Não custa nada. Só custa 36 meses.
Um anúncio de um iPhone "grátis" levou o autor a fazer contas e a refletir sobre um conceito cada vez mais flexível no mundo do marketing. Afinal, numa época em que pagamos com fidelização, dados ou permanência, talvez a palavra "grátis" já não signifique exatamente aquilo que significava.

Há anúncios que passam por nós e há outros que conseguem fazer-nos parar. O do MillenniumBcp conseguiu.
“Aii que é desta. Vem ao Millennium, não custa nada.”
E aparece um iPhone 17.
Confesso que fiquei curioso. Um banco a oferecer um iPhone e a dizer-me que não custa nada? Fui perceber como funcionava. E foi aí que descobri que, nos dias de hoje, a palavra “nada” pode significar muita coisa.
Para aderir à campanha não basta abrir uma conta e esperar que o iPhone chegue a casa. É necessário cumprir um conjunto de condições, entre elas domiciliar um ordenado ou pensão de pelo menos 1.200 euros líquidos, aderir a um cartão de crédito e adquirir o equipamento através de um crédito pessoal a 36 meses.
Depois, todos os meses, há que continuar a cumprir.
É necessário receber os 1.200 euros na conta e fazer pelo menos 200 euros em compras com o cartão de crédito. Cumprindo as condições, o banco devolve mensalmente o valor correspondente à prestação do iPhone. Se, num determinado mês, não cumprir, essa prestação fica por sua conta.
Façamos as contas apenas aos 200 euros: ao fim de três anos são, no mínimo, 7.200 euros em compras feitas com aquele cartão.
E ainda há um pequeno pormenor no final da história. Depois dos 36 meses, se quiser ficar definitivamente com o iPhone, existe um valor residual de 160,81 euros. Em alternativa, poderá proceder à retoma nos termos previstos pela campanha.
Portanto, não custa nada.
Só é preciso manter uma relação com o banco durante três anos, receber ali o rendimento, utilizar regularmente o cartão de crédito, cumprir mensalmente as condições e, no final, decidir o que fazer com o telefone.
Antes que me interpretem mal: não estou a dizer que exista qualquer engano. As condições estão publicadas e qualquer pessoa pode consultá-las. Também não estou a dizer que seja uma má campanha. Para quem já teria este comportamento financeiro e cumpra todas as condições, pode até ser uma proposta interessante.
O que me fascina é outra coisa: a elasticidade que demos à palavra “grátis”.
Estamos cada vez mais habituados a não pagar necessariamente com dinheiro. Pagamos com permanência, com dados, com subscrições, com consumo mínimo, com fidelização ou simplesmente com o compromisso de continuarmos clientes.
Neste caso, o iPhone é a parte mais visível da relação. É bonito, desejado e muito mais interessante num anúncio do que falar de domiciliação de ordenado, utilização de cartões ou crédito pessoal.
Mas talvez o produto mais valioso desta campanha nem sequer venha dentro de uma caixa da Apple.
Talvez sejamos nós.
Porque um iPhone tem um preço. Um cliente que recebe o ordenado num banco, utiliza o seu cartão todos os meses e permanece ligado à instituição durante 36 meses também tem valor. E os bancos certamente sabem fazer essas contas melhor do que nós.
É isso que torna esta campanha tão inteligente.
O anúncio vende-nos a sensação de que podemos ganhar um iPhone. O banco, entretanto, pode ganhar um cliente durante três anos.
É uma troca. Pode até ser uma boa troca para ambas as partes. Mas continua a ser uma troca.
Por isso, da próxima vez que ouvir na televisão “vem ao Millennium, não custa nada”, já sei que não vou conseguir ouvir a frase da mesma maneira.
Não custa nada.
Só custa 36 meses.
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