Entrevista | Luís Miguel Franco quer pôr fim a 28 anos de PS no Montijo
Candidato da CDU à Câmara do Montijo, Luís Miguel Franco promete reabilitar a frente ribeirinha, investir nos serviços públicos e combater a exploração laboral. Com três mandatos em Alcochete, garante: “Vou abraçar este desafio com todas as forças”.

No seu escritório em pleno centro histórico, entrevistámos o candidato da CDU à Câmara Municipal do Montijo para as eleições autárquicas de 2025. Luís Miguel Franco é advogado, militante do Partido Comunista Português e concorre integrado nas listas da CDU.
Depois de 12 anos de experiência à frente da câmara municipal de Alcochete, o candidato escolhido pela CDU no Montijo diz que vai abraçar este desafio “com todas as suas forças” e contribuir com a sua experiência para reverter “os erros de governação do PS”.
Luís Miguel Franco aceitou falar com o Diário do Distrito sobre o seu regresso à política autárquica, sobre a situação político-partidária atípica no concelho e sobre as propostas da CDU para “transformar o Montijo num sítio diferenciado na Área Metropolitana de Lisboa”. Segundo o candidato, tudo isto, se os montijenses lhe “concederem essa honra”.
Boa dia Luís, obrigado por ter concedido esta entrevista. Quero começar por perguntar qual foi o seu primeiro contacto com a política…
O meu pai era militante do PCP e o meu avô paterno tinha sido preso pela PIDE porque se tinha envolvido nas greves dos salineiros de Alcochete e portanto houve sempre proximidade com a política. Lembro-me que no dia 25 de abril o meu pai ia cedo meter músicas de resistência, do Zeca Afonso, do Adriano Correia de Oliveira, homens que através da cultura resistiram ao regime ditatorial que durou durante 48 anos.
Quando toma a decisão de se tornar militante do Partido Comunista Português?
Eu já tinha votado em coligações como a Aliança Povo Unido (APU) ou na Coligação Democrática Unitária (CDU) enquanto coligações constituídas pelo PCP e por outros partidos, nomeadamente o Partido Ecologista “Os Verdes”, mas a filiação dá-se durante o meu primeiro mandato, entre 2002 e 2005.
Atualmente trabalha no Montijo mas esteve 12 anos à frente da Câmara Municipal de Alcochete. Se tivesse de escolher alguma intervenção, legislação, obra que tenha deixado nesses três mandatos, qual destacava?
Houve muitas, apesar de terem sido três mandatos muito marcados pela necessidade de enfrentar a crise económica e financeira que se abateu sobre todos nós. Mas foram muitas as realizações na melhoria da qualidade de vida das populações e também a criação de fatores de atratividade do concelho que passou a ter um grande potencial económico e de desenvolvimento.
Os mandatos de maioria da CDU em Alcochete durante esses anos permitiram que se transformasse num sítio diferenciado. Se me for concedida a honra de ser eleito, vou exercer o cargo com a mesma honra e paixão com que exerci em Alcochete, é um desafio que quero abraçar. Mas se tivesse de escolher uma obra diria a requalificação da frente ribeirinha.
Anunciou candidatar-se à Câmara Municipal do Montijo num contexto político atípico – divisões internas no PS e no PSD que resultaram numa lista de independentes que apanha ex-partidários que vão do Bloco de Esquerda ao partido CHEGA.
Qual é a motivação da sua candidatura pela CDU durante esta mudança de paradigma político?
Regressei ao exercício da minha profissão aqui no Montijo e comecei o doutoramento em Direito Público e portanto decidi que a política sofreria uma interrupção. Se a proposta que me foi feita não me tivesse entusiasmado, sobretudo por saber que posso contribuir com a minha experiência para o melhor aproveitamento das potencialidades do Montijo não a teria aceitado. Vou abraçar este desafio com todas as minhas forças.
Relativamente ao contexto político-partidário no Montijo, o que referiu é um elemento de fragmentação de todo o eleitorado do Partido Socialista e esse movimento independente que terá o apoio, para já, de alguns elementos de outros partidos.
Pessoalmente estou mais preocupado com a construção de um compromisso eleitoral credível e que mobilize os cidadãos, que permita receber o apoio da população para colocar o Montijo em destaque na Área Metropolitana de Lisboa. Para que depois de quase 30 anos de exercício do poder por parte do Partido Socialista haja uma transformação no concelho do Montijo que permita trazer mais qualidade de vida aos montijenses e para quem vem cá viver.
Que avaliação faz destes últimos anos de governação do Partido Socialista no Montijo?
Foi muito tempo para não se ter aproveitado as potencialidades da frente ribeirinha do Montijo que está ao abandono e desaproveitada. Pode ser uma mais valia para a qualidade de vida dos cidadãos e um incentivo de desenvolvimento económico, de turismo e de lazer. Queremos reabilitar esta zona para que os Montijenses tenham muito orgulho na sua frente ribeirinha.
Outro aspecto que tem de ser indicado como um conjunto de péssimas decisões de gestão, tem a ver com a política urbanística que foi implementada no Montijo. Temos um centro histórico com muitas potencialidades mas que está a ficar cada vez mais desertificado e é preciso implementar medidas não só para a reabilitação dos edifícios mas de regeneração urbana, trazer vida ao centro do Montijo. Eu ainda me recordo do centro do Montijo antes da saída dos barcos do Cais dos Vapores, era um centro histórico que fervilhava de vida.
