num ensaio intitulado “Abolitionists, Freedom Riders and the Tactics of Agitation”, o historiador norte-americano Howard Zinn assinalava que, para quem observa o mundo com lentes liberais, o que é preciso é muita moderação porque a defesa apaixonada de quaisquer causas pode levar a retaliações dos adversários, a exigência de medidas urgentes pode alienar possíveis aliados, o recurso a linguagem menos própria exacerba a emoção e obstaculiza o raciocínio lógico; em suma, pode deitar tudo a perder.

Mas pergunto: teriam feito melhor os jovens ativistas nas universidades se, como a nêspera de Mário-Henrique Leiria, ficassem todos deitados e calados a esperar o que acontece? Tenho muitas dúvidas. Entretanto, recorda-nos Zinn, os abolicionistas também eram agitadores, extremistas e radicais impertinentes. Hoje, merecem toda a nossa admiração. Ironias da história.

A exigência de um cessar-fogo imediato – reforçada com a aprovação, no passado dia 10, de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU – deve ser acompanhada da consciencialização de que a única forma de travar o avanço de uma carnificina, cuja existência ninguém minimamente decente pode hoje negar, é através do diálogo, do encontro e da negociação. A construção da paz exige vontade, respeito mútuo, compromisso e a definição de um espaço partilhado de cedência sem perda de integridade.

A coexistência pacífica entre os povos palestiniano e israelita é possível e desejável. Pode não ser tão lucrativa como o conflito permanente, pode não estar para breve e pode até nunca chegar, mas não é por isso que devemos deixar de procurar a sua conquista, a golpes de vontade.

André Carmo

Geógrafo e professor universitário

(Artigo elaborado a partir da intervenção de abertura do debate “Palestina. Resistir é vencer, até quando?”, realizado no dia 12 de junho de 2024, na Cooperativa Cultural Popular Barreirense)


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