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Maternidade de Vila Franca em rota de colisão

O presidente da Câmara de Vila Franca de Xira acusa o Governo de estar a abrir caminho ao encerramento da maternidade local, após decidir concentrar a urgência regional de obstetrícia e ginecologia no Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, a partir de segunda-feira.

O anúncio do fecho das urgências de ginecologia e obstetrícia no Hospital de Vila Franca de Xira caiu como uma bomba no concelho e nos municípios servidos por aquela unidade hospitalar. O presidente da Câmara de Vila Franca de Xira, Fernando Paulo Ferreira, acusa o Governo de querer dar um passo decisivo para o encerramento da maternidade local, considerando a medida “absurda”, desajustada ao território e penalizadora para a população.

Segundo o autarca socialista, a decisão de transferir os casos urgentes para o Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, revela um caminho que vai muito além da reorganização dos serviços. Na leitura do presidente da autarquia, o encerramento das urgências de obstetrícia e ginecologia representa, na prática, uma ameaça direta ao futuro da maternidade do hospital de Vila Franca de Xira.

A crítica ganha maior peso porque a unidade hospitalar serve uma população estimada em cerca de 250 mil habitantes, abrangendo não apenas Vila Franca de Xira, mas também os concelhos de Azambuja, Arruda dos Vinhos, Alenquer e Benavente. Para o autarca, a decisão ignora por completo a realidade local, desde a dimensão do território às dificuldades de mobilidade, numa zona onde não existem ligações diretas de transporte público para o Hospital Beatriz Ângelo.

Fernando Paulo Ferreira sustenta ainda que esta alteração surge num momento particularmente delicado. Várias estradas da região continuam condicionadas ou danificadas na sequência das recentes intempéries, o que, no seu entender, agrava os riscos e os constrangimentos para quem necessitar de cuidados urgentes nesta área clínica. O autarca considera, por isso, que a medida foi tomada sem conhecimento efetivo do terreno e sem sensibilidade para as necessidades concretas das populações afetadas.

Outro dos pontos que mais indignação gerou entre os responsáveis locais prende-se com a falta de auscultação prévia. Os autarcas dos cinco municípios abrangidos dizem não ter sido ouvidos antes da divulgação pública da decisão, conhecida através da comunicação social. Para Fernando Paulo Ferreira, essa forma de atuação é inaceitável e demonstra falta de consideração institucional por quem representa as populações diretamente atingidas por esta mudança.

A contestação política e institucional deverá ter novo capítulo já na próxima segunda-feira, data em que os presidentes das câmaras de Vila Franca de Xira, Azambuja, Alenquer, Arruda dos Vinhos e Benavente têm agendada uma reunião com a ministra da Saúde, Ana Paula Martins. O objetivo passa por transmitir ao Governo as preocupações que se manifestaram no terreno e contestar uma decisão que está longe de reunir consenso.

Entretanto, cresce também a mobilização popular. Para sábado está marcada uma concentração de utentes junto ao Hospital de Vila Franca de Xira, numa iniciativa de protesto contra o encerramento das urgências de obstetrícia e ginecologia, que contará com representação da autarquia.

A Direção Executiva do SNS já confirmou que a urgência regional de obstetrícia e ginecologia no Hospital de Loures entra em funcionamento às 09h00 da próxima segunda-feira, adiantando ainda que o novo modelo será alvo de avaliação semestral. Esta reorganização integra o conjunto de urgências regionais que o SNS pretende criar nesta especialidade para responder à falta de profissionais de saúde. Além de Vila Franca de Xira, está prevista uma solução semelhante na Península de Setúbal, com concentração no Hospital Garcia de Orta, em Almada, e consequente encerramento da urgência no Barreiro.

Inaugurado em março de 2013, o Hospital de Vila Franca de Xira funcionou até 2021 em regime de parceria público-privada com o Grupo Mello Saúde, tendo depois transitado para o modelo de entidade pública empresarial. Agora, volta a estar no centro do debate, desta vez devido a uma decisão que incendeia o plano político e a deixar milhares de utentes sob forte apreensão.


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