DestaqueEntrevistaExclusivo
Em Destaque

Marco Neves em entrevista exclusiva: “A língua portuguesa não é um conjunto de regras fixas”

Professor universitário, investigador e tradutor, Marco Neves fala ao Diário do Distrito sobre a evolução da língua portuguesa, os mitos que persistem, os desafios do ensino, a influência das redes sociais e o futuro do português num mundo cada vez mais digital.

Uma agradável conversa entre o Diário do Distrito e Marco Neves

Professor universitário, investigador, tradutor e um dos mais reconhecidos divulgadores da língua portuguesa em Portugal e além-fronteiras, Marco Neves eleva o debate linguístico a um outro nível, aproximando-o do grande público através de livros, rádio, televisão e redes sociais.

Numa conversa longamente rica, cheia de boa disposição, com elogios de parte a parte e bom humor, o Diário do Distrito falou com o autor sobre a paixão pela língua, os mitos que persistem, os desafios do ensino, as histórias escondidas nas palavras e muito mais.

A paixão pela língua portuguesa e o seu percurso

Primeiramente, segundo o próprio, o interesse pela língua não surgiu de forma súbita, mas “foi crescendo ao longo do tempo”. Inicialmente inclinado para a História, Marco Neves percebeu gradualmente que aquilo que realmente o fascinava era o funcionamento das línguas: a forma como evoluem, como se transformam, como absorvem influências e como transportam, silenciosamente, séculos de cultura.

A tradução entrou na sua vida quase de forma natural. Depois da licenciatura, criou uma empresa com a sua mulher e alguns colegas e mergulhou intensamente na área. Trabalhou com textos técnicos, literários e institucionais, confrontando-se diariamente com “escolhas subtis, ambiguidades e diferenças estruturais entre línguas”. Essa experiência prática reforçou a sua consciência sobre os mecanismos do português e aprofundou o interesse científico.

Chegou também a experimentar a legendagem, mas acabou por abandonar essa vertente devido às “condições pouco compensadoras”. Ainda assim, o contacto com esse universo revelou-lhe como cada palavra ganha peso quando o espaço é limitado.

Entre a investigação académica e a comunicação pública, identifica um desafio claro: explicar temas complexos a públicos muito diversos sem perder rigor. “Não podemos falar nas redes sociais como se estivéssemos a escrever um artigo científico, mas também não podemos abdicar da precisão”, afirma. Encontrar esse equilíbrio tornou-se uma das marcas do seu trabalho.

Marco Neves e a sua esposa. Foto: Facebook de Marco Neves.

Comunicar sobre a língua: entre mitos e mal-entendidos

As ideias para vídeos, artigos e rubricas surgem de todo o lado: perguntas de leitores, comentários inesperados, discussões familiares, observações do quotidiano e por aí afora. Marco vai apontando sugestões de “forma quase anárquica” e desenvolve-as quando encontra tempo e ângulo certo.

Um dos mitos mais persistentes é a crença de que a língua é um conjunto de regras fixas e imutáveis. Por isso, afirma perentoriamente: “A língua portuguesa não é um conjunto de regras fixas.” No entanto, para o linguista, esta é talvez a ideia mais difícil de desmontar. A língua muda – sempre mudou – e continuará a mudar. Muitas construções consideradas erro num século tornam-se perfeitamente aceitáveis noutro. A história da língua está cheia de exemplos disso.

Também há episódios caricatos na sua vida, que Marco Neves contou na entrevista. Por exemplo, explicou a origem de um palavrão e, dias depois, alguém afirmou ter aprendido precisamente o contrário num vídeo seu. Outro caso recorrente envolve as vírgulas de José Saramago: “Há quem insista que o escritor não usava vírgulas, apesar de qualquer leitor poder confirmar o contrário ao abrir um dos seus livros.”

O português nos dias de hoje

Uma das transformações mais significativas das últimas décadas é, segundo Marco Neves, a explosão da escrita quotidiana. E-mails, mensagens instantâneas, comentários em redes sociais…”escrevemos muito mais do que escrevíamos há cinquenta anos”. Essa democratização altera profundamente o uso da pontuação, o tom e até a forma como expressamos emoções.

Os emojis, por exemplo, “funcionam muitas vezes como marcadores pragmáticos”: ajudam a indicar ironia, suavizam afirmações ou substituem gestos que, na oralidade, seriam visíveis no rosto ou na entoação.

Outro fenómeno curioso é a “uniformização do discurso jovem”. Antes, cada escola ou bairro desenvolvia o seu calão próprio; hoje, segundo o entrevistado, as redes sociais espalham expressões a uma velocidade inédita, criando modas linguísticas nacionais (e até globais).

Marco Neves numa conferência. Foto: Facebook de Marco Neves.

Os “erros falsos”

Marco Neves não se assume como “caçador de erros”, segundo o que refere durante a entrevista. Ainda assim, há equívocos persistentes que o surpreendem. Segundo o professor, “parece que com o Acordo Ortográfico os ‘c’s’ todos caíram quando muitos não caíram“. Palavras como “facto” ou “contacto” continuam a escrever-se com “c” em Portugal, porque o som é articulado.

