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Do Samouco para a TV: a “cozinha honesta” de Marlene Cruz levou a Margem Sul ao MasterChef

Em entrevista ao Diário do Distrito, a ex-concorrente do MasterChef diz que quer levar para o público a força das suas raízes no Distrito de Setúbal

No Samouco, freguesia do concelho de Alcochete, a vida corre com um ritmo que não se mede em cliques nem em projeções televisivas. Mede-se no tempo do refogado, no peixe escolhido sem pressa, na conversa com quem vende e com quem produz. É a partir desse lugar – Samouco, Alcochete – que Marlene Cruz constrói a sua identidade culinária e pública: sem artifícios, com raízes fortes e uma ideia simples de cozinha como pertença.

Em entrevista ao Diário do Distrito, Marlene resume a marca do Samouco na sua forma de estar e de cozinhar com uma clareza rara: “O Samouco ensinou-me o valor da proximidade, do tempo e da verdade. Aqui tudo é mais humano, mais direto, e isso reflete-se na minha cozinha: comida honesta, com sabor, sem artifícios desnecessários.”

A televisão trouxe-lhe visibilidade, mas não a desviou do essencial. Pelo contrário: reforçou-lhe o mapa interior. E esse mapa tem coordenadas muito concretas: Samouco, Alcochete, Margem Sul – e, do outro lado do oceano, Angola, com as suas cozinhas “cheias”, as panelas grandes e os cheiros que ficam na memória.

“Quero que entendam que sou uma pessoa de raízes fortes”

Marlene fala do território como quem fala de família. O Samouco não é apenas o sítio onde vive: é o sítio onde se reconhece. “Quero que entendam que sou uma pessoa de raízes fortes, simples, trabalhadora e orgulhosa de onde vem.” E é precisamente essa noção de “de onde vem” – esse chão – que a acompanha quando entra numa cozinha profissional, quando grava conteúdos, quando se apresenta ao público, ou quando se expõe num programa televisivo.

Há uma ideia que atravessa toda a entrevista: a cozinha como um lugar de verdade. A verdade das escolhas, dos ingredientes, do tempo certo. E também a verdade de uma vida fora dos grandes centros, muitas vezes vista com preconceito, mas que, no caso de Marlene, surge como força.

“Às vezes sim, mas vejo isso como uma força. Viver fora dos grandes centros dá-me identidade própria.”
A frase é simples, mas transporta um posicionamento: há uma identidade que não se dilui na pressa, no ruído ou na tendência. Há uma forma de cozinhar que não depende de palco e que, paradoxalmente, ganha palco por ser genuína.

A escola do conforto: arroz, peixe grelhado e “comida de panela”

Quando o Diário do Distrito lhe pergunta que traços do Samouco se sentem à mesa, Marlene não responde com pratos “de assinatura” nem com ideias de espetáculo. Responde com o que chama de cozinha de conforto: “Sim, pratos simples e de conforto. Arroz bem feito, peixe grelhado, comida de panela. Cozinha que aquece e junta pessoas à mesa.”

Nesta visão, a comida não serve para impressionar. Serve para nutrir, aquecer, reunir. E essa filosofia é também ética, uma forma de comprar e de cozinhar mais consciente: “Compro de forma mais consciente, respeito a sazonalidade e valorizo quem produz. Cozinho menos ‘para impressionar’ e mais para nutrir.”

É aqui que a Margem Sul entra, não como cenário, mas como método: comprar perto, conhecer quem vende, reconhecer a origem. Marlene faz questão de dizer onde gosta de estar: “Gosto do mercado, do talho e da peixaria local. Conhecer quem vende faz parte do prazer de cozinhar.”

Num tempo em que a cozinha é tantas vezes empurrada para o espetáculo, esta insistência na relação humana, no “conhecer quem vende”, revela uma visão quase política do alimento: o que comemos é também uma rede de pessoas.

Angola na panela: “técnica de cá, alma de lá”

Se o Samouco lhe dá o ritmo e o sentido de proximidade, Angola dá-lhe memória e intensidade. Quando fala das raízes angolanas, Marlene abre uma porta para uma cozinha de partilha e de identidade.

“Lembro-me de cozinhas cheias, panelas grandes, cheiros intensos e muita partilha.”
E depois, como se a memória tivesse cheiro, acrescenta: “O cheiro do refogado, do dendém, do funge a ser mexido. E os domingos em família.”

Para Marlene, cozinhar pratos angolanos não é “variação” — é compromisso. “É um dia de respeito às raízes. Cozinho pratos tradicionais, sem pressa, com intenção.” E diz, sem rodeios, quais são os sabores que lhe estruturam a identidade: “Óleo de palma, ginguba, malagueta, alho, cebola. Sem isso, falta alma.”

