O PCP, apesar de ser português, não deixa de ser comunista
Pedro Guerreiro Cavaco, Advogado, presidente do Conselho de Jurisdição Distrital em Setúbal do Partido Chega

Há coisas que o PCP faz questão de nos lembrar: a ideologia vem sempre primeiro. Até perante a morte.
Morreu Pavlo Sadokha, presidente de longa data da Associação dos Ucranianos em Portugal. Uma figura profundamente ligada à comunidade ucraniana no nosso país e que, desde 2010, presidia à associação que representa essa comunidade. Foi também distinguido, em 2017, pelo Presidente da Ucrânia com a Ordem de Mérito.
Na Assembleia Municipal de Lisboa foi apresentado um voto de pesar pela sua morte.
O PCP votou contra. Sim, votou contra um voto de pesar pela morte de um homem.
Sempre aprendi que, num voto de pesar, vota-se sempre a favor. Mesmo que a pessoa em causa tenha estado nos antípodas do que penso e sou.
A explicação dos comunistas é conhecida: acusam Sadokha de ter enaltecido “colaboradores com o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial”, bem como de apoiar forças de extrema-direita e posições que, na interpretação do PCP, seriam incompatíveis com a defesa da paz, da liberdade e da democracia.
E aqui começa a parte verdadeiramente interessante.
Porque, aparentemente, até para morrer é preciso passar pelo crivo da ortodoxia comunista.
Pode haver uma pessoa, uma comunidade, uma vida inteira de intervenção cívica. Pode haver uma família a fazer o seu luto. Pode haver cidadãos que entendam que a morte de alguém merece, independentemente das divergências políticas, uma palavra de respeito.
Mas nada disso parece suficiente quando a pessoa em causa não cabe na cartilha.
E é particularmente curioso assistir a isto vindo do PCP.
O partido que gosta tanto de dar lições sobre fascismo, democracia, liberdade e direitos humanos continua a carregar consigo uma ideologia que, historicamente, esteve associada a regimes responsáveis por repressão política, perseguições, deportações, prisões e milhões de vítimas.
Mas esses mortos, pelos vistos, são diferentes.
Porque há uma extraordinária elasticidade moral quando a História é contada a partir do lado certo da trincheira ideológica.
E o PCP, apesar de ser português, não deixa de ser comunista.
É precisamente aí que está o problema.
Não é preciso concordar com Pavlo Sadokha. Não é preciso concordar com todas as suas posições. Não é sequer preciso ignorar as acusações que o PCP lhe dirige.
Mas uma coisa é discordar de alguém.
Outra, bastante diferente, é considerar que essa discordância justifica negar até um gesto institucional de pesar pela sua morte.
Porque, no fundo, a mensagem que fica é extraordinariamente simples:
os mortos contam — desde que tenham morrido do lado ideologicamente certo.
É esta a grande moral comunista: solidariedade para todos… desde que tenham autorização do Comité Central.
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