Entrevista Carlos Branco: “Sei que a Rádio Azul foi a única que transmitiu em direto [o funeral de José Afonso]”
No Congresso Internacional José Afonso, realizado nos passados dias 26 e 27 de outubro, esteve presente Carlos Branco, ex-jornalista da Rádio Azul e dirigente associativo, que fez a cobertura para a rádio do funeral do cantautor, a 24 de fevereiro de 1987, e nos contou os pormenores da emissão.
Nesta pequena entrevista, feita em exclusivo para o Diário do Distrito, no âmbito do Congresso Internacional José Afonso, Carlos Branco, ex-jornalista da Rádio Azul e dirigente associativo, falou-nos do facto da rádio ter sido a única a fazer a cobertura (direta e integral) do funeral do cantautor.
Carlos Branco, juntamente com Mário Ribeiro, e Ana Batista, acompanhou as longas horas desde a saída da Escola Industrial e Comercial de Setúbal (atual Escola Secundária Sebastião da Gama) até ao Cemitério de Nossa Senhora da Piedade, onde foi sepultado, e recorda-nos o evento marcante, assim como as dificuldades técnicas do acompanhamento.
Como foi feita a cobertura dos acontecimentos?
Quem ia transportar a urna eram cantores de esquerda, como o Luís Cília, o Sérgio Godinho, o Francisco Fanhais, entre outros. Estar a fazer um relato – eu era do desporto, fazia transmissões desportivas – essa transmissão marcou-nos muito, porque tivemos que fazer alterações na capacidade que tínhamos de transmissão. Não havia transmissores como há hoje com facilidades. Não havia telemóveis, não havia aparelhagem que nos conseguisse transmitir a longa distância, porque nós tínhamos que transmitir a pé para um emissor que estava numa viatura estacionada. Depois, essa viatura é que transmitia para Palmela, para o emissor regional poder difundir através das frequências de rádio.
Depois, o retorno do estúdio era feito através de um transmissor a pilhas, que tínhamos colado ao ouvido e, com algo ruído, íamos ouvindo, o que nos ligava ao estúdio. Foi a primeira vez que isso aconteceu, durante tanto tempo, porque já tínhamos experimentado algumas intervenções de pequeno porte, mas essa foi uma transmissão grandiosa. Era um interesse superior, era muita gente envolvida, éramos muitos operadores a tentar fazer o mesmo, e foi realmente marcante para a época, porque nos obrigou a desenvolver melhores condições de trabalho, e a fazer também um bom trabalho aqui através da Rádio Azul, para os nossos ouvintes, o nosso público, que era regional.
Foi um evento que ficou na memória de muita gente, e isso tem de ser retratado, porque a própria força do Zeca, mesmo depois de desaparecer do mundo dos vivos, é motivador para que haja progresso, e isso é muito importante. Ainda hoje ele é marcante.
Existem algumas gravações nos arquivos da Rádio Azul da transmissão do funeral?
Não sei se estão preservados alguns desses registos magnéticos, porque já não estou lá e não sei se isso realmente é possível acontecer ou não.
Na sua intervenção, falou que os meios transmissores foram dados pelos pescadores…
Não, foram emprestados porque era uma transmissão VHF, que era a usada entre os barcos e o terreno, portanto, entre os armadores de pesca e os seus escritórios.
Era uma transmissão que era feita de forma, hoje, artesanal, porque nós hoje pegamos no telefone e fazemos ligações para qualquer parte do mundo, através do WhatsApp, através dessas comunicações que são possíveis e que na altura não era. Nós falávamos por um retransmissor que era alimentado por uma bateria, ou do barco ou de um automóvel, e era com o microfone que carregávamos para poder falar e depois quando tirávamos o dedo parava de falar. Eram coisas mesmo impensáveis no dia de hoje usar.
A rádio não tinha esses meios e, então, o técnico da rádio solicitou empréstimos e conseguiu montar essa aparelhagem toda que era necessária, porque ele conjugou esforços de todo lado para conseguir essa transmissão. Transmitia-se para o rádio, para o carro, depois, para o carro, é que havia uma transmissão para Palmela, isto tudo por via VHF. Não podia ser por cabo esticado daqui até Palmela. Havia uma possibilidade de fazer com uma linha telefónica, como fazíamos os relatos de futebol através de uma linha telefónica entre o estádio e o estúdio, mas aqui, como era um percurso que tinha que ser percorrido em andamento, e depois era entre o local móvel e o retransmissor, não havia uma linha de telefone própria para isso.
Quando era no estádio, os CTT tinham que ir lá ligar aquela linha propositada para a transmissão. Aqui, não havia essa possibilidade e tivemos que inventar uma nova tecnologia para poder fazer isso. Mas isso depois obrigou-nos até a evoluir, porque a partir dessa descoberta começámos a montar mais situações para poder fazer isso também.
Apesar do impacto do funeral do Zeca Afonso ter sido imensurável, sabe mais ou menos qual é que foi o impacto da transmissão da Rádio Azul?
Sei que éramos os únicos a transmitir e que estava tudo a ouvir-nos, mas não sei quantificar quanto foi. Sei que a Rádio Azul foi a única que transmitiu em direto. As próprias televisões vieram fazer filmagens e depois, faziam apontamentos. Mas em direto, desde a Escola Comercial até ao cemitério, foi a Rádio Azul que esteve, porque os outros órgãos faziam apontamentos.
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