Opinião

Estamos exaustos

As opiniões expressas neste artigo são pessoais e vinculam apenas e somente o seu autor.

Costumo ouvir que “os jovens não querem saber” ou “os jovens não se interessam por política”. Mas quero, enquanto jovem deste distrito, contribuir para este debate de forma diferente. A crise da participação dos jovens não é uma crise de interesse ou de vontade. É uma crise de tempo e energia. Estamos exaustos.

No distrito de Setúbal, esta exaustão tem causas muito concretas que todos vivemos diariamente. Não podemos falar de participação cívica sem falar do tempo que perdemos para viver. Como é que podemos pedir a um jovem de Sesimbra que mora na Quinta do Conde para participar numa Assembleia Municipal à noite, quando demora uma hora e meia para voltar a casa de transportes públicos? Como é que um estudante do Barreiro ou da Moita consegue propor soluções para o seu concelho quando é obrigado a passar mais de três horas por dia, entre comboios e autocarros para estudar em Lisboa? 

No nosso distrito, muitos jovens trabalham em setores sazonais, como o turismo, muitas das vezes com vínculos laborais precários. Quando um salário não chega para pagar um quarto em Setúbal ou em Almada (obrigado, especulação imobiliária), a política torna-se um luxo. A energia mental que gastamos a tentar sobreviver financeiramente é a energia que não temos para nos indignarmos, organizarmos e propormos soluções. Como se pode pedir a um jovem para planear o futuro e contribuir para a sua construção quando não sabemos se temos emprego daqui a três meses? 

A política tradicional ignora as nossas angústias. Pede-nos para confiar nas instituições enquanto crescemos a ver o nosso património natural, seja o Meco ou o Sado, a serem ameaçados pela inação e pela pressão urbanística. Viver num território sufocado pelo ruído, pela poluição e pela falta de espaços verdes é também viver com mais stress, mais isolamento e mais cansaço.

Por isso, precisamos parar de culpar os jovens pela sua apatia e falar de participação. A apatia é a de um sistema político que vê esta exaustão e nada faz. A participação política não se exige, constrói-se. E começa quando temos transportes públicos gratuitos e frequentes, quando temos habitação pública acessível, quando combatemos a precariedade e garantimos um salário que permite viver, não sobreviver.

Não estamos apáticos. Estamos revoltados, estamos preocupados e, sim, estamos  exaustos. Mas também estamos disponíveis. Aos decisores políticos do distrito de Setúbal, principalmente aos recentes eleitos locais, deixo um repto: em vez de nos pedirem para participar mais, criem as condições para que o consigamos fazer. E  chamem-nos também na hora de tomar decisões. O interesse jovem pela política despertará no exato momento em que a política se interessar genuinamente por nós. Até lá, continuaremos a levantar as nossas vozes para que a política nos oiça.


Se tiver sugestões ou notícias para partilhar com o Diário do Distrito, pode enviá-las para o endereço de email geral@diariodistrito.pt


Sabia que o Diário do Distrito também já está no Telegram? Subscreva o canal.
Já viu os nossos novos vídeos/reportagens em parceria com a CNN no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!
Siga-nos na nossa página no Facebook! Veja os diretos que realizamos no seu distrito

fertagus

palmela