DestaqueExclusivoReportagem
Em Destaque

Do comando até à cozinha: O dia a dia dos militares da Marinha a bordo do navio Andrómeda

Todos os anos, a 20 de maio celebra-se o Dia da Marinha e o Diário do Distrito foi até à Base Naval de Lisboa descobrir como é o dia a dia dos militares da Marinha. Nesta reportagem são entrevistados o comandante do navio Andrómeda, Capitão-tenente Pedro Figueira Saial, e o cozinheiro Nelson Nogueira. 

Na base naval no Alfeite, em Almada, pode ser encontrada a lancha hidrográfica NRP Andrómeda. Vista de fora, no cais, quase que se poderia dizer que reina a calmaria, mas dentro do navio está uma tripulação inteira pronta para a próxima missão. 

“O navio tem duas vertentes: a plataforma e a guarnição”, explica o comandante do navio, Capitão-tenente Pedro Figueira Saial. A plataforma é a estrutura física, motores, ponte, equipamentos, sistemas de navegação. Já a guarnição é aquilo que dá vida ao navio. “Não há navio sem plataforma, mas também não há navio sem a guarnição que o opera.”

Equipamentos científicos, turnos de navegação e refeições preparadas em águas agitadas. Com 14 militares a bordo, três oficiais, três sargentos e oito praças, divididos entre especialidades de acordo com as áreas do navio. Mecânicos, eletricistas, cozinheiros, pessoal da copa e, claro, o comandante e o imediato — o segundo comandante —, o responsável pela navegação e o pessoal ligado às comunicações, todos trabalham para garantir que a missão seja bem-sucedida.  

Comandante Capitão-tenente Pedro Figueira Saial
Créditos: Diogo Alexandre

Para comandar o navio há que ter uma formação específica. “Como comandante do navio, temos uma formação de base, que é transversal a todos os oficiais da Marinha, administrada na Escola Naval. Quando entramos como cadetes, durante cinco anos, somos preparados para este tipo de funções em termos técnicos de navegação, de operação de um navio no mar, as características dos navios, a oceanografia, a hidrografia, a meteorologia, mas também temos uma parte de liderança e gestão de pessoas, muito importante para gerir uma equipa, muitas vezes em ambientes adversos, com a pressão inerente de andar no mar, das operações militares, e também com o tipo de missão específica que cada navio faz. Neste caso, o NRP Andrómeda, sendo um navio hidrográfico, tem missões científicas que somos chamados a desempenhar”, afirma o Capitão-tenente Pedro Figueira Saial.

“Os navios da Marinha Portuguesa, independentemente do seu tamanho, a sua organização interna é estável, ou seja, ser uma lancha hidrográfica, como é o caso da NRP Andrómeda, ou ser uma fragata, ou um navio patrulha oceânico muito maior, a organização interna é a mesma, varia é o número de pessoas, o número de militares que estão em cada serviço, o número de mecânicos, o número de eletricistas e por aí fora”, explica o comandante.  

Créditos: Diogo Alexandre

O navio Andrómeda, sendo uma lancha hidrográfica, está preparado para recolher dados hidrográficos e oceanográficos em zonas costeiras e ribeirinhas. O tamanho e o casco pouco submerso permitem ao navio navegar em zonas menos profundas. 

Segundo o comandante, “a lancha hidrográfica está desenhada para desempenhar ou para cumprir missões de recolha de dados hidrográficos e oceanográficos principalmente numa área mais próxima da costa. As características do próprio navio estão dimensionadas para isso, e fazemos uma série de missões, sejam elas relacionadas com biologia marinha, geologia marinha, química; depende muito do tipo de missão”. 

Conforme a missão, o Andrómeda também recebe a bordo uma equipa especializada. “Para além dos 14 elementos de bordo, embarcamos elementos, sejam do Instituto Hidrográfico, sejam do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, sejam de universidades ou de empresas que peçam a colaboração da Marinha, ou que colaborem com a Marinha. Mediante a missão que seja atribuída, trazem equipamentos específicos e essas próprias equipas também variam na composição dos seus elementos”. 

Créditos: Diogo Alexandre

Cada missão é preparada ao detalhe ainda em terra e todos os riscos são acautelados, desde o estado do tempo até aos fundos marinhos e à rota a seguir.

