Opinião

Guerra na Ucrânia. “Os russos estão a caminho?”

As opiniões expressas neste artigo são pessoais e vinculam apenas e somente o seu autor.

A primeira vítima da guerra é a verdade. Se dúvidas houvesse sobre a validade deste lugar-comum, aquilo a que assistimos desde o dia 24 de fevereiro de 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, está aí para o demonstrar.

Se, numa fase inicial do conflito, ainda era possível escutar algumas vozes solenes e graves (insuspeitas de se assoarem à gravata por engano) – nomeadamente Henry Kissinger, que defendeu o caminho das negociações antes de se aprofundarem tensões entre a Rússia e a Europa que dificilmente seriam ultrapassadas; António Costa, que afirmou que a União Europeia (UE) queria evitar sanções e devia apostar no diálogo com Moscovo e na mediação de conversas bilaterais entre os Estados Unidos da América (EUA) e a Rússia; Emmanuel Macron, que assegurou que a paz não seria alcançada com a humilhação da Rússia; ou Angela Merkel, que, em simultâneo, declarou que a invasão da Ucrânia representava uma violação objetiva do direito internacional, mas que seria politicamente impossível a Europa não negociar com a Rússia –, rapidamente e em força se resvalou para o maniqueísmo.

E este, como escreve o coronel Carlos de Matos Gomes, em A Verdade Única e a Heresia de Pensar (2023), «é uma forma de pensar simplista em que o mundo é visto dividido em dois: o do Bem e o do Mal (…) limita ou mata a curiosidade e liquida a investigação porque tudo está descoberto, ou é assim ou assado! (…) é inimigo do diálogo: não se fala com o outro!». Nada melhor, acrescenta o major-general Carlos Branco na obra Do Fim da Guerra Fria a Trump e à Covid-19 (2020), «do que uma fórmula maniqueísta para galvanizar as opiniões públicas, levá-las a acreditar que estão no “lado certo” da história, sem questionarem as suas crenças, e predispô-las a aceitarem as aventuras mais afoitas das elites, sobretudo as mais agressivas e que envolvem o emprego da força militar».

Passámos a ter, de um lado, uma amálgama a que se convencionou chamar “Ocidente” (“os bons”) e, do outro, os russos e aqueles que adoptaram uma postura de algum distanciamento crítico, cepticismo ou relutância relativamente às explicações que nos eram oferecidas, aqui, na “ocidental praia lusitana”, acerca do conflito. Aqueles que privilegiavam a dúvida metódica e a humildade intelectual, que colocavam questões e pretendiam compreender melhor o que se estava a passar, que recusavam leituras apressadas ou simplistas, relações mecânicas de causa e efeito, o certo ou errado, o é ou não é. Aqueles que não aceitavam explicações simples para problemas complexos. Para esses, como é sabido, estaria reservado o epíteto de “putinistas”. Eram os “maus da fita”.

O reconhecimento de que vivemos num mundo complexo e contraditório, cheio de “zonas cinzentas”, o empenho na busca da verdade, o esforço da reflexão serena e da análise crítica seriam rapidamente proscritos. Tentar compreender era já tomar partido e qualquer tentativa de expressar uma ideia fora do “pensamento único”, expressão cunhada pelo jornalista Ignacio Ramonet, tinha de custear a franquia com uma afirmação do tipo “condeno a invasão não provocada e/ou injustificada da Ucrânia pela Rússia”. Quem o não fizesse, ou quem se atrevesse a utilizar a adversativa “mas”, era imediatamente difamado, descredibilizado, caricaturado, diabolizado, encurralado num terreno minado de armadilhas semânticas e jogos de palavras ou, pura e simplesmente, arrastado na lama.

Entrámos num tempo marcado pela falta de pluralismo, por uma intolerância crescente e pela ascensão fulgurante da cultura de cancelamento. A erosão acentuada da liberdade de expressão ou de opinião é evidente. Alguns exemplos ilustram bem até onde chegou o fervor persecutório e a cegueira russofóbica. A UE decidiu criminalizar a retransmissão do canal russo RT, por ser um instrumento de propaganda; a orquestra filarmónica de Cardiff cancelou um concerto de Tchaikovsky, porque se queria distanciar do regime de Putin; as patinadoras artísticas russas e bielorrussas seriam impedidas pela União Internacional de Patinagem de participar em quaisquer competições. Mais perto de nós, Vladimir Pliassov, professor russo da Universidade de Coimbra, seria sumariamente despedido por razões ideológicas; inúmeras associações locais de acolhimento de imigrantes de Leste seriam acusadas de estar “ao serviço do Kremlin”; e, pasme-se, até a cor da sinalética utilizada pelo município do Seixal seria utilizada como arma de arremesso contra esta autarquia que, não por acaso, é gerida pela CDU. Num tal clima de histeria e irracionalismo, não surpreende que Portugal tenha conseguido alcançar a proeza de, em 2023, ficar em 2.º lugar no ranking dos países com pior percepção da Rússia, sendo apenas ultrapassado pela Ucrânia.

