Discoteca para velhos

Ontem fui a uma discoteca.
Discoteca para velhos, entenda-se. Com fotografias do Zeca Afonso e cartazes dos Rolling Stones lado a lado na parede. Sem se zangarem uns com os outros.
Sem música eletrónica, com música que dá para cantar e para dançar sem fazer a mínima ideia de como. Com solos de guitarra imaginários e baterias inexistentes tocadas com uma convicção absolutamente desproporcional ao talento.
E aprendi que as discotecas continuam a ser um local privilegiado para observação sociológica.
À minha frente estava um casal que precisava claramente de um quarto. Fechado. Ele na casa dos sessenta, ela talvez nos quarenta, o que eliminava desde logo a desculpa das hormonas adolescentes. Eram dois adultos perfeitamente informados sobre o funcionamento da anatomia humana e aparentemente empenhados numa demonstração prática.
À volta, uma pequena amostra da população adulta.
Muitas sapatilhas. Muitas malas a tiracolo, em cima de bancos ou abandonadas em cantos estratégicos. Casacos atados à cintura, pouco estéticos mas extremamente práticos.
Chega uma idade em que o conforto ganha batalhas que aos vinte anos nem sequer o deixávamos disputar.
O DJ era uma porcaria.
Não sabia misturar músicas e deixava-as tocar até ao fim. Mesmo aquelas eternas repetições finais com que pareciam terminar todas as músicas da época. O refrão repetia-se pela terceira vez e nós continuávamos obedientemente a cantá-lo.
A certa altura tocaram Xutos.
Toda a gente cantou aos gritos. Com uma voz em tudo semelhante à do Tim, se ignorarmos a afinação.
Depois veio uma espécie de noite temática de bandas inglesas. Letras atrapalhadas, braços levantados e sotaques que teriam provocado sofrimento físico a qualquer cidadão britânico.
Ninguém parecia importar-se.
Ninguém estava sentado. Ninguém tinha ar assustado. Dançava-se, saltava-se, cantava-se. Com mais entusiasmo do que coordenação.
Foi então que reparei num pequeno grupo de jovens encostado a uma parede. Vinte anos, talvez. Tinham claramente ido ali parar por engano.
Não dançavam. Não cantavam. Quase não se mexiam. Limitavam-se a observar aquela multidão de adultos de meia-idade aos saltos ao som de músicas que provavelmente tinham sido lançadas antes de eles nascerem.
Numa discoteca para velhos, eram precisamente os jovens que pareciam cansados.
Com o avançar da noite, a população começou a mudar.
A faixa etária desceu. A roupa diminuiu. A maquilhagem, sobretudo no sexo feminino, aumentou.
E apareceram os telemóveis.
Fotografias, vídeos, ecrãs levantados no meio da pista. Já não bastava estar ali. Era preciso ficar registado que se tinha estado.
E, com o avançar da noite, chegaram também os inevitáveis disparates.
Cigarros eletrónicos que o segurança ia confiscando. Um leve aroma a claramente qualquer coisa mais do que tabaco. Filas na casa de banho das senhoras.
O habitual dos meus tempos de discoteca, portanto.
E talvez tenha sido aí que percebi que não era apenas uma questão geracional.
Era uma questão de idade.
Quando somos novos, precisamos de pertencer. De parecer bem. De agradar. Sobretudo, de evitar o ridículo.
Com a maturidade — ou a velhice, dependendo da perspetiva — chega uma liberdade que aos vinte anos ainda não conhecemos.
A de escolher sapatilhas em vez de saltos. Atar o casaco à cintura e estragar o visual. Cantar inglês sem saber a letra. Fazer um solo de guitarra sem guitarra ou de bateria sem bateria.
A de dançar como se ninguém estivesse a ver.
Ou com toda a gente a ver, e a dançar tão mal como nós, que ainda é melhor.
Já dizia o Rui Veloso que a primavera da vida não é fácil de viver.
Aparentemente, no outono, dança-se muito melhor.
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