“Quem vai para o mar avia-se em terra”, recorda o comandante, citando o provérbio português. “Antes de um navio sair para o mar, recebemos e avaliamos o tipo de missão que temos de fazer. É muito diferente de cada vez que vamos para o mar. Vemos a área para onde vamos, por exemplo, o meu oficial, responsável pela navegação, faz o planeamento da missão, quando é que saímos, quando é que chegamos, qual é o caminho que vamos percorrer, quais são os perigos que podem existir nessa determinada área. Se forem missões muito próximas de costas, temos que ter em atenção qual é o tipo de fundos, se são muito baixos ou não, se são fundos de pedra que podem ter impacto ou danificar o tipo de equipamentos que vamos colocar na água”.  

Créditos: Diogo Alexandre

Além disso, é necessário calcular provisões, água e alojamento para todos os que seguem a bordo.

“A própria meteorologia, as condições de mar, de vento, se a ondulação é demasiado grande para o tipo de trabalhos que vamos desempenhar e depois de largarmos para o mar. Temos que fazer também todo o abastecimento logístico, quantas pessoas é que vão embarcar, para além dos 14 elementos que temos, onde é que vão dormir, o que é que vão comer, a quantidade de comida e água que temos que levar”.

A guarnição divide-se em turnos, chamados “quartos”, para assegurar operações durante todo o dia. “Os navios da Marinha e a guarnição estão desenhados e organizados para operar 24 horas por dia, num regime a que chamamos de quartos, ou seja, a guarnição está dividida em grupos que vão rodando em turnos ao longo das 24 horas, o que permite ao navio estar sempre a navegar e a desempenhar a missão. Também há sempre uma ligação muito estreita entre o comando do navio e o responsável pelas equipas técnicas que embarcam, para ver o avanço dos trabalhos, a que horas é que queremos sair do porto e como é que queremos executar o trabalho“.

Créditos: Diogo Alexandre

No caso do Andrómeda, muitas missões são feitas num regime específico: saídas de manhã bem cedo, recolha de amostras ao longo do dia, regresso ao porto, descarga das amostras, preparação do dia seguinte e descanso.

“Neste navio é possível fazer um regime de quartos, períodos de 24 horas seguidas a navegar, mas pela natureza dos trabalhos, muitas vezes o que acontece é o navio ir trabalhar para uma determinada área, seja sul de Sesimbra, a oeste da Figueira da Foz, onde for, e todos os dias faz-se um planeamento para o navio voltar ao porto, porque recolheu amostras durante o dia que têm que ser descarregadas para serem enviadas ao laboratório e serem tratadas”. 

Ao contrário de outras embarcações militares, onde grande parte do trabalho é “desempenhado pelas armas e sensores, ou seja, quem está a bordo é mais operador dos sistemas” ou de patrulha através de radares e sistemas, no Andrómeda a exigência é maior fisicamente. 

“Operamos muitos equipamentos com gruas; temos que recolher dragas, que são os equipamentos que descem para o fundo do mar e recolhem amostras de sedimentos, de areias, de organismos vivos e que nós temos que operar, trazer para dentro, limpar, recolher as amostras”, explica o comandante. “É um trabalho muito mais físico, mas também mais dinâmico.”

Créditos: Diogo Alexandre
Créditos: Diogo Alexandre

“Eu até costumo dizer, meio em brincadeira, que o sangue português tem lá água salgada. Acho que todos temos um bocadinho de alma marinheira.”

O Capitão-tenente Pedro Figueira Saial cresceu no Alentejo, afastado da costa portuguesa, mas a distância não diminuiu a ligação à Marinha. Decidiu que era esse o caminho a seguir e assim fez. “Eu sempre tive um interesse muito particular pelas Forças Armadas, pela história de Portugal, pela nossa identidade nacional e a Marinha acabou por ser o ramo que mais se ligava aos meus interesses pessoais. Eu até costumo dizer, meio em brincadeira, que o sangue português tem lá água salgada. Acho que todos temos um bocadinho de alma marinheira”. 

O comandante explica que a carreira na Marinha “é muito estruturada” e conta um pouco sobre o percurso que fez. “Em particular, sobre os oficiais, nós entramos para a Escola Naval, uma instituição de ensino público universitário militar. São 5 ou 6 anos de curso que, no fim, nos habilitam ao mestrado em ciências militares navais; depois, depende da especialidade que escolhemos. No meu caso, tenho um mestrado em ciências militares navais, ramo de Marinha, porque era mais voltado para navegação, para comando de navios, para operações navais ou operações militares, mas também há a possibilidade de administração, de engenharia, medicina”. 

