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Inóspita: “uma viagem solitária” à guitarra que vai passar pelo Montijo

A artista antecipa uma noite “única” com O Gajo (João Morais) como convidado especial, num espetáculo de 60 minutos (+6) onde a guitarra e os pedais contam “canções não cantadas” sem voz, mas com narrativa.

Há nomes que parecem contrariar o que prometem. Inóspita — alcunha de adolescência transformada em projeto artístico — nasce de um trocadilho (“Inês+pita”) e cresce até se tornar uma espécie de manifesto: evocar “um sítio hostil” à música que faz, precisamente por ser instrumental. “A ideia agradou-me”, explica a guitarrista e compositora Inês Matos, que leva à Casa da Música Jorge Peixinho, no Montijo, um concerto pensado como narrativa sem palavras, mas com começo, meio e fim — apenas à guitarra e pedais.

O espetáculo está marcado para 20 de fevereiro, às 21h30, com duração prevista de 60 minutos e classificação etária +6. Em entrevista por escrito ao Diário do Distrito, a artista antecipa o que o público pode esperar: “Uma viagem solitária pelo meu universo instrumental.” E deixa desde já um detalhe que promete marcar a noite: O Gajo (João Morais) vai juntar-se a Inóspita em palco — num tema da guitarrista e noutro do convidado. “É um projeto que admiro muito e há já bastante tempo que queria trabalhar com ele. Venham que será único!”, lança.

Um nome, uma estética: canções sem voz, mas com história

A música de Inóspita vive no território das “canções não cantadas”. A artista descreve a sua escrita como um trabalho de condução melódica, em que a guitarra assume o papel de voz principal, sem precisar de a ter. “Talvez uma boa comparação seja a de um poema que não necessita de um cantor e uma banda para se saber que a história está concluída”, explica.

Esse princípio atravessa os dois discos já editados e ajuda a perceber como a compositora define o momento em que uma ideia “já é canção”. Não é a letra que fecha o sentido, nem a banda que resolve o arranjo: é a linha melódica, a cadência, a narrativa construída com as mãos — e com o silêncio entre notas.

“Porto Santo”: o primeiro testemunho do que cabia numa guitarra e “uns quantos pedais”

O primeiro LP, “Porto Santo”, nasceu de um encontro feliz entre repertório e circunstância: um conjunto de temas que Inês Matos tinha na altura e a oportunidade de gravar um disco na ilha do Porto Santo. “Foi o meu primeiro testemunho do que era possível fazer apenas com uma guitarra e uns quantos pedais”, recorda.

Já o segundo trabalho, “E nós, Inóspita?”, surge como continuidade e afirmação: “Diria que é uma consolidação da possibilidade da escrita à guitarra.” A ideia de consolidação é importante: não se trata de repetir fórmula, mas de aprofundar linguagem, de tornar mais claro aquilo que antes era descoberta — e de transformar tentativa em identidade.

Produção como “base de apoio”: Primeira Dama e Chinaskee

Ainda que seja um projeto a solo, Inóspita não se constrói em isolamento. A artista trabalhou com Primeira Dama e Chinaskee nos respetivos projetos, e essa proximidade foi decisiva quando chegou o momento de fazer os seus próprios álbuns. “Trabalhar com pessoas com quem já tinha partilhado uma afinidade musical e que conheciam as minhas referências e limitações à guitarra fizeram deles uma base de apoio à realização dos álbuns”, sublinha.

A palavra “apoio” aqui tem peso: num formato minimalista, qualquer detalhe conta — o timbre, o espaço, a forma como a guitarra ocupa o corpo da canção. Ter um olhar externo, familiar e exigente, foi, para a artista, parte do processo de chegar a um som que hoje reconhece como seu.

DIY e imaginário: os videoclipes como extensão do universo sonoro

Nos temas “O Retrato de Cid Rosa” e “Fofocas”, Inóspita decidiu também assumir a criação visual, num registo deliberadamente artesanal. “Foram dois temas muito divertidos de tornar em vídeo-clips, feitos por mim, num formato muito DIY”, conta.

As referências ajudam a perceber o contraste entre ambos: “O Retrato de Cid Rosa” foi uma homenagem à mãe; “Fofocas” parte de um mito fundador do blues, a lenda de Robert Johnson, o músico que, segundo a história, encontra o diabo na encruzilhada. Entre o íntimo e o lendário, a artista vai desenhando um território onde a guitarra tanto pode contar memórias como inventar personagens.

Escola, palco e liberdade: a guitarra como constante

A formação aparece como eixo estruturante. A Academia de Guitarra em Algés é descrita como “um sítio muito importante”, onde foi aluna e é professora, sempre com “muito apoio positivo” — não só para crescer como guitarrista e compositora, mas “acima de tudo, enquanto pessoa”.

Já o Hot Clube de Portugal marcou o mergulho no jazz e a descoberta de uma comunidade: “Pela primeira vez na minha vida, estar rodeada de colegas músicos que tinham objetivos semelhantes aos meus.” O jazz, garante, continua a ser um género que adora ouvir — e a ligação mantém-se viva, ainda hoje, em colaborações com amigos feitos nessa fase.

Ao vivo, a abordagem tenta conciliar planeamento e surpresa. Inês leva setlist, pensa “em que alturas faz sentido trocar uma palavra com o público”, mas assume que um concerto tem “uma dinâmica muito viva”: “Os imprevistos tornam-se improviso e gosto muito dessa liberdade que torna cada concerto único.”

Entre projetos: de Inóspita a João Borsch e Anarchicks

A guitarrista circula por diferentes universos musicais e não esconde o prazer de mudar de papel. “Penso que a única constante é mesmo a guitarra”, diz. Em João Borsch, sente-se mais livre: “Não tenho de me preocupar com mais nada sem ser tocar e divertir-me em palco.” Já com as Anarchicks, a responsabilidade cresce: “Tenho uma função de composição e arranjo maior.” A conclusão é simples e reveladora: “Cada caso é um caso, mas gosto muito de todas essas diferentes posições… especialmente por poder trabalhar com malta amiga e música que gosto.”

Reconhecimento e futuro: a nomeação nos Futura e “a música mais inóspita” de sempre

A nomeação para os Futura Awards teve impacto emocional, sem mudar o rumo: “Fez-me sentir que há pessoas que gostam do meu trabalho e ter sentido esse reconhecimento é ótimo!”

Para 2026, a artista aponta já para o que aí vem — e o que vem não é pouco. Inês Matos revela estar a gravar “a música mais inóspita que já escrevi”, depois de um desafio lançado por Fred Severo (luto/trash cat records): compor a banda sonora para o clássico de 1920 “The Cabinet of Dr. Caligari”. “Foi um processo de composição bastante diferente e desafiante e sairá brevemente”, adianta, prometendo ainda “mais umas coisas giras” ao longo do ano, com novidades a serem partilhadas no Instagram @inospita_.

No Montijo, a promessa é de intimidade e descoberta — uma guitarra a desenhar histórias que não precisam de letra para chegar ao fim. E, desta vez, com uma ponte especial para outro universo: O Gajo, no mesmo palco, para um encontro que a artista diz querer há muito. “Venham”, desafia. “Será único.”


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