
A polémica em torno dos exames nacionais atingiu o ponto do ridículo.
Centenas de jovens viram o seu futuro condicionado por erros que o Ministério da Educação parece incapaz de assumir. E, perante famílias revoltadas e alunos que dependem de décimas para entrar no curso que escolheram, a resposta tem sido um exercício extraordinário de transferência de responsabilidades.
Como se estivéssemos todos a imaginar o problema.
Como se professores, alunos e famílias fossem crianças pequenas a quem basta deitar um pouco de areia para os olhos até deixarem de fazer perguntas.
A culpa é dos professores.
Dos mesmos professores que fizeram horas extraordinárias para corrigir exames que não lhes chegaram a tempo. Dos mesmos que alertaram, repetidamente, para os riscos de um sistema novo que não estava preparado para ser utilizado numa prova da qual depende o acesso ao ensino superior. Dos mesmos que, quando o sistema falhou, tiveram de encontrar soluções para que os alunos não fossem ainda mais prejudicados.
Há qualquer coisa de profundamente injusto na facilidade com que culpamos quem está no terreno pelas falhas de quem decide longe dele.
Conheço bem esse mecanismo.
Na saúde, acontece todos os dias.
Quando faltam médicos, são os médicos que fazem mais horas. Quando faltam enfermeiros, são os enfermeiros que acumulam turnos. Quando não há camas, são os profissionais que ficam diante dos doentes e das famílias a explicar aquilo que não decidiram.
E depois perguntamos por que razão o sistema ainda funciona.
Funciona porque alguém o segura.
A escola pública não é muito diferente.
Por trás das estatísticas, dos comunicados e das decisões ministeriais existem professores que continuam a ensinar, a corrigir, a adaptar-se e a resolver problemas que nunca deveriam ter sido seus.
Não são eles que devem servir de escudo quando as decisões tomadas acima deles falham.
Porque assumir um erro não diminui uma instituição.
O que a diminui é fingir que o erro não aconteceu.
E talvez seja essa a parte mais grave de toda esta polémica.
Os exames nacionais servem para avaliar alunos.
Mas, desta vez, talvez tenham servido também para avaliar o sistema.
E não foram os alunos que chumbaram.
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