Mas também existe uma outra cidade, onde nasceu a nova cidade do Montijo e que infelizmente não está dotada de serviços públicos suficientes. Muitas vezes as pessoas que ali vivem têm de fazer deslocações a outros concelhos para chegar aos serviços. Estamos perante erros de governação que traduzem falta de visão e de estratégia em relação ao que se pretende do Montijo enquanto paradigma de desenvolvimento.
Em janeiro de 2025 saiu a notícia que 70% dos utentes no Montijo não têm acesso a um médico de família. Dias depois, uma outra notícia anuncia um investimento de 6 milhões de euros das clínicas Affidea no Alegro Montijo. Como é que pretende resolver os problemas de acesso à saúde no concelho?
O problema da saúde é transversal a todo o país. O que eu defendo para o Montijo e tenho vindo a defender há muito tempo é que o número de pessoas residentes nestes concelhos vai ter tendência para aumentar e há que reivindicar a construção de um hospital público que possa atender a estas populações.
Há um desinvestimento na saúde pública e que tem o seu correlativo que neste caso é o investimento dos privados no negócio da saúde que é altamente lucrativo. Nós pagamos tantos impostos, se o Estado não consegue assegurar as suas funções essenciais, então estamos perante um modelo de Estado falido.
Quando anunciou a sua candidatura falámos sobre educação e a entrada dos jovens no mercado de trabalho. Qual é a perspectiva da CDU relativamente à educação aqui no Montijo?
Primeiro o que é mais urgente é a elaboração de uma carta educativa local que, aparentemente, não existe e portanto não existe um documento fundamental de planeamento para a educação no concelho. Sei que há prioridades que já estão identificadas, sobretudo ao nível da construção de novos equipamentos escolares.
Os jovens têm de estar preparados para um mercado exigente e precisam de mais opções: se não querem entrar no ensino superior, encaminhamos para o politécnico, se optam logo pelo mercado de trabalho é importante dar-lhes ferramentas. É um mercado de trabalho cada vez mais exigente mas cada vez com mais precariedade, que afeta todos os trabalhadores, mas sobretudo os mais jovens.
Falava dos barcos que antigamente saíam do Cais dos Vapores e como isso dava mais vida ao Montijo. O Cais do Seixalinho fica a 10/15 minutos de autocarro do centro, como é que se resolve este problema de mobilidade no concelho?
A CDU há muito tempo considera que quando for maioria deve elaborar um estudo que permita admitir ou excluir a possibilidade de trazer de volta os barcos, o transporte fluvial, ao Cais dos Vapores. Não desconhecendo as dificuldades que existem, seja as dificuldades físicas, seja as dificuldades ao nível das vontades políticas, sobretudo extra município. É um compromisso político há muito tempo assumido pela CDU mas sem esse estudo não é possível tomar uma decisão.
Disse que o centro histórico está a ficar cada vez mais abandonado, com muitas habitações devolutas. Por outro lado, as rendas e os preços das casas estão a aumentar…
O mercado imobiliário, seja na compra e venda, seja no arrendamento, está a praticar preços absolutamente irrazoáveis. Esses preços dificultam o acesso à habitação para aqueles que têm menos capacidade financeira, mas repare, estou a falar das pessoas que se situam nos rendimentos médios e que já têm muita dificuldade em arranjar uma habitação digna.
A informação que eu tenho é que os fundos do PRR estão a ser mal aproveitados sobretudo na habitação, é um desleixo da maioria do Partido Socialista que nem um regulamento municipal para a habitação tem. O objetivo da CDU é claro: aproveitar todas as candidaturas comunitárias para construir habitação pública.
Para finalizar… existe um problema que está bem presente nos dois concelhos que o Luís conhece melhor: a questão do trabalho imigrante ilegal e das redes de tráfico de seres humanos em Alcochete e no Montijo.
A minha pergunta é se o PCP e os eleitos da CDU têm acompanhado esta situação e que medidas considera que podem ser tomadas para a resolver?
O problema que se vive atualmente eu já o experienciei como presidente da câmara municipal de Alcochete durante muitos anos. Temos aqui uma situação altamente complexa e com exploração de pessoas, especialmente na apanha da amêijoa que traz muitos imigrantes ilegais para os concelhos do Montijo e de Alcochete.
Estamos perante um cocktail de criminalidade de muito difícil resolução: tráfico de seres humanos, tráfico de droga, evasão fiscal e atentados à saúde pública por falta de tratamento, por exemplo, da ameijoa que é recolhida do rio. O que se tem verificado é uma total incapacidade das entidades em resolver este problema que não é exclusivo à intervenção dos municípios.
Enquanto CDU nós sempre defendemos que existe uma apetência que tem o rio como centralidade e que é necessário perspetivar como uma atividade económica regularizada, ou seja, que se construa a legislação necessária para enquadrar esta atividade, sobretudo no sentido de serem celebrados contratos de trabalho que erradique por completo o recurso à exploração que atualmente se verifica. Tenho essa experiência porque me foi transmitido que, muitas vezes quando um barco sai de Lisboa para fiscalizar, quem explora a apanha da amêijoa já está previamente avisado.
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