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Francisco Jesus: “Foi um risco para a CDU escolher um miúdo de 27 anos como candidato”

1ª Parte | Natural de Lisboa, o atual presidente da Câmara de Sesimbra está a um ano de terminar o seu segundo mandato. Embora tenha nascido na capital, Francisco Jesusviveu a maior parte da sua vida no Zambujal, com fortes ligações familiares ao Meco e à Maçã.

Francisco Jesus, estudou na Universidade Moderna de Lisboa, em Belém. Com apenas 27 anos, foi convidado por Augusto Pólvora para se candidatar à Junta de Freguesia do Castelo, onde exerceu a função de presidente por 12 anos. Atualmente, Francisco Jesus é presidente da Câmara Municipal de Sesimbra há 7 anos, onde tem trabalhado para melhorar os serviços do concelho e aproximar-se da população.

Foi eleito para a Junta de Freguesia do Castelo em 2005, com apenas 27 anos…

Era um miúdo cheio de ideias, naquela lógica que a gente ia mudar o mundo. Claro que os anos vão passando e vamos ganhando algum calo.

O primeiro grande laço que tive ao PCP veio da minha família. Os meus avós, principalmente os meus avós paternos, foram militantes muito ativos do partido.

E a universidade também me veio trazer um grande impulso da minha vida política. Por volta `96, `97, tirei o curso de Psicopedagogia, numa universidade privada, muito ligada ao setor da direita conservadora.

Trabalhava de dia e estudava durante a noite, mas cheguei a fazer parte da Associação de Estudantes. Já tinha algum gosto pelas questões políticas e ideológicas, e a minha vertente estudantil ganhou ali uma nova intensidade.

Como é normal, acaba-se por criar ligações políticas com alguns colegas, sendo que vários deles estavam ligados às juventudes partidárias.

Acontece que, durante dois anos, tive aulas com a Felícia Costa (agora vice-presidente da Câmara de Sesimbra) e criámos ali um laço. Inscrevi-me como militante do PCP por volta do ano 2000.

Foi escolhido pela CDU para presidir a Junta de Freguesia do Castelo. Como foi o dia em que recebeu o convite?

Foi um enorme risco para a CDU escolher um miúdo de 27 anos para candidato à junta, ainda por cima numa freguesia onde a CDU tem a tradição de alcançar os melhores resultados.

Mas foi um processo normal. São ouvidos todos os militantes e encontra-se um denominador comum.

Tem uma ligação forte com Sesimbra?

Uma parte da minha família é do Meco, outra é da Maçã. Eu nasci em Lisboa, mas vivi quase toda a minha vida no Zambujal (bairro na freguesia do Castelo).

Ficou 12 anos na Junta de freguesia do Castelo. Agora é presidente da Câmara de Sesimbra há sete anos, qual foi a maior transformação que viu no concelho?

Era um miúdo cheio de garra que queria mudar o mundo, mas temos de ser pragmáticos… Os meios de uma junta de freguesia são completamente limitados.

No entanto, houve uma enorme transformação sobretudo ao nível do reconhecimento e aproximação da autarquia à população.

Verificámos, de uma forma muito pragmática, se algumas funções deviam estar na esfera da Junta ou da Câmara. Acabámos por aumentar as nossas responsabilidades. E conseguimos resolver um conjunto de problemas nas aldeias da Freguesia que, muito dispersas entre si, por vezes não chegavam serviços de limpeza. Aproximámo-nos muito dessas pessoas.

Por outro lado, dedicámo-nos muito às candidaturas a fundos comunitários. Fizemos três ou quatro candidaturas que visaram reabilitar a Junta de Freguesia. Criámos acessos, como o do Castelo da Rota do Sol, e espaços culturais, como o Espaço Zambujal, com atividades culturais e uma parte museológica, onde também funcionam equipamentos operacionais. A reabilitação de fontes e fontanários e das bancadas partiram todas de candidaturas submetidas pela Junta.

Já nos censos de 2021, os últimos censos, nota-se mais uma vez um crescimento, mas mais ligeiro, até porque também não há muito mais espaço para crescer.

Maria Manuel Gomes, em entrevista ao Diário do Distrito, destacou o impacto do crescimento demográfico no concelho, nomeadamente no pós-pandemia, como a mudança mais significativa no concelho de Sesimbra, está de acordo?

De facto tivemos um período de duas décadas, 1991 a 2011, onde ocorreu um crescimento exponencial do número de pessoas no concelho, particularmente acentuado na Quinta do Conde, que foi a freguesia do país que mais cresceu nesse período.

Já nos censos de 2021, os últimos censos, nota-se mais uma vez um crescimento, mas mais ligeiro, até porque também não há muito mais espaço para crescer.

Em sentido inverso, a freguesia de Santiago teve um decréscimo do número de habitantes e, consequentemente, também do número de eleitores, muito devido à especulação imobiliária.

Nota-se também, como disse a Maria Manuel, que aumentou o número de pessoas a procurar moradias mais isoladas, com campo…muito atraídas pelo conceito de teletrabalho.

Mas, de facto, o crescimento abrupto da Quinta do Conde tem sido um dos desafios que enfrentamos, às vezes não com a velocidade que gostaríamos. Gostávamos de já ter feito coisas que nos comprometemos a fazer e que estão atrasadas por vários motivos.

