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Do Barreiro para a Irlanda: Vítor Vicente transforma o regresso em romance inquietante

Entre memórias pessoais, crítica política e reflexão sobre o não-pertencer, o autor assume um tom provocador e híbrido, defendendo que “um livro inócuo é um livro morto” e que regressar pode ser tão perturbador quanto partir.

No papel, regressar a casa parece simples. Na vida real, pode ser um choque. Em O Regresso de Rúben, o escritor barreirense Vítor Vicente pega nessa fratura — a de quem vive fora, volta, e já não encaixa — para construir uma novela contemporânea onde o Barreiro surge não apenas como cenário, mas como marca identitária e memória pesada.

Residente na Irlanda há cerca de uma década, podcaster e fundador do projeto cultural Ring of Culture, Vítor Vicente assume que o livro nasce de uma “amálgama” em que as experiências pessoais “predominam”, ainda que algumas tenham sido “passadas a papel químico” — sem revelar quais. A emigração contemporânea, diz, está mesmo no coração do romance: “As novas vagas, sobretudo as camadas mais jovens, saem para se divertir enquanto ganham o que jamais ganhariam em Portugal”, nota, sublinhando como, no país onde vive, é comum ver pessoas a viajar “tanto com salários acima da média nacional”, mesmo em trabalhos sem exigência de qualificação especializada.

Barreiro: “peso” e pertença

Se a narrativa acompanha um emigrante que regressa após quase uma década fora, o ponto de partida emocional é local: o Barreiro. Para o autor, a cidade tem “muita” importância — “demasiada”, confessa — quase como “um peso”. E essa carga não é neutra, nem apenas nostálgica. Vítor Vicente descreve Rúben como alguém que cresceu num tempo em que “o Partido Comunista ditava praticamente tudo na cidade, sobretudo no domínio das artes e da cultura”, realidade que afirma tê-lo marcado também a si.

A partir daí, o autor assume uma leitura crítica e dura do legado político e cultural que associa a esse período e a essa influência. E é precisamente o afastamento — sair do país e viver fora — que, segundo ele, ajudou a reposicionar a memória: “Sair do país e viver em países que conheceram o comunismo como ele é — opressor e sanguinário — ajudou-me a perceber que as cantigas da igualdade, liberdade e fraternidade são histórias da carochinha.”

No livro, essa tensão entre o lugar de origem e a forma como ele se reescreve à distância cruza-se com outra sensação que o autor considera transversal à experiência migrante: a de não pertencer por inteiro. “Acho que há algo inerente a muitos emigrantes, ainda que nem sempre consciente”, afirma, convocando Fernando Pessoa: “Tem a ver com aquelas ideias do Pessoa, do ‘nada que é tudo’ e de viajar ser perder países.”

Um romance híbrido, sem rótulos — e com “gente ímpar”

A forma do livro acompanha essa inquietação. Vítor Vicente diz que o cruzamento de géneros — romance, ensaio, observação — é “o método habitual” do seu trabalho e que o seu percurso literário foi influenciado por autores como Henry Miller, identificando-se hoje “bastante” com Michel Houellebecq.

Mais do que uma escolha estética, o autor reivindica um modo de estar: “gosto de estilos híbridos, que não caibam em rótulos”, explica, acrescentando que essa recusa do enquadramento não é apenas literária: interessa-lhe também “pessoas ímpares, que cospem na ideia de se juntar ao rebanho”.

É também por isso que, para ele, o livro não procura ser consensual. Pelo contrário, admite que espera sobretudo leitores emigrantes — mas não os que vivem a emigração como um prolongamento de Portugal no estrangeiro. “Emigrantes, com certeza. Mas emigrantes de espírito aventureiro — não do tipo ‘bacalhau aos domingos e coração derretido com um pastel de nata’.” Se isso ofender alguém, responde sem rodeios: “não me preocupa nada. Um livro inócuo é um livro morto.”

Regressar como luto, não como redenção

No centro da narrativa, regressar não é apresentado como final feliz. E, nas palavras do autor, isso não é um capricho: é um diagnóstico. “Porque existe luto e perda pelo caminho”, justifica. “Recomeçar é aceitar um certo tipo de morte. E faz-nos pensar na morte, ela mesma.” Para Vítor Vicente, voltar a um sítio de onde se partiu é enfrentar uma versão do passado que já não existe — e, por vezes, confrontar-se com a própria transformação: “Chegar a um sítio de onde se foi embora não é para meninos.”

Essa ideia do regresso como inquietação, e não como retorno redentor, ganha ainda mais sentido quando o autor descreve o processo de escrita. Diz que escreveu o livro “em Portugal e no estrangeiro” e que o distanciamento lhe ofereceu “outro ponto de vista sobre o país”. O resultado é uma espécie de desidealização, sem ódio, mas com ironia. “Não somos tão únicos como gostaríamos de acreditar ou como nos pintamos”, afirma, relativizando: “Mas isso não é um mal português — a maior parte dos países sofre dessa megalomania. Estais perdoados, portugueses!”

Barreiro, Irlanda e um calendário apertado

Vítor Vicente estará em Portugal entre 17 e 26 de fevereiro, coincidindo com apresentações do livro em Lisboa e no Porto. Sobre iniciativas no Barreiro, não tem nada marcado, mas deixa a porta aberta: “estou disponível caso surja alguma oportunidade”. Ainda assim, avisa que o tempo será limitado: “não terei muito tempo livre, mas claro que farei os possíveis se alguém se chegar à frente.”

O que não parece faltar são projetos. O autor diz ter “projetos literários a mais” e aponta alguns: pretende lançar ainda este ano “o meu diário da guerra entre Israel e Jerusalém” e uma antologia com “os melhores momentos” do seu podcast. Está também a organizar, na Irlanda, uma revista literária — a Witty Wicklow Writers Magazine — com os escritores Jeroen Vandommele e Maria Stavropoulou. “Mas há mais na manga”, acrescenta, rematando com uma frase que mistura ambição e receio, já em tom de diário: “Só não espero ser forçado a adicionar outro capítulo ao diário de Jerusalém — vou para Israel na sexta!”

Quem é Vítor Vicente

Natural do Barreiro e residente na Irlanda há cerca de uma década, Vítor Vicente é escritor, podcaster e fundador do projeto cultural Ring of Culture. É autor de várias obras de ficção, poesia e não-ficção, com o tema da viagem como eixo transversal da sua produção. A sua obra encontra-se traduzida em inglês, espanhol, húngaro, polaco, italiano e estónio.

No fundo, O Regresso de Rúben não é apenas sobre voltar. É sobre o que acontece quando o lugar de origem — o Barreiro, neste caso — continua dentro de alguém, mesmo depois de uma década fora, mas já não cabe na imagem simples de “casa”. Entre a memória, a política, a identidade e o estrangeiro, Vítor Vicente escreve um regresso que dói — e que, precisamente por isso, tenta ser verdadeiro.


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