
Há qualquer coisa de profundamente contra-natura em fechar duzentos seres humanos dentro de um tubo de metal e esperar que se comportem bem.
Pedem-nos que entremos ordeiramente, que encontremos um lugar numerado, que arrumemos os nossos pertences num compartimento demasiado pequeno e que permaneçamos sentados durante algumas horas, respeitando instruções dadas numa língua que metade dos passageiros não percebe.
O meu último voo confirmou que talvez estejamos a exigir demasiado da espécie.
Ainda não tínhamos descolado e já havia pessoas de pé. Pessoas à procura de malas. Pessoas a tirar casacos das malas que tinham acabado de guardar. Pessoas a voltar a guardar os casacos.
Uma criança chorava algures atrás de mim. Outra gritava mais à frente. Um homem tentava explicar qualquer coisa a uma hospedeira numa língua que ela não falava e ela respondia noutra que ele também não entendia.
Comunicavam através de gestos cada vez maiores, como se aumentar a amplitude dos braços pudesse substituir um dicionário.
O avião começou finalmente a andar.
Acendeu-se o sinal dos cintos.
Alguém se levantou.
A hospedeira pediu que se sentasse.
Sentou-se.
Dois minutos depois levantou-se outra pessoa.
Comecei a suspeitar que o ser humano possui uma incapacidade biológica para permanecer sentado quando lhe dizem que tem de permanecer sentado.
Descolámos.
A criança continuava a gritar.
Outra decidiu juntar-se.
Algures nas filas de trás, alguém vomitou.
Não vi. Ouvi.
Há sons que dispensam confirmação visual.
Pouco depois, uma hospedeira atravessou o corredor com um saco na mão e a expressão profissional de quem aprendeu a reagir a vómito, turbulência e conflitos entre passageiros com o mesmo sorriso com que pergunta se queremos café.
Felizmente para mim, ninguém perguntou se havia algum médico a bordo.
Nem veterinário.
À minha volta falava-se francês, inglês, português e pelo menos duas línguas que não consegui identificar.
Ninguém parecia compreender verdadeiramente ninguém.
Nem sequer dentro da mesma língua.
Uma senhora queria passar. Um homem não percebia porquê. Outro passageiro queria ir à casa de banho. Uma criança queria qualquer coisa que os pais aparentemente também não conseguiam identificar. Alguém procurava uma mochila. Outra pessoa tinha colocado uma mala onde não devia.
E todos continuávamos a voar.
A dez mil metros de altitude.
Talvez uma das coisas mais extraordinárias da aviação moderna não seja termos conseguido construir máquinas capazes de transportar centenas de pessoas através do céu.
Talvez seja termos decidido enchê-las de pessoas.
Porque, em terra, conseguimos escolher.
Escolhemos onde nos sentamos. De quem nos aproximamos. De quem nos afastamos. Podemos atravessar a rua, mudar de mesa, sair de uma sala.
Num avião, não.
Durante algumas horas, a criança que grita pertence-nos um bocadinho. O homem que se levanta sete vezes obriga-nos a levantar sete vezes se tivermos escolhido o lugar do corredor. O vómito três filas atrás passa a integrar a atmosfera comum.
Somos uma pequena sociedade provisória, suspensa no céu, composta por pessoas que provavelmente nunca se encontrariam em circunstâncias normais e que, durante algumas horas, deixam de ter possibilidade de fugir umas das outras.
Antes de embarcarmos somos passageiros.
Temos filas, portas, números, horários, documentos.
Depois fecham-se as portas.
E regressamos lentamente ao nosso estado natural.
Comemos. Dormimos. Choramos. Reclamamos. Vomitamos. Levantamo-nos quando nos dizem para ficar sentados. Tentamos comunicar sem uma língua comum. Ocupamos território. Defendemos os nossos vinte centímetros de apoio de braço.
Tudo isto dentro de uma das máquinas mais sofisticadas alguma vez construídas pela humanidade, a atravessar o céu a novecentos quilómetros por hora.
Talvez Darwin tivesse gostado de viajar de avião.
Não sei se teria aprendido alguma coisa sobre evolução.
Mas teria certamente reconhecido a espécie.
Os animais voadores.
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