Mas existiram sempre algumas vozes livres, independentes e corajosas que procuraram pensar pela sua cabeça, gerando grande incómodo junto dos poderes instalados. Ainda em 2022, por exemplo, o Papa Francisco, declarava: «… talvez o latido da NATO à porta da Rússia tenha induzido o líder da Rússia a desencadear o conflito. Uma ira que não sei se foi provocada, mas talvez tenha sido facilitada». Lula da Silva, por seu turno, dizia que «Putin não deveria ter invadido a Ucrânia. Mas não é só Putin que é culpado, são culpados os EUA e é culpada a UE». Será o Papa Francisco um putinista inveterado? Estará Lula da Silva, líder da maior potência do mundo lusófono, ao serviço do Kremlin ou debaixo da alçada do KGB? Não creio. Mas admito poder estar enganado.

Em Portugal, académicos como Bruno Teles Fazendeiro (que, em A Guerra Quente e a Paz Fria (2022) distinguia já entre a primeira fase do conflito armado, a qual havia provocado cerca de 14 mil mortes, e o período após a invasão de fevereiro de 2022, ajudando pelo menos a matizar a leitura segundo a qual a invasão não teria sido provocada), ou António Avelãs Nunes (que, no livro O Mundo Velho Está a Morrer. O Novo Ainda Não Nasceu. Este é o Tempo dos Monstros (2022) afirma que a «adesão da Ucrânia à NATO surge como Leitmotiv que conduziu à guerra»), ajudam-nos a compreender melhor a situação. Com efeito, já em 2014, o jornalista Carlos Santos Pereira escrevia na Revista de Ciências Militares que «em última instância é em torno da Ucrânia que se vai travar o confronto entre o Ocidente e uma Rússia ressurgente, sobretudo a partir do início da expansão da NATO a leste no final dos anos 90. Há muito que se sabia que a Ucrânia representava uma linha vermelha para Moscovo». Com as suas leituras minuciosas de uma realidade necessariamente complexa, dinâmica e cheia de contradições e paradoxos, todos eles parecem sugerir que o pior que podemos fazer é permanecer mentalmente reféns do reducionismo maniqueísta para onde nos empurraram.

A honestidade intelectual de uma escritora como Lídia Jorge, que, no final de 2023, reconheceu sentir-se envergonhada por ter criticado aqueles que defendiam a negociação e por ter defendido que Portugal desse 2% do seu PIB para reforçar a NATO, não está ao alcance de todos.

Quer tudo isto dizer que Putin é um “bom rapaz” e que o regime que comanda com mão de ferro é um paraíso celestial ou um farol da ética diplomática internacionalista? Claro que não. Seria tão tonto afirmá-lo como retirar do que até agora foi dito essa mesma conclusão. Trata-se de uma oligarquia corrupta, assente na pilhagem de gerações e gerações de trabalhadores, onde a democracia não passa de uma miragem longínqua. Mas será a Ucrânia de Zelensky assim tão diferente? E que dizer de uma Europa que optou pela subserviência relativamente a Washington, abdicando de desempenhar um papel geoestratégico minimamente relevante? Acaso a NATO, fundada antes da criação do Pacto de Varsóvia (1955) e que aceitou como seu membro fundador o Portugal fascista e colonialista de Salazar, passou a estar ao serviço da segurança e da paz ou por algum instante deixou de ser um instrumento para garantir o poder dos EUA sobre a Europa e separá-la da Rússia? Será que podemos continuar a observar a realidade geopolítica sem ter em conta que esta não cai do céu aos trambolhões nem surge por geração espontânea?

Se a primeira vítima da guerra é a verdade, a derradeira são invariavelmente os povos empurrados para o campo de batalha. Por isso, só uma solução diplomática negociada entre as diferentes forças em presença pode assegurar o caminho da paz. Pelo contrário, qualquer escalada militar ou prolongamento do belicismo prevalecente não passa de um suicídio colectivo, onde os únicos vencedores serão os senhores da guerra e da alta finança e a indústria do armamento. Precisamos de mais cooperação e empatia, menos animosidade e tensão.

A nós, que assistimos à distância com enorme preocupação, cabe-nos duvidar. Como escreveu Anne Morelli, em Princípios Elementares da Propaganda de Guerra (2023), «a dúvida sistemática [parece] ainda o melhor antídoto ao veneno da persuasão ao domicílio que diariamente destilam os meios de comunicação social, a propósito de guerras internacionais, conflitos ideológicos ou conflitos sociais», e eu não podia estar mais de acordo. Duvidemos, pois, e continuemos a dialogar e a procurar o caminho da paz. Sem maniqueísmo nem cancelamento, sem dogmas nem moralismos, e sem abandonar o espírito crítico que deve nortear a nossa análise.

André Carmo

Geógrafo e professor universitário

(Artigo elaborado a partir da intervenção de abertura do debate “Guerra na Ucrânia. Os russos estão a caminho?”, realizado no dia 15 de maio de 2024, na Cooperativa Cultural Popular Barreirense)


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