CUF
Opinião

Mesa para um

Exploração da experiência de jantar sozinha.

Fui jantar e vi uma mulher a jantar sozinha.

Não sei nada sobre ela. Não sei se estava sozinha por escolha, por circunstância ou simplesmente porque lhe apetecia jantar naquele restaurante e não encontrou razão suficiente para precisar de companhia.

Mas fiquei a olhar para ela.

Fez-me lembrar uma época da minha vida em que tive de aprender a fazer o mesmo.

Jantar sozinha parece uma coisa insignificante até ao dia em que temos de o fazer. Entrar num restaurante, esperar que nos perguntem quantas pessoas são e responder simplesmente:

— Uma.

Há qualquer coisa estranhamente íntima numa mesa para um.

Talvez porque vivamos numa sociedade que continua a partir do princípio de que toda a gente tem alguém. Os restaurantes têm mesas para dois, quatro, seis. Os hotéis têm quartos duplos. As viagens anunciam preços por pessoa em ocupação dupla. Até algumas sobremesas parecem ter sido inventadas para partilhar.

Estar sozinho em público continua a exigir uma espécie de explicação que ninguém nos pede, mas que sentimos necessidade de dar.

Estou à espera de alguém.

Estou em trabalho.

Só vim comer qualquer coisa rapidamente.

Como se simplesmente querermos estar ali não fosse motivo suficiente.

Lembro-me da primeira vez em que consegui fazê-lo sem me sentir observada. Do momento em que deixei de achar que as pessoas à minha volta se perguntavam por que razão aquela mulher estava sozinha.

Provavelmente nunca se tinham perguntado.

Mas eu perguntava.

Até ao dia em que pedi a minha mesa para um, me sentei e percebi que não precisava de fingir que esperava por ninguém.

Lembro-me do orgulho.

E, sobretudo, lembro-me da paz.

A mulher que vi naquela noite parecia já ter chegado aí há muito tempo.

Bebia um copo de vinho devagar. Olhava à sua volta. Não tinha um livro aberto à frente, uns auscultadores nos ouvidos ou um computador que justificasse a sua presença solitária.

E não tinha um telemóvel na mão.

Foi talvez isso que mais me chamou a atenção.

Porque, quando desviei os olhos dela e olhei para o resto do restaurante, quase toda a gente tinha um.

Casais sentados frente a frente, cada um a olhar para o seu ecrã. Grupos interrompidos por notificações. Telemóveis pousados ao lado dos pratos como mais um talher indispensável. Fotografias à comida antes de alguém lhe tocar. Fotografias às pessoas antes de deixarem de olhar para a câmara e voltarem a olhar para o telefone.

O restaurante tinha um enorme som de fundo e, por momentos, quase me perguntei de onde vinha.

Estávamos todos acompanhados.

Mas quantos estávamos realmente ali?

Fotografamos o jantar para provar que fomos. Publicamos a fotografia para mostrar que saímos. Registamos as pessoas com quem estivemos para demonstrar que pertencemos a alguma coisa.

Talvez tenhamos encontrado uma forma extraordinariamente sofisticada de camuflar a solidão.

Já não precisamos de estar acompanhados.

Precisamos de parecer acompanhados.

E talvez seja por isso que uma mulher sentada sozinha num restaurante ainda consiga chamar a atenção.

Porque não estava a esconder-se.

Não precisava de fingir que falava com alguém do outro lado de um ecrã, de ocupar as mãos, de justificar o silêncio ou de transformar aquele jantar numa coisa diferente daquilo que era.

Uma mulher.

Uma mesa.

Um copo de vinho.

E tempo.

Encarava a solidão pública com uma naturalidade que me pareceu quase provocadora no meio de tantas pessoas desesperadamente ligadas umas às outras.

Emanava paz.

Não sei se era feliz. Não sei se tinha alguém à espera dela em casa. Não sei sequer se gostava de jantar sozinha.

Sei apenas aquilo que vi.

Era a única pessoa sozinha no restaurante.

E talvez fosse também a única que estava realmente lá.

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