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Júlio Verne passou 48 horas em Lisboa e jantou no hotel que Eça imortalizou em “Os Maias”

Em junho de 1878, Júlio Verne chegou a Lisboa a bordo do seu iate e passou cerca de dois dias entre monumentos, encontros com figuras da cultura portuguesa, conversas sobre navios e jantares no Grand Hotel Central. A curta passagem pela capital levou-o ainda a Belém e ao Dafundo, antes de voltar ao Tejo para seguir viagem rumo a Cádis.

Muito antes de aviões e viagens rápidas entre capitais europeias, Júlio Verne chegou a Lisboa pelo Tejo. Era 5 de junho de 1878 quando o escritor francês entrou na cidade a bordo do Saint-Michel III, vindo de Vigo e acompanhado pelo irmão Paul Verne, Jules Hetzel filho e o antigo deputado francês Raoul Duval.

A passagem pela capital portuguesa durou apenas cerca de 48 horas, mas foi suficiente para Verne percorrer alguns dos locais mais emblemáticos de Lisboa e encontrar várias personalidades da vida cultural portuguesa.

No primeiro dia, acompanhado pelo banqueiro Jorge O’Neill, passou pelo Consulado de França e visitou a Igreja de São Roque. Encontrou-se também com David Corazzi, responsável pela edição portuguesa das suas obras, e esteve em casa de O’Neill.

Ao final do dia, Verne jantou no Grand Hotel Central, na Praça Duque da Terceira, junto ao Cais do Sodré, um dos estabelecimentos mais conhecidos da Lisboa oitocentista. Depois seguiu para os Recreios Whittoyne, onde assistiu à zarzuela La Gallina Ciega, regressando posteriormente ao iate.

Na manhã seguinte, enquanto os companheiros partiram para Sintra, Verne decidiu permanecer em Lisboa. Durante esse dia recebeu a bordo o capitão João de Carvalho Ribeiro Viana, antigo diretor do Arsenal da Marinha, com quem conversou sobre livros e navios, incluindo o então novo cruzador português Vasco da Gama.

O escritor seguiu depois para Belém, onde visitou a Torre de Belém e o Mosteiro dos Jerónimos.

O Grand Hotel Central voltaria a ocupar um lugar importante no segundo dia. Foi ali que Júlio Verne encontrou Manuel Pinheiro Chagas, Ramalho Ortigão e Rafael Bordalo Pinheiro, três figuras marcantes da cultura portuguesa da época.

Pinheiro Chagas deixou posteriormente um relato desse encontro, descrevendo Verne como um homem afável e de olhar vivo e inteligente. Na conversa, o escritor francês revelou que trabalhava então em Um Capitão de Quinze Anos e falou também sobre a forma como Portugal era visto em França.

A noite ainda reservou uma última deslocação. Verne seguiu até ao Dafundo para visitar Fernando Palha, onde conheceu a sua coleção de livros, obras de arte e antiguidades.

Às seis da manhã de 7 de junho, o Saint-Michel III levantou ferro e deixou Lisboa em direção a Cádis.

Há ainda uma curiosidade literária associada à passagem do escritor pela capital. O Grand Hotel Central onde Júlio Verne jantou seria mais tarde eternizado por Eça de Queirós em Os Maias, sendo nesse espaço que Carlos da Maia vê Maria Eduarda pela primeira vez.

O hotel encerrou em 1919, mas o edifício permanece na Praça Duque da Terceira. Durante dois dias de 1878, foi também um dos cenários da passagem por Lisboa de um dos escritores mais conhecidos da literatura mundial.

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