Opinião

Os novos deuses

A fé que moveu a construção dos megalíticos do Alentejo.

Há qualquer coisa de desconcertante em estar diante de um monumento megalítico.

O silêncio é quase absoluto. O calor do Alentejo parece suspender o tempo, e as pedras, gastas por milhares de anos de vento e chuva, permanecem ali, indiferentes à passagem dos séculos. Passei a mão sobre uma delas e ocorreu-me um pensamento estranho: alguém fez exatamente o mesmo gesto há cinco mil anos. Não sei quem era. Não sei em que acreditava. Mas, por um instante, pareceu-me que nos separava apenas o tempo, não as perguntas.

Porque é que alguém, há cinco ou seis mil anos, decidiu transportar blocos de várias toneladas durante quilómetros, sem motores, sem máquinas, sem qualquer tecnologia que hoje consideraríamos indispensável? Porque gastaram tanto esforço em algo que não alimentava, não aquecia, não defendia de invasores?

A resposta mais provável é simples: porque acreditavam.

Não sabemos exatamente em quê. Talvez nos deuses. Talvez nos antepassados. Talvez nos astros, nos ciclos da natureza ou na continuidade da vida para além da morte. Mas acreditavam em qualquer coisa suficientemente grande para justificar um esforço que atravessava gerações.

Enquanto caminhava entre estas pedras antigas, em Monsaraz, dei por mim a pensar que elas são, acima de tudo, monumentos à fé. Não apenas à religião, mas à necessidade profundamente humana de encontrar algo maior do que nós próprios.

Costumamos dizer que hoje vivemos numa sociedade menos crente.

Mas será mesmo verdade?

Talvez nunca tenhamos deixado de acreditar. Apenas mudámos de deuses.

Acreditamos no dinheiro, na produtividade, na tecnologia, no crescimento infinito. Acreditamos que estaremos sempre disponíveis, sempre ligados, sempre atualizados. Medimos o nosso valor pela carreira, pelo número de seguidores, pelas notificações que recebemos e pela imagem que projetamos. Continuamos a construir altares; apenas lhes demos outros nomes.

Os homens que ergueram estas pedras olhavam para o céu em busca de significado.

Nós olhamos para um ecrã.

Sabemos infinitamente mais sobre o universo do que eles alguma vez souberam. Conhecemos a idade das estrelas, exploramos o espaço, deciframos o genoma humano e transportamos no bolso mais conhecimento do que cabia em todas as bibliotecas da Antiguidade.

Mas continuo sem saber se respondemos melhor à pergunta que verdadeiramente importa: para quê?

Nenhuma civilização construiu monumentos porque tinha todas as respostas. Construiu-os porque fazia perguntas.

Talvez seja isso que estas pedras ainda nos ensinam.

A tecnologia mudou. As ferramentas mudaram. Os deuses também.

Mas a necessidade de acreditar continua exatamente a mesma.

A questão já não é se temos fé.

A questão é: em quê?


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