Editorial

O populismo que cresce nas fraturas da democracia

O século XXI trouxe novas crises e também novas formas de desconfiança política. Depois da pandemia de Covid-19, o populismo ganhou terreno em várias democracias, alimentado pelo descontentamento social, pela perda de confiança nas instituições e pela perceção de que muitos problemas continuam sem resposta. Em Portugal, tal como no panorama regional, os sinais dessa transformação política são cada vez mais visíveis.

O populismo deixou de ser um fenómeno distante, uma excentricidade política de outros países ou uma ameaça confinada às margens do sistema. Tornou-se uma realidade bem presente no século XXI e ganhou uma nova dimensão depois da pandemia de Covid-19. Não nasceu aí, é certo, mas foi nesse período de medo, incerteza e desgaste coletivo que encontrou o ambiente ideal para crescer, infiltrar-se no discurso público e apresentar-se a muitos como resposta para tudo.

A receita é conhecida. O populismo simplifica o que é complexo, transforma adversários em inimigos, troca a seriedade pelo espetáculo e alimenta-se da raiva de quem sente que já não é ouvido. Vive da exploração do descontentamento e próspera sempre que a democracia se mostra lenta, cansada ou incapaz de resolver problemas concretos. É essa a sua maior força, mas também o seu maior perigo.

A pandemia agravou fraturas que já existiam. Aumentou a desconfiança nas instituições, expôs a fragilidade dos serviços públicos, aprofundou desigualdades e deixou um lastro de ansiedade social que ainda hoje se sente. Vieram depois a inflação, a crise da habitação, a perda de poder de compra, a degradação de respostas essenciais e a perceção de que o esforço pedido às famílias nunca é acompanhado por resultados à altura. Neste contexto, o populismo encontrou terreno fértil, porque fala diretamente para a frustração, mesmo quando não apresenta soluções credíveis.

Em Portugal, este crescimento já não pode ser lido como um mero sobressalto passageiro. O país mudou politicamente e mudou porque muitos eleitores deixaram de acreditar que os partidos tradicionais consigam responder às suas preocupações mais imediatas. O centro político perdeu capacidade de mobilização, os discursos mais agressivos ganharam palco e o debate público tornou-se mais contaminado pela lógica da provocação do que pela construção de soluções. Quando a política se afasta das pessoas, alguém ocupará esse espaço. E raramente o ocupa para elevar a democracia.

A verdade é que o populismo não cresce sozinho. Cresce com os erros da governação, com a arrogância de quem se fecha no poder, com a burocracia que emperra respostas, com a incapacidade de reformar o que está mal e com a tentação de governar mais para a perceção do que para a realidade. Cresce também quando a linguagem política se torna hermética, distante, artificial, incapaz de traduzir a vida concreta de quem trabalha, paga impostos e vê o fim do mês chegar cada vez mais depressa.

No plano nacional, o ambiente é de fragmentação, crispação e incerteza. E no plano regional o cenário não é muito diferente. Em regiões como a Madeira e os Açores, onde há especificidades próprias, limitações estruturais e uma relação particularmente sensível com o poder, o sentimento de afastamento relativamente às decisões políticas pode ser ainda mais intenso. A pressão sobre os governos regionais, o aumento do voto de protesto e a erosão das maiorias estáveis mostram que também aqui o mal-estar social e político deixou marcas profundas.

Ignorar este fenómeno seria um erro grave. Desvalorizá-lo ainda mais. O populismo não se combate com moralismos fáceis, nem com discursos de superioridade. Combate-se com seriedade, com verdade, com competência e com coragem política. Combate-se devolvendo à democracia aquilo que ela nunca deveria ter perdido: credibilidade, eficácia e proximidade.

Porque o maior perigo não está apenas em quem usa o populismo como arma. Está, sobretudo, em quem continua a fingir que ele cresce por acaso. Não cresce. Alimenta-se das falhas da democracia. E cada falha não corrigida é mais um argumento entregue a quem quer destruir por dentro aquilo que custou tanto a construir.


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