Moradores da Penajóia sentem-se “reféns de um jogo político”: “Não nos deixam colaborar”
O bairro da Penajóia, em Almada, tornou-se o rosto da crise habitacional no concelho. Entre demolições, falta de luz e acusações trocadas entre Câmara e IHRU, os moradores afirmam estar “no meio do fogo político” e exigem ser ouvidos.

O bairro da Penajóia, na margem sul do Tejo, em Almada, é hoje um símbolo da crise habitacional que atravessa o país. Num terreno da responsabilidade do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU), dezenas de famílias vivem em casas auto-construídas, sem condições básicas e com medo de perder o pouco que têm.
Em declarações à CNN Portugal, uma das representantes dos moradores descreveu a situação como “um fogo político onde as pessoas visadas estão no meio e não as deixam colaborar”. Segundo explicou, o bairro é composto sobretudo por trabalhadores que passam o dia fora de casa e regressam à noite a uma zona onde faltam água, saneamento e eletricidade. “Quem passa lá durante o dia só vê as pessoas mais velhas e as crianças, porque as outras estão a trabalhar”, afirmou.
Os moradores acusam o IHRU de ter deixado de responder à Associação de Moradores desde fevereiro, depois de meses de contacto com a Câmara Municipal de Almada e de um protocolo de trabalho que pretendia encontrar soluções para o bairro. “Até fevereiro houve diálogo, mas a partir daí deixaram de nos responder. E quando começaram as demolições, foi o caos”, lamentou a mesma fonte, acrescentando que “chegou a ser demolida uma casa habitada enquanto os moradores estavam a trabalhar”.
Para muitos residentes, o bairro da Penajóia é o reflexo de um sistema que falhou. “O Penajóia não é um problema a eliminar, é o espelho das falhas de um sistema que deixou para trás as famílias trabalhadoras, honestas e cansadas de lutar sozinhas por um lar”, lê-se na carta aberta enviada há cerca de duas semanas à presidente da Câmara de Almada, Inês de Medeiros, e ao presidente do IHRU.
O documento, assinado pelos moradores, apela a que não sejam “criminalizadas as vítimas da crise da habitação” e defende que “os bairros autoconstruídos devem ser tratados como uma consequência da falta de resposta pública, e não como uma ameaça à cidade”.
A CNN Portugal dá ainda conta das acusações mútuas entre a autarquia e o IHRU. A presidente da Câmara, Inês de Medeiros, tem responsabilizado o instituto pelas falhas no acompanhamento e levantamento das habitações, enquanto o IHRU aponta falhas na colaboração municipal. Entre trocas de culpas, os moradores sentem-se esquecidos.
“Nem colaboram nem nos deixam colaborar”, sublinhou uma das porta-vozes ouvidas pela CNN, que garante que o bairro sempre esteve disponível para dialogar e encontrar soluções. “Nós queremos pagar a luz, queremos pagar a água, queremos viver com dignidade.”
Enquanto o impasse se mantém, as máquinas continuam a trabalhar no terreno e o futuro das famílias da Penajóia permanece incerto. Para os residentes, o que está em causa não é apenas a legalidade das casas, mas o direito básico a uma vida digna.
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