Padre Damião: Viveu entre leprosos, contraiu a doença e tornou-se santo
Quando milhares de doentes de lepra eram afastados da sociedade e enviados para uma península isolada no Havai, poucos queriam aproximar-se deles. Um padre belga fez precisamente o contrário. Damião de Molokai abandonou uma vida confortável para viver entre os doentes, cuidar deles e lutar pela sua dignidade. Acabaria por contrair a mesma doença e morrer ao lado daqueles que jurou nunca abandonar.
No século XIX, a lepra, hoje conhecida como doença de Hansen, era uma das doenças mais temidas do mundo. No Reino do Havai, os doentes eram retirados das suas famílias e enviados para Kalaupapa, uma comunidade isolada na ilha de Molokai, onde viviam praticamente condenados ao abandono.
Foi para esse lugar que chegou, em 1873, um sacerdote belga chamado Jozef De Veuster, mais tarde conhecido em todo o mundo como Padre Damião. Missionário católico da Congregação dos Sagrados Corações, ofereceu-se como voluntário para trabalhar junto dos cerca de 700 doentes confinados à colónia.

O que inicialmente deveria ser uma missão temporária transformou-se numa decisão para a vida. Pouco depois de chegar, Damião decidiu permanecer em Molokai de forma permanente, partilhando o quotidiano, as dificuldades e os sofrimentos dos habitantes daquela comunidade.
Mais do que sacerdote, tornou-se construtor, enfermeiro, educador e amigo. Com a ajuda dos próprios doentes, ergueu casas, melhorou o abastecimento de água, construiu estradas, escolas e igrejas. Organizou bandas musicais, coros e atividades comunitárias, devolvendo dignidade a pessoas que a sociedade considerava perdidas.


A sua dedicação atraiu a atenção internacional. Damião denunciou publicamente as precárias condições de vida da colónia e pressionou as autoridades havaianas e instituições religiosas para que enviassem mais recursos e assistência.
Mas o contacto permanente com os doentes teve consequências.
Em 1884, após mais de uma década a viver entre os leprosos, descobriu que também tinha contraído a doença. Em vez de abandonar Molokai, recusou qualquer retirada e continuou a trabalhar. A partir desse momento, costumava referir-se aos habitantes da colónia dizendo: “nós, os leprosos”.

O seu estado de saúde deteriorou-se progressivamente, mas permaneceu junto da comunidade até ao fim. Morreu a 15 de abril de 1889, aos 49 anos, em Kalaupapa, na ilha de Molokai.

A sua obra ultrapassou fronteiras e religiões. Ao longo dos anos, passou a ser conhecido como “o apóstolo dos leprosos” e como um símbolo universal de compaixão e entrega aos mais marginalizados.
Em 2009, o Vaticano canonizou-o com o nome de São Damião de Molokai. Hoje é considerado padroeiro dos doentes de lepra, dos excluídos e dos que sofrem doenças incuráveis. No Havai, continua a ser uma das figuras mais respeitadas da sua história.
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