Há mais sem-abrigo em Portugal… e muitos deles trabalham
Preço das casas e da inflação estarão por detrás do fenómeno.
No decorrer do festival de fotografia Rencontres d’Arles, na França, o português Mário Cruz expôs o seu novo livro “Roof”. O The New York Times e a jornalista Tereixa Constela, do El País, já revelaram algumas das fotografias nos jornais. São dezenas de imagens a preto e branco que retratam a vida de muitos lisboetas, pessoas que vivem fora das estatísticas e sofrem com a crise da habitação na capital de Portugal.
As objectivas da câmara de Mário Cruz retrataram António Lemos, um aposentado de 79 anos que vive perto da Residência Oficial do Presidente da República. Num quarto em ruínas, António avista as árvores do Palácio de Belém, através de dois buracos na parede que funcionam como janelas.
Já Paula e Carlos construíram a sua casa num armazém de uma escola abandonada. O espaço já foi roubado várias vezes. Ambos os membros do casal trabalham, mas os salários não permitem que melhorem as suas condições.
António Lemos recebe uma pensão mensal de 525 euros. Recebe outros 175 por ter lutado na guerra do Ultramar. Esta ajuda não é mensal, é entregue uma única vez ao ano.
Associações de ajuda aos sem-abrigo acreditam que o número de pessoas que trabalharam e contribuíram, mas que vivem com muitas dificuldades, tem aumentado.
O retrato atual
No final de 2023, o preço da renda por metro quadrado era de 20,80 euros, acima de Madrid (17,90), por exemplo. Numa lista de 24 cidades europeias, Lisboa é a terceira mais cara. Sendo que o salário português é inferior a muitos dos países da União Europeia.
Luís Filipe, dirigente da associação Remar, observou que o perfil dos novos sem-abrigo tem-se modificado. “Damos uma volta pela Gare do Oriente, Saldanha, Martim Moniz ou outras ruas de Lisboa (…) e dificilmente encontramos toxicodependentes ou alcoólicos”, diz à lusa o dirigente da associação.
Por sua vez, Sandra Camara Pestana, apontou o dedo às medidas inflacionistas e à falta de habitação como as responsáveis pelo fenómeno. A responsável da associação Cais, que acompanha processos de reinserção, fornece lugares para residir e dá apoio na procura de emprego, diz que as “as pessoas trabalham para sobreviver” e “vivem num limbo”.
Os dados mais recentes, referentes a 2022, mostram que o Alentejo, a Área Metropolitana de Lisboa e o Algarve são as regiões que registam as proporções mais elevadas, respetivamente 2,13, 1,60 e 1,51 de pessoas em situação de sem-abrigo por mil residentes.
Segundo os dados desse mesmo ano, existiam cerca de 10.700 pessoas na condição de sem-abrigo em 2022. Crê-se, no entanto, que os números têm aumentado.
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