Gato Preto salva-se com corte gigante
Os credores aprovaram o plano de recuperação da Loja do Gato Preto, abrindo caminho a uma reestruturação profunda que inclui perdão de 80% da dívida, fecho de lojas e despedimento de trabalhadores. A decisão foi tomada a 2 de março no âmbito de um Processo Especial de Revitalização.

A cadeia de decoração Loja do Gato Preto conseguiu garantir uma nova oportunidade para continuar em atividade, após os credores aprovarem o plano de recuperação da empresa no âmbito de um Processo Especial de Revitalização (PER). A decisão, confirmada pelo administrador judicial provisório, permite avançar com uma reestruturação profunda da empresa, marcada por cortes significativos na operação e por uma mudança estratégica no modelo de negócio.
O plano prevê um perdão de cerca de 80% da dívida total, que ascende a 49,5 milhões de euros, bem como a anulação integral dos juros vencidos e vincendos. Na prática, bancos e fornecedores aceitam perdas relevantes para permitir a continuidade da marca no mercado.
A reorganização passa também por uma forte redução da rede de lojas físicas em Portugal. Atualmente com 15 espaços comerciais no país, a empresa passará a operar apenas cinco lojas, localizadas no Almada Fórum, Mar Shopping em Matosinhos, Freeport Alcochete, Ubbo Amadora e Palácio do Gelo em Viseu.
Em contrapartida, várias unidades encerraram ou vão encerrar portas. Entre os espaços afetados estão Amoreiras e Colombo, em Lisboa, Oeiras Parque, Norte Shopping em Matosinhos, Montijo, Arena Shopping em Torres Vedras, Arrábida Shopping em Vila Nova de Gaia, Alegro Sintra, Alegro Setúbal e Mondego Retail Park em Coimbra.
A presença internacional da marca também será reduzida. As cinco lojas existentes em Espanha serão encerradas, concentrando a atividade exclusivamente no mercado português.
O impacto social da reestruturação será inevitável. O plano prevê a dispensa dos trabalhadores das lojas que vão encerrar, embora não tenha sido divulgado o número exato de funcionários afetados. Além disso, entre oito e onze trabalhadores da sede e do armazém deverão igualmente sair da empresa. Atualmente, a Loja do Gato Preto conta com 153 trabalhadores.
Os custos associados ao encerramento das lojas estão estimados em 215 mil euros, enquanto as indemnizações aos trabalhadores despedidos deverão rondar os 900 mil euros.
Para suportar estes encargos, a empresa prevê a venda de um armazém localizado na Quinta de Lavi, em Sintra, avaliado em cerca de 1,2 milhões de euros, operação que deverá concretizar-se no prazo máximo de 12 meses.
O plano de reestruturação inclui ainda a reorganização do pagamento aos credores. Os créditos laborais, avaliados em cerca de 1,6 milhões de euros, serão pagos a trabalhadores e ex-trabalhadores em nove prestações mensais sem juros, com início a partir do quarto mês após a decisão final do tribunal.
Já os bancos recuperarão apenas 2,4 milhões de euros dos 12,2 milhões em dívida, enquanto os fornecedores deverão receber cerca de dois milhões dos 9,8 milhões reclamados. Estes montantes serão pagos em 60 prestações mensais, com início no décimo terceiro mês após a decisão judicial definitiva.
Entre os principais credores bancários encontram-se BBVA, Novobanco, BPI, Caixa Geral de Depósitos e BCP, instituições que aceitaram participar no esforço de recuperação da empresa.
Outro ponto central do plano passa pela redução do capital social da empresa, que deverá passar de 19,5 milhões de euros para 50 mil euros, medida destinada a absorver prejuízos acumulados.
A estratégia de recuperação aposta ainda numa transformação do modelo de negócio, com maior foco no comércio ‘online’. Para 2026 e 2027, a empresa estima alcançar volumes de vendas de 9,2 milhões e 10,5 milhões de euros, respetivamente, sendo que cerca de metade das receitas deverá resultar do canal digital.
A Loja do Gato Preto enfrentou uma forte deterioração financeira nos últimos anos. As vendas caíram de cerca de 40 milhões de euros para menos de 20 milhões em cinco anos, e a empresa terminou 2025 com prejuízos próximos dos 11 milhões de euros.
Entre os fatores que agravaram a situação financeira estão os efeitos da pandemia, o aumento dos custos logísticos internacionais e a crescente concorrência de produtos de baixo preço vendidos em plataformas digitais.
O plano recorda também dificuldades operacionais relevantes, como o encalhe do navio Ever Given no Canal do Suez em 2021, que provocou perturbações no transporte marítimo e aumentos significativos nos custos logísticos.
Outro problema que afetou a atividade foi a retenção de cerca de 17 contentores de mercadoria avaliados em 1,5 milhões de euros por três transitários, situação que comprometeu o abastecimento de produtos sazonais essenciais para a marca.
Antes de avançar com o PER, a consultora EY tentou encontrar investidores interessados na entrada no capital ou na aquisição da empresa, mas a ausência de propostas levou o grupo Aquinos a avançar com o processo de revitalização junto do Juízo de Comércio do Tribunal Judicial de Lisboa Oeste, em Sintra.
O tribunal deverá agora decidir sobre a homologação definitiva do plano no prazo de dez dias, etapa necessária para que todas as medidas previstas entrem plenamente em vigor.
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