
Há imagens que dizem mais do que muitas reuniões. Um cartaz colocado numa estrada, anunciando a Semana Europeia da Mobilidade, entre 16 e 22 de setembro, é uma dessas imagens.
A iniciativa é importante. Sensibilizar para a mobilidade sustentável, incentivar os transportes públicos, promover a bicicleta e os percursos pedonais e envolver a comunidade são objetivos que devemos valorizar.
Mas há uma pergunta inevitável quando olhamos para a realidade de Palmela e, particularmente, para a Quinta do Anjo: o que estamos, efetivamente, a fazer para que as pessoas possam escolher outras formas de se deslocar?
Porque a mobilidade não se resolve numa semana. Constrói-se durante anos, com planeamento, segurança, infraestrutura e alternativas reais.
Quem vive na Quinta do Anjo conhece a realidade. Para trabalhar, estudar, levar os filhos à escola, praticar desporto, fazer compras ou simplesmente deslocar-se entre localidades, o automóvel continua a ser indispensável para muitas famílias.
Não necessariamente por falta de vontade de utilizar outras opções, mas porque essas alternativas nem sempre são suficientemente seguras, contínuas e convenientes.
É neste contexto que devemos olhar para a bicicleta e para os percursos pedonais não como uma moda ou uma ideologia, mas como aquilo que podem ser: meios de transporte complementares, particularmente úteis em deslocações de curta e média distância.
A própria Quinta do Anjo já nos dá uma pista.
Temos uma ciclovia pequena, longe de constituir uma verdadeira rede, mas que é utilizada. Crianças, famílias e adultos aproveitam-na para caminhar, andar de bicicleta ou praticar desporto.
Isto mostra uma coisa simples: quando existem espaços seguros e agradáveis, as pessoas utilizam-nos.
Então, porque não pensar no passo seguinte?
E se fosse possível sair da Quinta do Anjo e chegar ao Pinhal Novo em segurança? E se conseguíssemos criar uma ligação pedonal e ciclável com Palmela, aproveitando, sempre que tecnicamente possível, caminhos existentes e o território rural? E se os bairros estivessem ligados às escolas, equipamentos desportivos, comércio e transportes públicos?
É aqui que começamos a falar de uma verdadeira política de mobilidade.
Tenho, por isso, alguma dificuldade em considerar a ligação ciclável entre Cabanas e a Quinta do Anjo um exemplo acabado de mobilidade sustentável. Não porque o troço não seja útil, mas porque uma rede deve permitir chegar a algum lugar.
Uma ciclovia isolada pode melhorar uma deslocação. Uma rede pode mudar hábitos.
Precisamos de ligar localidades, escolas, equipamentos, comércio, zonas residenciais e transportes públicos. Mais do que contabilizar quilómetros construídos, devemos perguntar se essas infraestruturas permitem às pessoas chegar onde precisam.
E Palmela tem uma oportunidade particular.
Temos território rural, paisagem, caminhos e uma relação muito própria entre os núcleos urbanos e a atividade agrícola. Naturalmente, nem todos os caminhos podem transformar-se em ciclovias. Existem questões de propriedade, segurança, conservação, atividade agrícola e proteção ambiental que têm de ser estudadas.
Mas é precisamente por isso que precisamos de planeamento.
Alguns desses caminhos poderão, no futuro, constituir ligações pedonais e cicláveis entre localidades, evitando, sempre que tecnicamente possível, as vias de maior tráfego. Seria uma solução de mobilidade e, simultaneamente, uma forma de aproximar as pessoas da paisagem e da identidade do território.
Esta discussão também deve envolver a comunidade.
A Semana Europeia da Mobilidade poderia ser uma oportunidade para ouvir moradores, escolas, associações, comerciantes e jovens. Identificar os locais onde peões e ciclistas se sentem menos seguros, discutir percursos prioritários e promover ações de sensibilização e segurança rodoviária seriam formas concretas de transformar uma campanha numa verdadeira participação cívica.
Também os equipamentos públicos podem ter um papel. O Mercado da Quinta do Anjo, por exemplo, poderia ser um espaço mais vivo, acolhendo exposições, debates e iniciativas da comunidade.
Mas não devemos confundir mobilidade sustentável com uma guerra contra o automóvel.
Para muitas famílias, trabalhadores e empresas, o automóvel continuará a ser indispensável. Essa realidade deve ser respeitada.
O objetivo é outro: dar às pessoas mais escolhas.
Uma criança poder fazer parte do percurso para a escola a pé ou de bicicleta é autonomia. Um jovem poder deslocar-se sem depender permanentemente dos pais é liberdade. Uma pessoa poder caminhar em segurança até a um equipamento ou comércio é qualidade de vida.
A questão não é acabar com o automóvel. É fazer com que, sempre que possível, o automóvel seja uma escolha e não uma obrigação.
Para isso, precisamos de uma visão para os próximos anos.
Uma estratégia que identifique os principais percursos pedonais e cicláveis da freguesia, os pontos de maior risco e as ligações prioritárias entre a Quinta do Anjo, Cabanas, Pinhal Novo e Palmela. Que articule essas ligações com escolas, equipamentos, comércio e transportes públicos. E que defina prioridades e fases de execução.
Não precisamos de prometer tudo para amanhã.
Precisamos de saber onde queremos chegar daqui a cinco ou dez anos.
O primeiro passo poderia ser simples: identificar os principais percursos, os pontos de risco e as ligações prioritárias, criando depois um plano faseado de intervenção.
Podemos continuar a construir pequenos troços, cada um com a sua obra e a sua fotografia.
Ou podemos começar a construir uma verdadeira rede.
A Quinta do Anjo já nos deu um sinal: os espaços seguros são utilizados.
Talvez o problema não seja as pessoas não quererem andar a pé ou de bicicleta.
Talvez, simplesmente, ainda não lhes tenhamos dado caminhos suficientes para o fazer.
A Semana Europeia da Mobilidade deve servir para mais do que anunciar uma iniciativa. Deve ser uma oportunidade para discutir como queremos viver e circular no nosso território.
Porque mobilidade não é apenas bicicleta. Não é apenas transporte público. Não é apenas automóvel.
É a possibilidade de escolher.
Mobilidade não se anuncia. Constrói-se.
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