Também há obstáculos, sobretudo no início – ingredientes difíceis de encontrar: “O óleo de palma e alguns feijões específicos foram difíceis no início.” Mas a solução não é abdicar, é adaptar com inteligência, sem perder o núcleo: “Adapto o picante e as gorduras, sem perder identidade.”

E talvez a frase que melhor sintetiza a fusão que a define seja esta, dita com naturalidade: “Por exemplo, um estufado português com temperos angolanos – técnica de cá, alma de lá.”
É nesta frase que a Margem Sul e Angola deixam de ser “duas influências” e passam a ser uma assinatura: uma cozinha de cruzamento real, vivida, sem folclore.

“A cozinha foi o meu refúgio e a minha ponte emocional para criar pertença”

A entrevista ao Diário do Distrito revela ainda uma dimensão íntima: a cozinha como abrigo. Marlene diz isso de forma direta, sem romantização: “A cozinha foi o meu refúgio e a minha ponte emocional para criar pertença.”

Quando questionada sobre se a comida pode ser emocionalmente salvadora, responde sem hesitar: “Sim. Um prato simples de casa pode salvar dias difíceis.” E, dentro dessa escola de vida, há uma regra que se impõe acima de todas: “Nunca apressar um refogado.”

A frase tem algo de lição doméstica, mas também de filosofia: há processos que não se atropelam. Há coisas que exigem tempo. E essa ideia volta a aparecer quando fala do impacto da formação e da prática: “Aprendi a respeitar os ingredientes e a cozinhar com paciência.”
Ao longo do caminho, ganhou “técnica, disciplina e confiança”, mas não esconde o choque: “A exigência profissional foi o maior choque – e a maior aprendizagem.”

Da presença pública ao quotidiano: “a família vem sempre primeiro”

Hoje, muitos a reconhecem como “Chef Marlene” e pela forma como comunica – com energia, alegria e proximidade. Ela diz que nasceu naturalmente: “Nasceu de forma natural. Quero transmitir alegria, proximidade e coragem para cozinhar.”
E reforça que essa leveza é também uma escolha: “É natural, mas também consciente. Escolho levar leveza.”

No entanto, Marlene faz questão de colocar limites claros à visibilidade. Não deixa que a exposição lhe substitua a vida: “Com organização e verdade. A família vem sempre primeiro; a presença pública encaixa-se na vida, não a substitui.”
É uma frase que funciona como bússola – sobretudo num tempo em que a presença pública tende a engolir o privado.

Sobre a relação com quem a acompanha, fala em confiança: “Diz que há confiança mútua.” E quando lhe perguntam sobre a pressão, responde com maturidade: “Sinto responsabilidade, não pressão.”

MasterChef e identidade: “sem folclore”

A participação no MasterChef (RTP) surge na entrevista como mais um capítulo de uma trajetória que ela quer que seja fiel ao essencial. Marlene não quer que a televisão lhe dilua a identidade – quer que a revele: “Quero que revele identidade e coragem.”

E deixa claro o que gostaria de colocar num prato de referência: “Um prato angolano feito com técnica e respeito.”
Sem caricatura. Sem exotização. Sem “moda”. “Sendo fiel às origens, sem folclore.”
E com uma ideia que considera fundamental que o público retenha: “Que comida africana é cultura, não moda.”

“Quando cozinho para a minha família”

Se há um lugar onde tudo ganha sentido, para Marlene, é a família. Quando questionada sobre o momento em que sente orgulho do caminho, responde com emoção contida: “Quando cozinho para a minha família.” E quando fala do motor que a move, não separa vida de cozinha: “Amor por tudo isso — filhos, história e por mim.”

O futuro, diz, passa por um projeto com ADN de comunidade: “Um espaço híbrido: cozinha, partilha e criação.” E quando volta a colocar o futuro no mapa, volta também a colocar o território no centro: “Faz todo o sentido ser no Samouco ou em Alcochete. As raízes mandam.”

Margem Sul no centro do prato

A história de Marlene Cruz contraria duas ideias feitas: a de que a “cozinha relevante” nasce apenas nos grandes centros, e a de que a identidade tem de ser suavizada para ser televisiva. Marlene faz precisamente o oposto: afirma o lugar de onde vem e transforma esse lugar numa linguagem culinária.

No fim, fica uma impressão clara: Marlene não “usa” o território como etiqueta. Ela cozinha-o. Vive-o. E diz-o com palavras que soam a manifesto íntimo: “O Samouco ensinou-me o valor da proximidade, do tempo e da verdade.”

E é essa verdade – a da comida honesta, com sabor e sem artifícios — que, agora, também passa pela televisão, sem deixar de pertencer à Margem Sul.


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