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Falta de professores: Governo culpa docentes, FENPROF denuncia precariedade

Após as declarações do ministro da Educação, Fernando Alexandre, sobre 10 mil professores sem dar aulas no Norte porque se recusam a ir para Lisboa, a FENPROF denunciou os baixos salários, rendas demasiado altas e combustíveis muito caros e uma profissão a ser cada vez mais abandonada.

As declarações recentes do ministro da Educação, Fernando Alexandre, voltaram a colocar em destaque a crise da falta de professores em Portugal. O ministro afirmou que existem cerca de 10 mil professores disponíveis no Norte do país que não estão a dar aulas porque não estão disponíveis para se deslocarem para Lisboa.

Para Fernando Alexandre isto explica a escassez de docentes em zonas como Lisboa e Algarve: “Já sabemos que se os formarmos no Norte eles vão resistir a ir para o Sul”.

A declaração foi contestada pela Federação Nacional dos Professores (FENPROF), que considera que esta interpretação trata a falta de professores como “apenas um detalhe”.

“Onde estão esses 10 mil professores? Refere-se aos cerca de 20 mil profissionais que, na última década e meia, abandonaram a carreira docente em Portugal? A narrativa oficial ignora este “pequeno pormenor” e resume a crise a uma questão de vontade, como se a escassez de professores fosse apenas um detalhe”, sublinha a FENPROF.

Para a FENPROF a questão não pode ser caracterizada como “falta de vontade” dos professores. Explica que o custo de vida é uma das principais razões que levam os professores a não se delocarem ou abandonar a profissão. Dá como exemplo o valor das rendas dos quartos que são superiores a 500 euros em várias regiões do país e que “tornam inviável, para muitos, suportar deslocações longas ou manter estabilidade financeira”.

Além disso, afirma que “vínculos familiares — filhos, cônjuges, responsabilidades — são tratados como obstáculos menores, perante a necessidade de preencher horários na capital ou em vastas regiões a sul do Tejo, mas também já no Norte, com o distrito do Porto a ocupar lugar de destaque entre as regiões com maior carência de docentes”.

A organização sindical reforça que “esperar que os professores se mudem, de boa vontade, sem lhes serem garantidas condições mínimas de vida para o seu desempenho profissional, é ignorar, por completo, a complexidade da situação”.

Também os subsídios são referidos como sendo demasiado baixos para refletir o “aumento das rendas” ou dos combustíveis, tornando-se meros “gestos simbólicos” que são “incapazes de motivar mudanças significativas”.

Segundo a FENPROF, estima-se que entre 28% e 35% dos estudantes de cursos de formação para a docência desistam antes da conclusão. Entre os que terminam, uma parte significativa evita entrar na carreira “marcada pela precariedade, baixos salários e escassas perspetivas de progressão”.

Questões raramente abordadas na narrativa do Governo “preferindo reduzir o problema à suposta falta de “boa vontade” dos professores”, critica a FENPROF.

“Reduzir o debate a uma questão de disponibilidade é mostrar, de forma clara, o desfasamento do ministro face à realidade da profissão”, afirma.

No centro do debate permanece a questão da valorização da carreira docente. Para a FENPROF “a questão é simples: se o ministro e o governo se preocupassem realmente em valorizar a carreira docente salários justos, estabilidade, incentivos adequados e condições de trabalho dignas —, muitos dos problemas de escassez de professores se resolveriam naturalmente e prevenindo crises futuras“.

O desafio, defende a FENPROF, passa por reconstruir a atratividade da profissão e garantir condições que permitam sustentar uma carreira docente estável e duradoura. No centro do debate fica uma questão: que condições existem para que os professores escolham ficar na profissão?


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