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‘Granja Belmonte’ vende carne de cão ‘ecológica e sustentável’. E até tem um restaurante

Apresentada como um negócio familiar de duas gerações, a «Granja Belmonte», em Montealegre del Castillo, município de Espanha na província de Albacete, propõe aos visitantes «a melhor carne para o homem». E que carne é esta? A de cão, «uma carne ecológica, criada de forma sustentável».

E os ‘criadores’ deixam bem claro que «a diferença de outras empresas é que os nossos cães nunca recebem antibióticos e passam pouco tempo encerrados. Têm acesso a pastos verdes, durante os meses de Verão, e só se alimentam com rações ecológicas sem soja.»

Além disso, a carne «é sempre fresca, nunca congelada, sacrificada com humanidade e com selo de bem-estar animal», e está disponível «com corte a pedido, quartos, metades ou inteiros. Há também hipótese de compra de ossos para caldos, embora de forma limitada.»

Além de comprar «a melhor carne para o homem», pode ainda visitar o restaurante gerido pelas chefs Kuka Roig e Paca Belmonte, onde tem à escolha um extenso menu com carne de cão, mas também com pratos inovadores à base de insectos.

Ainda nos acompanha?

Ao contrário do que pode ter sido a sua primeira (e a nossa) impressão ao ler sobre a ‘Granja Belmonte’, este é um projecto que pretende despertar consciências sobre o consumo de carne em todo o mundo, criado para chamar a atenção para «a hipocrisia ética e o especismo em relação a uns animais, considerados para consumo da espécie humana, e outros com os quais criamos laços afectivos».

Pedro Garutti, responsável pela página ‘Rancho dos Latidos’, a versão brasileira desta abordagem de ‘criação de carne canina’, que os responsáveis do projecto indicaram para nos responder, explicou ao Diário do Distrito o conceito por detrás das ‘quintas de carne canina’.

Menu no ‘restaurante” da Granja Belmonte

Trata-se de uma campanha ‘arriscada’, como surgiu a ideia de criar algo assim?

A ideia surgiu após conhecer o perfil de Instagram do Elwood Organic Dog Meat, nos EUA, que se apresenta como uma quinta de criação de carne canina.

Existe uma campanha parecida no Brasil que é a simples reflexão: «se você ama um, por que come o outro?», mostrando a imagem de um cachorro e um porco.

É uma questão que os vegetarianos e veganos têm levantado há muito e existe inclusive um livro de uma importante ativista, Melanie Joy, cujo título é: «Por que amamos cachorros, vestimos vacas e comemos porcos?».

Esta reflexão para denunciar o especismo é bastante recorrente, mas considero que com este projecto a elevámos à máxima potência, não apenas criando nas plataformas virtuais perfis para a tal ‘quinta de carne canina’, mas também indo para as ruas a oferecer carne de cachorro e leite de cadela para os transeuntes, com toda a identidade visual profissionalmente feita, e apresentando a mesma narrativa da indústria da carne.

A isto combinamos o discurso das pessoas que justificam o consumo de animais por uma pretensa forma ética, que preza o bem-estar do animal, vindo de produtores locais, de configuração familiar, orgânico, saudável, sustentável, que ‘matam humanitariamente’…

Então, em resumo, a ideia de criar algo assim é para expor o especismo vigente na sociedade, que protege e respeita animais como cachorros e gatos, mas despreza e massacra os outros animais, ditos de consumo. Ao mesmo tempo que expõe a hipocrisia, cinismo e, por vezes, ignorância, das pessoas em geral sobre a relação delas com os animais não-humanos.

– Quem é a equipa que está por detrás desta campanha?

A campanha iniciou-se com Molly Elwoold, com a criação do perfil Elwood Organic Dog Meat, e depressa tomou proporções internacionais, inspirando outros ativistas veganos a realizarem a mesma abordagem, adaptando para a cultura de seu país.

Actualmente existem pelo menos oito ‘quintas de carne canina’ espalhadas pelo mundo: EUA, Holanda, Canada, France, Noruega, Espanha, Alemanha e Brasil.

Estão ligadas através de um grupo de WhatsApp, no entanto, há mais noutros países, fazendo o mesmo tipo de ativismo, inspirado por essa abordagem, agindo por conta própria, sem o nosso auxílio e orientação.

Em cada local, as pessoas têm os seus participantes e a sua própria identidade de marca.

No caso do «Rancho dos Latidos», aqui no Brasil, eu, Pedro Garutti, criei o perfil com um amigo designer, Yan Thierry, que produziu os materiais gráficos, como logotipo e outros aspectos gráficos.

Depois fiz uma campanha de rua, de forma bastante inédita, porque nenhuma outra quinta canina tinha realizado qualquer manifestação pública dessa maneira.

Hoje actuo sozinho na organização e operação do «Rancho dos Latidos», contando com ativistas voluntários nas ações que proponho. Em dezembro de 2023, realizei a Tour do Rancho dos Latidos, passando por sete capitais importantes no Brasil, e em cada uma dessas realizando “degustação de carne canina” em locais públicos movimentados, junto de pessoas veganas que acompanham a página e aceitam participar, abordando as pessoas.

