
Não foi uma visita de cortesia. Quando a comitiva brasileira atravessou as portas da Administração dos Portos de Sines e do Algarve, no passado dia 15 de maio, trazia consigo algo mais do que curiosidade, trazia intenção. A Missão Portuária Empresarial Bahia-Portugal 2026 chegou a Sines para fechar o ciclo de uma agenda que passou por Lisboa, Setúbal e outros portos nacionais, que tinha neste ponto final o seu destino mais estratégico.
Pedro do Ó Ramos, presidente da Administração dos Portos de Sines e do Algarve, recebeu a delegação e abriu as portas, literalmente, ao Terminal Multipurpose e ao Terminal XXI, as duas grandes plataformas que fazem de Sines um dos hubs logísticos mais relevantes da fachada atlântica europeia.
A comitiva não era pequena nem simbolicamente irrelevante. Reuniu representantes de portos e terminais portuários baianos, associações de empresas exportadoras, autoridades civis e estaduais, e chegou com o aval da CODEBA, a Companhia das Docas do Estado da Bahia, que liderou toda a iniciativa. A missão contou ainda com o apoio da ApexBrasil e da Embaixada do Brasil em Lisboa.
O interesse dos brasileiros neste porto alentejano não é difícil de perceber. O Terminal XXI, concessionado à PSA Sines, já assegura ligações regulares e diretas com vários portos brasileiros, incluindo o Porto de Salvador, na capital do Estado da Bahia. O Terminal Multipurpose, operado pela Portsines, tem capacidade para a movimentação de minério e granéis agroalimentares: exatamente o tipo de carga que o Brasil exporta em larga escala para a Europa.
A isto acresce um contexto geopolítico e comercial que empurra esta aproximação com força redobrada. O acordo entre o Mercosul e a União Europeia abre uma janela de oportunidades que tanto Lisboa como Salvador querem aproveitar antes que outros o façam. António Gobbo, presidente da CODEBA, foi direto ao referir que existe agora uma possibilidade concreta de traçar protocolos de cooperação, criar novas rotas regulares e beneficiar das reduções tarifárias decorrentes do acordo.
De Salvador vieram também representantes da Secretaria de Desenvolvimento Económico e da Secretaria do Mar, que observaram in loco a operação dos terminais e participaram em painéis sobre eficiência logística e sobre o impacto do novo quadro comercial entre os dois blocos. A capital baiana ambiciona tornar-se, segundo as suas próprias autoridades, a “Singapura das Américas” e Sines, com a sua posição de porta atlântica da Europa, é um parceiro natural nessa equação.
A delegação incluiu ainda líderes da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), empresários do sector de combustíveis e grandes operadores portuários, bem como o presidente da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), Moisés Schmidt, o que revela que o interesse vai muito além das docas e chega ao coração do agronegócio brasileiro.
Sines sai desta visita reforçado no que já é: o maior porto português em volume de mercadorias movimentadas, com águas profundas que permitem receber os maiores navios do mundo e uma zona industrial e logística de mais de dois mil hectares na retaguarda. A missão baiana não é a primeira vinda do Brasil, há registos de acordos semelhantes com Santa Catarina e outras delegações brasileiras, mas esta tem uma dimensão e um timing políticos que lhe conferem peso acrescido.
O que fica por saber é quanto desta intenção se vai transformar em contratos, rotas e investimento real. Nesse capítulo, o tempo e os negociadores dirão.
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