Mas aquilo que mais o “diverte” são os chamados “erros falsos”: construções consideradas incorretas que têm tradição histórica sólida. Um exemplo clássico é “o comer”. O próprio salienta que muitos defendem que não se pode usar um verbo como nome, mas dizemos naturalmente “o jantar”, “o saber”, “o olhar”. Neste caso, “comer” como substantivo aparece já nos primeiros dicionários da língua portuguesa e, dessa forma, “a língua é mais flexível do que muitos imaginam“.

“O português não nasceu apenas em Portugal; nasceu também na Galiza”

Sobre a divergência entre português europeu e brasileiro, Marco considera que ela existe, mas é lenta e natural. No registo formal, as variedades continuam muito próximas. A eventual separação em línguas distintas seria sobretudo uma decisão política, não linguística.

Outro ponto fundamental é a compreensão das origens. “O português não nasceu apenas em Portugal; nasceu também na Galiza“, destaca o linguista. Sem entender essa ligação histórica, “perde-se uma parte essencial da identidade linguística”. Além disso, é importante referir que a língua é fruto de cruzamentos, contactos e deslocações, nunca de pureza isolada.

Desafios literários e uma ligação especial

Entre os seus livros, “dois foram particularmente desafiantes”. O romance A Baleia que Engoliu um Espanhol, por exigir um “registo ficcional distante do ensaio linguístico“; e o Atlas Histórico da Escrita, que o levou a “estudar sistemas de escrita muito além do meu campo habitual“, obrigando-o inclusive a atravessar milénios de história humana.

Por outro lado, a relação profissional e humana com o professor Fernando Venâncio teve também um impacto marcante. O autor de Assim nasceu uma língua, a quem Marco Neves designa de “um dos grandes especialistas da língua portuguesa”, demonstrou-lhe que é possível comunicar ciência linguística com clareza, humor e coragem intelectual, mas sem simplificações excessivas e sem pedantismo.

Além disso, elogia igualmente essa obra por dizer que “acabou por ter um sucesso como eu nunca me lembro de ter visto num livro sobre a língua portuguesa.” Ademais, complementa as palavras sobre Fernando Venâncio por dizer que o próprio “tinha um certo humor na forma como escrevia em público.”

“A inteligência artificial fará parte da realidade escolar”

Noutro âmbito, em relação ao ensino da língua portuguesa, para o nosso entrevistado, “o maior desafio é equilibrar a exigência terminológica da gramática com experiências reais de fruição da língua.” Literatura, música, cinema, escrita criativa: tudo pode ser um ponto de entrada para despertar o interesse.

Defende ainda que a tecnologia não deve ser proibida, mas integrada criticamente e que “a inteligência artificial fará parte da realidade escolar“. O essencial será “ensinar os alunos a usá-la com discernimento, espírito crítico e consciência linguística.”

Um dos seus vários livros: “Gramática & Pontuação”. Foto: Diário do Distrito.

Curiosidades finais na entrevista a Marco Neves

Na parte final desta entrevista/conversa, fomos a perguntas “mais descontraídas” e que fizeram Marco Neves esboçar uns risos. Primeiramente, se ele pudesse recuperar uma palavra antiga, escolheria “azinha, que era usada nos primeiros séculos com o sentido de ‘depressa'”.

A palavra de que mais gosta atualmente é “azul”. Explicou o seu percurso etimológico, que “começa no persa antigo (lajvard), passa pelo árabe (lazuward) e pelo latim (lazuli), até chegar ao português”. Esta é, aliás, uma verdadeira viagem linguística pelas rotas da seda.

Gosta também de “pirilampo”, termo inventado no século XVII na biblioteca do Conde de Ericeira para substituir “cagalume” – e que, surpreendentemente, vingou. Quanto a “pecados linguísticos” pessoais, já foi alvo de brincadeiras por “repetir demasiadas vezes a palavra ‘nariz’ num vídeo”.

Por fim, se os livros de Marco Neves pudessem falar, o que diriam? Segundo o próprio, “talvez dissessem que está na altura de mudar de tema…ou que um novo ‘irmão’ está para nascer“. Neste caso, refere-se ao próximo livro e que está ligado à origem das palavras.

Nota final: O Diário do Distrito agradece, novamente, a excelente disposição do entrevistado e, no final desta agradável conversa em forma de entrevista, fica clara uma ideia: para Marco Neves, a língua portuguesa não é apenas um sistema de regras. É uma história viva, em permanente construção…e profundamente humana.


Se tiver sugestões ou notícias para partilhar com o Diário do Distrito, pode enviá-las para o endereço de email geral@diariodistrito.pt


Sabia que o Diário do Distrito também já está no Telegram? Subscreva o canal.
Já viu os nossos novos vídeos/reportagens em parceria com a CNN no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!
Siga-nos na nossa página no Facebook! Veja os diretos que realizamos no seu distrito

fertagus