A Quinta do Conde tem falta de equipamentos de utilização coletiva. As pessoas não têm um auditório, nem uma biblioteca, ou um centro de saúde que dá resposta a toda a população.

Numa entrevista recente, Nuno Mantas (a ser publicada), diretor da Escola Básica da Boa Água, referiu a necessidade de uma nova escola secundária na Quinta do Conde. Qual o ponto de situação desse projeto?

A principal aposta da Câmara ao longo dos últimos 15 ou 20 anos tem sido resolver os problemas das escolas sob sua responsabilidade (básico e pré-escolar). Hoje, a Quinta do Conde dispõe de uma rede de escolas do 1º ao 9º ciclo que, por enquanto, é suficiente. No entanto, poderá ser necessário construir mais uma escola no futuro.

Agora, há um problema evidente: a Quinta do Conde tem apenas uma escola que oferece ensino secundário. É uma clara falta de resposta para as necessidades da Quinta do Conde, e uma questão que já existe há 15 anos e tem sido negligenciada por sucessivos governos.

Estamos a avançar com um projeto para uma escola secundária na Quinta do Conde. Ontem, enviámos uma carta ao Ministro da Educação para obtermos confirmação, já que, com a mudança de ministros e secretários de Estado, o processo muitas vezes recomeça do zero.

Esta escola vai contar com mais de 60 salas, além de um pavilhão desportivo, o que mostra a grande dimensão da obra. Só o desenho do projeto em si não vai demorar menos de um ano. E precisamos da confirmação do Ministério da Educação para garantir que o projeto está adequado. Se não tivermos essa resposta, corremos o risco de, no futuro, nos dizerem que a escola precisa de ser maior ou menor, o que comprometeria todo o planeamento.

Vamos fazer uma grande transformação na Quinta do Conde em termos de equipamentos culturais. Antes não existia quase nenhum, e agora teremos quatro novos espaços. Estamos a concluir o projeto de renovação do Anfiteatro da Boa Água, com financiamento partilhado e do Spot das Artes, no Parque da Vila, que hoje se tornou num centro da Quinta do Conde. Contamos também com um novo Auditório, já em construção, com a Biblioteca Municipal e com a nova Unidade de Saúde.

A Biblioteca aguarda aprovação do Ministro do Tribunal de Contas. O projeto foi adjudicado por 1,7 milhões de euros e será instalado no espaço de uma antiga escola primária, próximo do Auditório (antigo CIPA). É certo que a obra avançará ainda este ano.

Já a Unidade de Saúde, que ocupará o antigo centro de saúde da Quinta do Conde, também aguarda o aviso do Tribunal de Contas. No entanto, devido ao processo de concurso, que leva mais tempo, a construção deverá ser concluída em janeiro ou fevereiro de 2026.

Francisco Jesus
“Não tenho dúvidas de que a Quinta do Conde precisa de um sentimento maior de coesão territorial.”

Terminámos a cobertura da rede de saneamento na Freguesia do Castelo, que neste momento atinge os 98%.

O que falta na freguesia do Castelo?

O mais importante foi acabar a infraestruturação. Terminámos a cobertura da rede de saneamento na freguesia, que neste momento atinge os 98%. Os 2% que falta são situações de locais muito dispersos, em que o investimento é tão grande que é necessário fundos comunitários.

Depois investimos num conjunto de reabilitações, em infraestruturas e na rede viária.

Está em curso uma grande operação de repavimentação. Alguns concursos já foram lançados, enquanto outros estão em andamento por administração direta, totalizando cerca de 5 milhões de euros em investimentos previstos para 2024 e 2025

Queremos aproveitar ao máximo os fundos comunitários disponíveis. Reabilitámos a Capela de São Sebastião, fizemos o novo centro de recolha, o novo Spot Jovem, a reabilitação do Castelo, a reabilitação da Casa de Água, assim como a reabilitação do aqueduto.

O objetivo principal é criar melhores condições para a mobilidade, algo que não existia anteriormente na Freguesia.

O presidente da Junta de Freguesia da Quinta do Conde, Carlos Pólvora, desabafou que sente que a Quinta do Conde está quase no fim do mundo. Um sentimento partilhado por alguns habitantes. O que justifica este sentimento?

Não tenho dúvidas de que a Quinta do Conde precisa de um sentimento maior de coesão territorial. Atualmente, a maioria das pessoas tem de se deslocar para outras áreas, como Sesimbra, para ir ao cinema, a espetáculos ou para praticar desporto.

Sesimbra continua a concentrar os principais serviços, como finanças e registos, apesar de a Câmara ter centralizado alguns serviços na Quinta do Conde.

A relação em termos de transportes públicos e mobilidade entre a Quinta do Conde e Sesimbra ainda não é a ideal, apesar das melhorias.

Ainda sentimos que falta mais informação sobre as expectativas da população, algo que já foi apontado em estudos anteriores. Mas sabemos que é essencial investir em infraestruturas e equipamentos coletivos, para que as pessoas se sintam ligadas ao território e o adotem como seu. Esse trabalho vai além da construção física, que vamos fazer, mas é também sobre criar um sentimento de pertença na comunidade…


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