 Houve locais em que participaram apenas quatro pessoas e outros mais de vinte! Tudo é devidamente gravado e postado nas redes. Toda a Tour foi custeada a 100% por financiamento coletivo.

– Há quanto tempo iniciaram esta campanha?

Elwood começou em agosto de 2021, e as outras quintas surgiram depois. O «Rancho dos Latidos» começou em Fevereiro de 2023, mas foi apenas em Agosto que eu realmente assumi e passei a focar nessa campanha, realizando a primeira ação de rua, apenas com mais uma ativista.

Fomos denunciados para a vigilância sanitária, que foi até ao local e nos retirou. Tudo foi gravado e postado nas redes sociais.

Site ‘Rancho dos Latidos’

– Já é possível um balanço desta campanha?

Da minha parte, um balanço quantitativo ainda não é bem possível, somente uma estimativa utilizando o número de views, somado às pessoas a que chegamos nas ruas.

vídeos únicos com mais de 1 milhão de visualizações. A conta do Instagram impacta uma média de 100 mil contas por mês.

E nas ruas entregamos no mínimo 200 folhetos, o que significa que chegamos a pelo menos 200 pessoas, que leem a mensagem nos folhetos e onde explicamos o intuito da campanha, após o choque inicial do que apresentamos como sendo realmente carne canina.

Em termos qualitativos, além de já existirem relatos de pessoas que se tornaram vegetarianas e veganas a partir da campanha, há muitos apoiantes, tanto veganos quanto não-veganos, que passam a considerar o veganismo pela forma que essa campanha aborda a questão. Alcançámos também órgãos de comunicação social locais, como jornais e canais de TV, e o react de canais de YouTube relevantes, com centenas de milhares de seguidores.

– Ponderam alargar a campanha a outros países? Quais?

Como mencionado já existem oito ‘quintas caninas’ em países diferentes:  EUA, Holanda, Canada, France, Noruega, Espanha, Alemanha e Brasil. Há também noutros outros países, mas que não estão em contato connosco. Existem locais que querem iniciar também e damos todo o incentivo possível.

Portugal já sinalizou que gostaria de avançar com um projecto, inclusive com a identidade visual já pronta do «Rancho dos Latidos». Eu adoraria que assim fosse e daria toda ajuda possível para fazer acontecer. Somar esforços é sempre melhor que dispersar.

– Que tipo de reações têm obtido das pessoas?

Variadas. Pessoas que ficam agressivas, que sentem nojo, repulsa. Outras desatam a rir. Alguns poucos até comem achando que é cachorro mesmo… Mas a maioria reflete e entende.

Há quem deteste a ideia, acha que é de mau gosto e há ainda quem acredite que a campanha vai incentivar pessoas a comerem cachorro…

Enfim, há muitas reações possíveis, mas a maioria, é bastante positiva, porque não entendem a campanha como uma forma “impositiva” de trazer o assunto do veganismo.

É uma forma até bastante amistosa, porque as pessoas se sentem aliviadas assim que revelamos que não é verdade. Mas logo sentem um peso por perceberem que animais, que sentem tanto quanto cães e gatos, são sujeitos a um horror inimaginável.

A minha maior e constante recomendação para as pessoas com quem converso na rua é que assistam a documentários que expõem o que acontece com os animais nas indústrias de transformação de carne. 

– Já receberam ‘queixas’ ou mensagens menos positivas, por leitores que não compreenderam a ideia da campanha?

Sim, tanto de veganos quanto não-veganos. Alguns veganos acham que essa abordagem é perigosa, pois pode incentivar pessoas a comer carne de cão.

Bom, aqui no Brasil é crime comer animais como cães e gatos. Além de que a cultura é muito forte, as poucas pessoas que considerariam comer carne de cachorro, são logo julgadas pelas pessoas com quem convivem, porque a grande maioria acha um enorme absurdo.

E da parte dos não-veganos, alguns tentam argumentar que cães são diferentes dos outros animais, com argumentos bastante patéticos como: “eles são domésticos, as vacas não”; “eu crio cães em casa e não vacas”, enfim, coisas do género.

E alguns extremamente reativos, quando abordados e que acreditam que é algo verdadeiro, insultam e denunciam a página, pelo que o site «Rancho dos Latidos» já foi apagado por duas vezes.

Mas recuperámo-la, graças a um detalhe muito importante, notado pela Molly. Basta colocar na bio, identificando que se trata de uma “sátira” e com essa nos safamos de muitos problemas.

Depois de ler esta entrevista, colocamos-lhe a questão: vai voltar a olhar da mesma forma para a carne que tem no prato e reflectir sobre a diferença entre esta ser de porco ou vaca, ou de cão?


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comentário

  1. Espero sinceramente que alguém com coragem arda esse lugar quando os proprietários estiverem dentro do estabelecimento.