Histórias da PIDE em livro que “faz da memória uma forma de luta”
"Gostaria que este livro ajudasse a desmistificar muitas das narrativas correntes sobre o Salazarismo e o Estado Novo. Já nos bastou um Salazar, quanto mais três", palavras do autor e jornalista, José Pedro Castanheira, na apresentação do livro "Histórias da PIDE (Vol.1) - Quando Salazar Mandava", lançado no Liceu Camões. Um livro que preserva a memória coletiva.

Foi lançado esta quinta-feira, no Liceu Camões, em Lisboa, o livro “Histórias da PIDE (Vol.1) – Quando Salazar Mandava”, da autoria do jornalista José Pedro Castanheira. A obra, editada pela Tinta da China, foi apresentada pela historiadora Irene Flunser Pimentel e pelo jornalista Jacinto Godinho, num evento que contou com grande adesão.
Trata-se do primeiro volume de uma investigação sobre a polícia política do Estado Novo, resultado de vários anos de pesquisa de Castanheira para o jornal Expresso. O livro reúne histórias reais sobre a PIDE, resgatando memórias e episódios que marcaram profundamente a vida política e social do país durante o regime de Salazar.
“José Pedro faz da memória uma forma de luta”, afirmou Ricardo Frias, diretor da Escola Secundária de Camões, sublinhando o papel do jornalista na preservação da memória coletiva.
Durante a apresentação, Jacinto Godinho recordou que “durante 48 anos o PCP foi o principal alvo da PIDE, mas a polícia do Estado servia também para vigiar o próprio regime”. Para o jornalista, o livro de Castanheira reúne “verdadeiras cachas (notícias exclusivas) do jornalismo”, revelando histórias inéditas e documentadas.
José Pedro Castanheira fez questão de agradecer a Francisco Pinto Balsemão, fundador do Expresso, onde trabalhou durante 30 anos, reconhecendo que “sem ele, muitas destas reportagens nunca teriam sido feitas e este livro não existiria”. Lembrou ainda que Balsemão “foi também alvo da vigilância do regime”.
Fundora e diretora da editora Tinta da China, Bárbara Bulhosa, destacou o valor do jornalismo de investigação e o seu papel essencial na construção da memória nacional:
“É de louvar o trabalho de jornalistas como José Pedro Castanheira e Jacinto Godinho”, em particular no jornalismo de investigação “pela nossa memória coletiva.”
A historiadora Irene Pimentel, que tem vasta obra sobre a PIDE e o Estado Novo, reforçou a importância da preservação dos arquivos:
“Os arquivos da PIDE são de um valor extraordinário” e apela a todos os que tenham arquivos que “entreguem uma cópia à Torre do Tombo”, pelo valor histórico que têm.
Castanheira completou:
“A PIDE é um poço sem fundo.”
O autor recordou ainda que a PIDE foi “o principal guardião da mais longa ditadura pessoal do século XX e um inimigo jurado da liberdade”. Durante as quatro décadas de existência, sob as designações de PVDE, PIDE e DGS, “fez dezenas de milhares de vítimas; só de presos políticos nominais foram 29.510, que dava para encher um estádio de futebol de média dimensão. Isto apenas em Portugal, já que nas colónias se ignora por completo o seu número, mas que é, seguramente, muito superior”.
O jornalista não deixou de comentar declarações recentes de André Ventura do CHEGA:
“Recentemente, um dirigente partidário lembrou-se de dizer que “o país precisa de três Salazares”, quem assim reclama ou não sabe o que diz ou é completamente ignorante ou age de má fé, ou é um demagogo ou exprime, finalmente, aquilo que verdadeiramente é e pensa. O mais provável, no entanto, é que seja uma mistura explosiva de todos estes ingredientes apostando em corroer os alicerces da própria democracia”, afirma José Pedro Castanheira.
Castanheira recordou a herança “bem conhecida” e “bem documentada” deixada por Salazar :
“Era o país mais pobre do Europa ocidental, atrasado e mesmo miserável. Um povo ignorante, inculto e analfabeto, cujo o unico escape era a migração para a europa, sobretudo França e Alemanha. Uma guerra criminosa e sem sentido em três colónias e sem fim à vista. Um país isolado e ostracizado pela comunidade internacional. Uma sociedade onde os mais elementares direitos humanos eram ignorados e espezinhados”.
E continua:
“Um Estado policial onde um só homem concentrava todos os poderes, e foi assim durante 36 anos consecutivos. Gostaria que este livro ajudasse a desmistificar muitas das narrativas correntes sobre o Salazarismo e o Estado Novo. Já nos bastou um Salazar, quanto mais três“.
Irene Pimentel sublinhou a proximidade entre jornalismo e história:
“Quão é parecido o trabalho de um jornalista que investiga o passado recente e o do historiador”.
Jacinto Godinho elogiou a clareza e o rigor do autor:
“Castanheira exprime todas as capacidades do jornalismo: investigar, narrar com rigor e escrever com clareza. Quando é bem feito, o jornalismo oferece à sociedade algo de único. Não rivaliza, mas complementa a história, a ciência, o teatro e o cinema”.
“Penetramos profudamente numa época da nossa história, o Estado Novo” e “é um livro que exemplifica e simboliza o modo jornalístico de contar, de experimentar, de criar memória”, acrescenta Jacinto Godinho.
A sessão contou ainda com projeções de fotografias e imagens de arquivo da época, e um momento musical em família: Os filhos Pedro Castanheira (piano) e Afonso Castanheira (contrabaixo), a nora Caroline (voz), a sobrinha Inês Castanheira (flauta), o próprio autor (clarinete) e o neto mais velho, de oito anos (trompete). A ex-diretora de informação da RTP, Flor Pedroso, participou com uma declamação. O grupo interpretou “Fado Peniche”, de Amália Rodrigues, e “A Morte Saiu à Rua” e “Os Vampiros”, de Zeca Afonso.
Na sinopse do livro
“Em 1965, o General Humberto Delgado, inimigo público número 1 de Salazar, foi assassinado perto de Badajoz por uma brigada da PIDE. A chefiá‑la estava Rosa Casaco, que, fugido do país a seguir ao 25 de Abril de 1974, viria a ser condenado a oito anos de prisão e a tornar‑se, após uma entrevista incluída neste livro, um dos rostos mais emblemáticos desta força policial”.
“Sólido e temido bastião do Estado Novo, ninguém escapava ao raio de ação da PIDE: nem Calouste Gulbenkian, o homem mais rico do mundo, que foi preso em 1942; nem o ex‑Presidente da República Marechal Craveiro Lopes, vítima de chantagem de carácter sexual; nem sequer o bispo D. Eurico Dias Nogueira, submetido a constante vigilância, com cartas interceptadas até para o Vaticano e para o próprio Salazar”.
Estas são algumas das Histórias da PIDE que José Pedro Castanheira investigou ao longo dos anos para o Expresso, agora compiladas no volume referente ao período de Salazar. O segundo volume será sobre a época de Marcello Caetano.
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