Para ser comandante, o caminho a escolher era claro. “Como fui para a área de Marinha, mais ligado à navegação e operações militares, dá-me acesso a comandar navios e a participar em outros tipos de operações militares. Saímos da Escola Naval e somos logo integrados na guarnição do navio, primeiro com um posto mais baixo, guarda-marinha, com funções muito específicas de chefe de um serviço ou adjunto de um chefe de um serviço, depende também da dimensão do navio, e depois, ao longo dos anos vamos ganhando experiência, tiramos cursos de especialização, temos acesso a outros patamares da carreira que nos levam a cargos de maior responsabilidade, até chegar a comandante de navios, a comandante de grandes unidades mesmo em terra, ou à condução de operações militares, a operações navais”.

Para subir de posto é preciso tempo e dedicação. “Para ir subindo na hierarquia, no início de carreira, é uma hierarquia de tempo, ou seja, esperamos determinados anos e somos promovidos, mas sensivelmente a meio da carreira isso termina e passa a ser por escolha. Todos os anos somos avaliados; se o nosso desempenho assim o merecer, podemos ser louvados. Temos uma série de condecorações que podemos receber. Esse conjunto de condecorações e avaliações e o currículo que vamos construindo, o tipo de cargos que vamos desempenhando, levam a determinada altura a sermos ordenados conforme esse desempenho prévio. Mais tarde, é por escolha da organização e aí a nossa carreira entra numa fase diferente. Como é transversal a todas as grandes organizações, é uma pirâmide, e se a base é larga, depois começa a estreitar até chegar ao ápice da pirâmide, que é o Chefe do Estado-Maior da Armada, só há um”.

Cozinheiro Nelson Nogueira
Créditos: Diogo Alexandre

A exigência estende-se também à cozinha do navio, “porque diz-se que se a malta comer bem,  já é meio passo para o serviço correr bem”. Quem explica é o cozinheiro do Andrómeda, Nelson Nogueira. 

Trabalha com a ajuda de um despenseiro, gerindo alimentos e abastecimentos semanais para toda a tripulação e, por vezes, para a equipa de investigadores e cientistas a bordo.

“A maior dificuldade é o navio abanar”, admite. “Se o navio não abanar, é tudo muito mais simples”. A ementa é adaptada de acordo com o estado do tempo e as condições do mar. “Temos em conta se estamos atracados, se estamos a navegar, se está mau tempo. Se o navio estiver a abanar muito, não vou fazer fritos, por exemplo. Tento aproveitar quando estamos parados ou quando o navio está calmo para fazer a batatinha frita ou o choco frito”

Contudo, Nelson explica que há espaço para criatividade e é das coisas que mais gosta no trabalho. “Os navios dão-nos alguma autonomia para inovar”, explica o cozinheiro. “Eu sou autónomo; mediante o material que tenho e a variedade, posso tentar inovar para o pessoal também andar satisfeito”. 

A ligação à Marinha nasceu de uma forma diferente para o cozinheiro. Entrou para cumprir a tropa obrigatória, tirar o curso de cozinha e sair. Vinte e seis anos depois, continua a bordo.

“Antes de vir para a Marinha, eu já trabalhava como ajudante de cozinha  e, no fundo, era uma área de que eu gosto. Saiu em 2000 uma lei que dizia que quem trabalhasse em hotelaria tinha que ser certificado. Como trabalhava lá fora, não tinha o curso. Vim para a Marinha em 2001, para cumprir a tropa obrigatória, e tive conhecimento do curso de cozinha. A ideia era tirar o curso e ir-me embora. Já lá vão 26 anos e ainda aqui estou.”

No mar, entre missões científicas e refeições preparadas contra o balanço das ondas, o dia a dia da Marinha é um misto de trabalho de equipa e capacidade de adaptação constante, onde cada função, do comando do navio até à cozinha, é fundamental para cumprir a missão. 


Se tiver sugestões ou notícias para partilhar com o Diário do Distrito, pode enviá-las para o endereço de email geral@diariodistrito.pt


Sabia que o Diário do Distrito também já está no Telegram? Subscreva o canal.
Já viu os nossos novos vídeos/reportagens em parceria com a CNN no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!
Siga-nos na nossa página no Facebook! Veja os diretos que realizamos no seu distrito

fertagus

palmela

Discover more from Diário do Distrito

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading