Opinião

Mais políticas, menos política

As opiniões expressas neste artigo são pessoais e vinculam apenas e somente o seu autor.

Um ensaio sobre o nosso futuro comum

Entramos na última semana de campanha para as eleições europeias do próximo dia 9 de junho. Num ano marcado por inúmeras eleições, quer a nível nacional, quer a nível internacional, este momento – que marca também um ano que vai a meio – constitui-se como ideal para uma análise do estado do nosso sistema político.

A fragmentação do espectro partidário, com a reconfiguração do espaço da direita – que se segue à reconfiguração do espaço da esquerda na segunda década deste século – tem conduzido a uma polarização do debate público, com consequências na sociedade.

Não está alheado dessa polarização a recente aproximação da Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, à Primeira-ministra italiana, Georgia Meloni. O problema é que essa aproximação decorre por razões táticas, pelo já descrito supra, e não por razões políticas (embora sejam essas, para a vida dos europeus, as suas consequências). Recordemos que se trata da Presidente da Comissão Europeia que nos últimos cinco anos governou a Europa através de uma plataforma política construída entre os democratas-cristãos do PPE, os sociais-democratas dos S&D e os liberais do Renew Europe.

A facilidade com que estas movimentações no tabuleiro político acontecem (não apenas a nível europeu, mas também a nível nacional) deve merecer a nossa melhor análise e reflexão. Uma das razões prende-se com o facto de a política dos dias de hoje ser maioritariamente sobre os políticos e menos sobre as suas políticas. Pilar fundamental do sistema democrático é o facto de os políticos serem agentes de ideias e de causas. É por essa razão que é fundamental a existência de partidos e ideologias, pelas quais os políticos são eleitos.

É certo que nestas eleições europeias até tem existido a oportunidade para se discutirem alguns temas e algumas medidas tomadas a nível europeu, como o novo pacto em matéria de migrações e asilo, o acordo verde para a Europa ou a política agrícola comum. Mas todos estes temas surgem derivados do clima de tensão social causado por manifestações e conflitos que se têm visto um pouco por toda a Europa (em Portugal também), sendo na maioria das vezes discutidos a posteriori, quando deveriam ser discutidos a priori.

Tem tudo a ver com uma certa deriva para o espetáculo, em que a absorção fácil de conteúdos prevalece sobre um conhecimento mais interessado e profundo sobre estes temas, que ocorre de forma mais lenta e discorrida no tempo.

O que não quer dizer, ao contrário do que muitos acham e vêm a público defender, que as ideologias tenham deixado de existir. Nós é que, progressivamente, temos vindo a nos interessar cada vez menos por elas. A consequência parece óbvia: há menos pessoas engajadas politicamente, o que significa que o poder está nas mãos de um número cada vez menor de pessoas, normalmente aqueles que têm maior capacidade de intervenção na sociedade, a comumente considerada elite dominante.

É neste paradoxo que se encontra a sociedade atual. A civilização do espetáculo, tal como nos diz Vargas Llosa, dá lugar ao desinteresse por tudo o que é mediato, o que conduz a um menor interesse pelo conhecimento do mundo que nos rodeia e uma menor valorização da organização coletiva. Se não nos interessamos por coisa nenhuma, não nos conseguimos organizar em torno de coisa nenhuma. Sobra a política, em detrimento das políticas.


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